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Você está preparado para envelhecer?

(Texto de Carmen Benedetti)

Acho difícil imaginar uma pessoa que tenha por volta de 30 anos conceber se preparar para o envelhecimento como algo além de garantir certa integridade física e conforto financeiro. Aqueles que, em idade mais avançada, alcançaram seus 40, 50 anos, estes sim, diante da perspectiva da proximidade da morte, vivenciam o caminhar rumo ao envelhecimento de forma mais concreta. O assunto deixa de ser do vizinho e passa a habitar cotidianamente e cada vez de forma mais intensa seus pensamentos e sensações, e a negação da finitude, antes um recurso facilmente utilizável, deixa de ter força, dando lugar ao medo, à tristeza e, muitas vezes, à raiva.

Alguns se agarram à negação com unhas e dentes. Lutam com todas as forças contra a maré: fazem plásticas, trocam de parceiros (por mais jovens, é claro), encurtam as saias, malham compulsivamente nas academias, repõem hormônios com a ilusão de que, assim, não sofrerão as perdas inevitáveis, guardadas para todos nós. De um lado, ganham: a negação é um recurso que confere anestesia. De outro, perdem a oportunidade de vivenciar tais mudanças profundamente, manejando-as a seu favor, dentro do possível, e correndo menos risco de se assustar quando, de um dia para o outro, percebem que o envelhecimento é inevitável; à semelhança de outras fases da vida, obriga os indivíduos a se despedir de aptidões, mas também, felizmente, abre espaço para novos repertórios.

O envelhecimento pode se situar como uma fase da vida em que é possível usufruir de coisas até então pouco tangíveis, por falta de tempo, dinheiro, mas principalmente maturidade. Não se trata aqui de romantizar a velhice e perder o senso crítico em relação ao seu impacto sobre o corpo e a mente, mas de olhá-la como mais uma das etapas da vida e que, como todas as outras, guarda peculiaridades acessíveis aos olhos atentos de um observador que a percebe como algo além de um simples intervalo entre o declínio da vida adulta e a chegada da morte. A velhice tem vida própria, e o envelhecimento é uma experiência heterogênea, que depende de como cada um organiza seu curso de vida e da plasticidade individual para recrutar recursos capazes de minimizar os prejuízos que lhe são próprios e aproveitar suas virtudes.

Preparar-se para a velhice, assim, é mais que garantir bem-estar econômico, embora o inclua. Trata-se de gerar, ao longo da vida, condições de bem-estar físico, emocional e social que preservem o potencial individual para o desenvolvimento, respeitados os limites de cada um. A qualidade de vida na velhice depende do delicado equilíbrio entre as limitações e as potencialidades individuais, como em qualquer outra etapa. Na contramão dessa ideia, o estereótipo negativo associado ao envelhecimento gera iniciativas que, em última instância, levam ao despreparo para a idade avançada. Manter-se jovem a qualquer custo impede o amadurecimento gradual, tão necessário ao bem-estar nas idades avançadas. Sobre esse item, lembro-me da resposta do saudoso Paulo Autran a uma entrevistadora, que, na tentativa de elogiá-lo, comentou:

– Mas, Paulo, conversando com você, parece que estou com um homem de quarenta anos.

Paulo riu e retrucou:

– Não me ofenda. Tenho mais de setenta. Suas palavras me fazem crer que dos quarenta em diante não aprendi mais nada.

O preparo para a velhice não tem nada a ver com evitá-la a qualquer preço, mas de aproveitar o caminho para construir, com cuidado, um lugar confortável para que as perdas sejam relativizadas na comparação com os ganhos, que não são poucos, haja visto todo o aprendizado proporcionado pela vida. Construir um lugar confortável, claro, passa por aproveitar as tecnologias disponíveis para viver melhor e também a percepção de que não se vive para sempre, para mudar os objetivos, investir no que dá mais prazer, focar a atenção e a memória em aspectos mais positivos da vida, economizando tempo gasto com assuntos triviais e menos importantes, porque implicam gasto energético e não nos satisfazem. No dia  a dia, isso tudo se transforma em mais prazer com a vida. E que presente maior podemos dar a nós mesmos do que envelhecer assim?

 

Carmen Benedetti é graduada em Psicologia pela PUC-SP, formada em Psicodrama pela Escola Paulista de Psicodrama e doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atualmente é coordenadora projetos educacionais do Estúdio Bogari Produção Editorial Ltda. e psicóloga clínica em consultório particular, atendendo adultos e adolescentes em regime individual, grupal e de casal.

 

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