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Você tem fome de quê?

(Texto de Samir Thomaz)

Todos buscam a felicidade, mas ninguém sabe dizer o que ela é. Uma viagem a Paris pode não equivaler ao prazer de uma pescaria num rio perdido na mata. Para alguns, estar rodeado de amigos faz valer o ingresso na existência humana. Para outros, um prato de comida significa a felicidade suprema.

Não é hábito das pessoas quantificar os momentos bons da vida. Quando muito, criamos uma espécie de “etiqueta” para classificar de modo genérico os momentos prazerosos da existência em adjetivos como ótimos, magníficos, inesquecíveis, fantásticos, incríveis. Ou, ao contrário, como ruins, difíceis, dramáticos, angustiantes ou simplesmente tristes os momentos não tão auspiciosos.

No século XVII, um filósofo inglês chamado Jeremy Bentham (1748-1832) criou um cálculo para medir a felicidade. A equação da felicidade de Bentham, que ele chamou de “cálculo felicífico” (felicific calculus, também chamado de “cálculo hedônico”), fazia parte de um projeto moral que consistia em promover a maior felicidade para o maior número de pessoas. O nome desse projeto ficou conhecido como utilitarismo, uma doutrina filosófica moral inserida no contexto do Iluminismo e que influencia pensadores e políticas públicas até os dias de hoje.

Bentham nasceu em uma família de advogados e estudou direito na Universidade de Oxford. Contudo, seus interesses logo se voltaram para a teoria do direito, em vez de para o direito prático. Foi o que o levou a investigar a base moral da sociedade e das leis inglesas de sua época, o que resultou em severas críticas à Igreja, às leis e ao sistema penal britânico. Ficou famoso o seu modelo de prisão, chamado por ele de panóptico, que tem formato circular com uma guarita no centro, de modo que o segurança podia ver todas as celas sem que pudesse ser visto pelos presos.

O utilitarismo de Bentham tinha como base uma premissa aparentemente simples: todos os seres humanos buscam o prazer e evitam o sofrimento. A felicidade, para esse filósofo, era o valor supremo, uma consequência de posturas por ele consideradas adequadas para atingir o objetivo hedônico. Se os efeitos fossem benéficos e aprazíveis, a ação era considerada moralmente correta e justa.

O cálculo de Bentham consistia em mensurar o grau de satisfação ou de benefício produzido pela ação dos indivíduos ou dos governantes e multiplicá-lo pelo número de pessoas alcançadas. Por esse caráter de valorizar os efeitos ou as consequências, a corrente utilitarista era chamada de “doutrina consequencialista”, ou seja, são as consequências – boas ou más – que determinam o valor de uma ação.

Se compararmos o cálculo de Bentham, com seu relativismo moral, com outra doutrina moral importante da época, o imperativo categórico de Kant, com sua rigidez de princípios, talvez fique mais fácil entender a importância do utilitarismo para a história da filosofia moral. Suponha que um grupo de amigos está em um bar num momento de confraternização. Um dos integrantes do grupo recebe a ligação de alguém que, completamente fora de si, pergunta se determinada pessoa se encontra na roda, pois deseja matá-la. Se a pessoa que recebe a ligação for adepta do imperativo categórico, uma conduta baseada na atitude segundo a qual não podemos mentir jamais, ela dirá que sim, que a pessoa se encontra no local. Como consequência, o potencial assassino se dirigirá ao bar e dará cabo daquele que procura. Se, no entanto, sua moral se pautar pelo utilitarismo de Bentham, que leva em conta as consequências e os efeitos, ela desconversará e dirá que a pessoa acabou não vindo ao encontro, que preferiu outro programa – o que, obviamente, será fundamental para que a pessoa procurada seja poupada.

Por esse exemplo fica fácil visualizar de que modo o cálculo de Bentham foi aplicado. Não apenas devemos buscar a máxima felicidade e o bem-estar, como devemos evitar o infortúnio. Se, por analogia, em vez de uma situação banal, que envolve apenas algumas pessoas, projetarmos uma situação para a população de uma cidade ou de um país, o cálculo de Bentham fará mais sentido e ganhará mais amplitude.

É o que podemos depreender de um exemplo bem conhecido dos brasileiros: a campanha contra a fome, liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), nos anos 1990. Nos restaurantes populares que se espalharam por muitas cidades, no auge do programa, com pratos de comida com preços ao alcance de um morador de rua, o cálculo felicífico de Bentham podia ser mensurado não apenas pelo número de pessoas beneficiadas, mas também, de modo particular, pela consequência positiva e absoluta em cada vida atingida.

O utilitarismo de Bentham, no entanto, sofreu críticas vindas da própria doutrina criada por ele. O fogo amigo, nesse caso, veio do filósofo e economista britânico John Stuart Mill (1806-1873), outro fundador do utilitarismo clássico.

Para Mill, a moralidade consequencialista de Bentham, ao eleger a felicidade e o prazer como valores supremos, era limitada. Em um de seus escritos, chegou a se referir à tese de Bentham como “uma doutrina digna de porcos”. Segundo Mill, o ser humano necessitava mais do que a satisfação dos sentidos. Desse modo, ele agregava à duração e à intensidade do prazer pontos fundamentais na concepção de Bentham, a qualidade. Criava, assim, uma hierarquia de prazeres, dando a entender que alguns são melhores do que outros.

Os prazeres oriundos do intelecto ou da arte, segundo Mill, teriam um peso maior no cálculo da felicidade do que os prazeres físicos – como a satisfação da fome, por exemplo. E mesmo dentro dessas categorias haveria subdivisões qualitativas de prazer – ouvir Caetano e Gil seria um prazer mais sofisticado do que consumir funk ostentação; visitar um museu seria mais edificante do que assistir a um jogo de futebol, e assim por diante.

Contudo, não se deve tomar o prazer extraído da fruição de uma arte mais bem acabada como garantia de felicidade. A vida erudita, intelectual, letrada, ao mesmo tempo que traz consigo o prazer do discernimento e do rebuscamento estético, apresenta um grave defeito de fábrica: a consciência de si e da condição humana, o que a arte de massa, considerada superficial e de consumo rápido, e as práticas julgadas mais “rústicas” não oferecem. Conforme escreveu o próprio Mill, com uma certa nota de amargura: “Nenhum ser humano inteligente aceitaria ser um tolo, embora ele se sinta persuadido a achar que o tolo, o imbecil ou o malandro está mais satisfeito com sua vida do que ele com a dele”.

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