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Uma visita à infância

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

[…] como se infância fosse um ponto cardeal eternamente possível.

(Ondjaki)

Outro dia, uma colega chegou ao trabalho reclamando para mim: “Você me fez chorar no ônibus hoje”. E logo apresentou a razão: “Estava lendo o livro do Ondjaki que você me indicou e não consegui segurar as lágrimas”. Eu, por minha vez, abri um sorriso enorme, pois sempre fico feliz quando mais um leitor se emociona com as literaturas africanas de língua portuguesa, pelas quais sou apaixonada.

Ondjaki, que na língua umbundo significa “guerreiro”, é o nome literário de Ndalu de Almeida. Autor de várias obras, entre livros de poemas, contos e romances, Ondjaki nasceu em Luanda em 1977, dois anos após Angola ter conquistado a independência de Portugal. Em alguns de seus livros, ele recria, pela perspectiva de um narrador-menino, sua infância vivida em Luanda nos primeiros anos pós-independência.

Em Os da minha rua, livro de contos que indiquei para a minha colega e que a emocionou a ponto de fazê-la chorar, cada estória é como um registro de uma lembrança da infância. Nas vinte e duas estórias que compõem o livro, o narrador-menino relata seu dia a dia em casa, as brincadeiras com os amigos na rua em que morava e com os primos na casa da avó; o recebimento da notícia da morte de uma tia; a ida ao cinema com o casal Mateus e Irene, seus amigos, cujo namoro era acobertado pela mãe do narrador, uma vez que o pai de Irene não aceitava que a filha namorasse um negro. O narrador nos conta também sobre sua participação como estudante em um desfile do Primeiro de Maio; a experiência de ler, em voz alta na sala de aula, um texto sobre um grupo de adolescentes que é encarregado de matar a tiros um cachorro velho e doente e como os alunos se comportaram diante da leitura desse texto; a descoberta do primeiro amor entre dois colegas de classe; as despedidas do fim do ano letivo e as incertezas sobre quais colegas e professores ainda iria encontrar no ano seguinte.

Nessas estórias, podemos observar as mudanças que acompanham o crescimento e o amadurecimento do narrador-menino em uma cidade que apresentava as mudanças ocasionadas pela independência, mas também as permanências dos tempos da colonização.

Na última estória do livro, “Palavras para o velho abacateiro”, o narrador relata o momento em que seus pais, atendendo a um desejo seu, lhe comunicam que permitem que ele vá estudar em outro país. Esse momento simboliza, para o narrador, o fim da infância:

[…] e o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso perguntar aos galhos de um abacateiro velho […]

Ao mencionar que não entende mais o que o abacateiro lhe diz, o narrador anuncia que está completando o seu percurso de amadurecimento e perdendo a sua capacidade de observar e entender o mundo por meio da fantasia e da imaginação da infância. No entanto, ao afirmar que “há coisas que é preciso perguntar aos galhos de um abacateiro velho”, o narrador anuncia que é preciso revisitar a infância como possibilidade de compreensão do mundo.

E talvez seja isso o que nos encanta e emociona tanto em Os da minha rua: o convite que as experiências narradas no livro nos fazem para revisitar a nossa própria infância e, assim, refletir sobre o modo como as experiências e as aprendizagens ocorridas nesse período contribuíram para a nossa forma de ser, estar e atuar no mundo hoje.

Os da minha rua, de Ondjaki. Editora Língua geral, 2007.

Para conhecer um pouco mais sobre a obra de Ondjaki, visite o site do autor: http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html. Acesso em: 4 abr. 2017.

 

O escritor angolano Ondjaki no SESC Paraty durante a Flip 2014.

Crédito da foto: Cláudia Carvalho Neves.

 

 

Cláudia Carvalho Neves é editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

[c.c.neves@uol.com.br]

 

 

Crédito da imagem de destaque: Acervo da Livraria Cultura.

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