Uma viagem pelo universo mágico de Lewis Carroll

(Texto de Maria Schtine Viana) 

Lewis Carroll foi o nome escolhido pelo inglês Charles Lutwidge Dodgson para assinar os livros que escreveu para crianças. É considerado por Nelly Novaes Coelho como “o primeiro grande escritor a se aventurar na área que ficou conhecida como realismo maravilhoso, ou mágico, na literatura infantil moderna.”

Filho de um pastor anglicano, nasceu em 27 de janeiro de 1832, em Cheshire, Inglaterra. Desde muito jovem, revelou talento para a escrita, e seu primeiro conto, “O desconhecido”, foi publicado quando ele tinha 12 anos, em uma revista editada pela escola Richmond College, onde estudava.

A despeito de seu já identificado talento para a criação poética, foi sua mente matemática brilhante e seus conhecimentos de letras clássicas que lhe permitiram receber uma bolsa para iniciar seus estudos no Christ Church College, de Oxford, em 1851, onde também trabalhou por 26 anos como professor de Matemática.

Tinha predileção por jogos de todo tipo e gostava de criar silogismos, brincadeiras matemáticas e jogos linguísticos em que o non sense imperava. Esses aspectos se amalgamaram na produção das duas obras que o imortalizaram: Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá.

Homem de talento extraordinário, produziu mais de trezentos escritos, que incluem textos sobre lógica, tratados de Matemática, artigos sobre fotografia e filosofia, regras para jogos esportivos, textos sobre a importância do teatro para a formação dos jovens e em defesa dos benefícios da vacinação, dentre outros. Era também um grande missivista e enviou e recebeu nada menos que 98.721 cartas. Sem falar da importância de seus diários, mantidos ao longo de toda vida, que facilitaram o trabalho de seus biógrafos.

Em 1855, teve início suas atividades como escritor, quando publicou poemas humorísticos e contos na revista Comic Times, já sob o pseudônimo que o tornaria famoso.

A história Aventuras de Alice no país das maravilhas surgiu em 1862, durante um passeio de barco pelo Tamisa, na companhia do casal Duckworth e três garotas, filhas do reitor do Christ Church College, entre elas Alice Liddell, a protagonista dessa história e do seu segundo livro mais famoso, Através do espelho e o que Alice encontrou lá.

Publicado em 1865, Aventuras de Alice no país das maravilhas obteve sucesso imediato, o que estimulou Lewis Carroll a dar continuidade às aventuras de Alice.

Também foi um passeio, realizado na companhia de Alice, então com 11 anos, que inspirou cenas que podem ser encontradas em Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Esse passeio teria ocorrido durante as comemorações do casamento do príncipe de Gales com Alexandra, princesa da Dinamarca.

A partir de 1897, Charles Lutwidge Dodgson renunciou radicalmente ao pseudônimo Lewis Carroll e veio a falecer em 14 de julho de 1898. A despeito disso, foi com esse nome que entrou definitivamente para a história da literatura.

  

A temática das obras

Os estudiosos da obra de Lewis Carroll afirmam que Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá formam na verdade uma única obra. Elas são ao mesmo tempo paralelas e complementares, apesar de seis anos separar a primeira da segunda.

Os dois livros são construídos com base em um grande número de situações non senses, paródias, alusões, palavras-valise, piadas e jogos linguísticos. Discussões sobre questões referentes à identidade, relativas ao sentido das palavras e a proposições lógicas também são comuns nas duas obras.

Uma leitura atenta desses livros permite ao leitor perceber que há um verdadeiro sistema de referências cruzadas entre eles. Vamos citar apenas algumas: a) as duas obras são compostas por doze capítulos, como doze são os meses do ano; b) a primeira história acontece no verão; a segunda, no inverno; c) nas duas obras, Alice entra em um mundo mágico por portas simbólicas; em Aventuras de Alice no país das maravilhas, essa passagem é uma toca de um coelho; no segundo, um espelho; d) no primeiro livro Alice duvida de sua identidade, no outro, ela esquece o próprio nome; e) as duas histórias têm como tema jogos, Através do espelho e o que Alice encontrou lá acontece em meio a um tabuleiro de xadrez e Aventuras de Alice no país das maravilhas, em meio a um jogo de cartas. Em ambos, portanto, é recorrente a presença de reis, rainhas, cavaleiros e valetes, personagens inspiradas nas peças desses jogos.

Ilustração de John Tenniel, 1865.

Estudiosos de diferentes áreas, da linguística à psicanálise, debruçaram-se sobre as criações de Lewis Carroll. O filósofo francês Gilles Deleuze, por exemplo, se refere a Lewis Carroll como o criador da “primeira grande mise en scène dos paradoxos do sentido” e diz que, por meio dos paradoxos, esse autor destituiu a profundeza das coisas para que elas se mostrassem na sua superfície, e o humor foi o artifício usado por Carroll para fazê-lo: “O humor é esta arte da superfície contra a velha ironia, arte das profundidades ou das alturas.”.

Etimologicamente, paradoxo significa contrário à opinião (doxa), isto é, contrário à opinião recebida e comum. Portanto, o paradoxo parece assombroso justamente à medida que difere do “bom senso”, ou seja, por afirmar a existência de dois sentidos ao mesmo tempo.

Por isso, as inversões/reversões presentes nas aventuras de Alice (inversões da ordem do tempo e de movimentos, reversões de proposições e de causa e efeito, por exemplo) surgem como um paradoxo da identidade infinita e conduzem à contestação da identidade pessoal de Alice.

Não há aventuras de Alice, afirma Deleuze, mas uma aventura: sua ascensão à superfície. A obra de Carroll joga permanentemente com a dualidade dos sentidos, com a proliferação indefinida deles mesmos, com a criação de jogos sem regras definidas e contraditórias entre si. Em Carroll, o não sentido se opõe à ausência de sentido justamente para produzir um excesso de sentido. É o que Deleuze entende por non sense, identificando-o, portanto, ao paradoxo.

Lewis Carroll, exímio contador de histórias, teria, assim, usado esse recurso para destituir o sentido corriqueiro das coisas e, dessa forma, desafiar o leitor atento a criar outras possibilidades de leitura do mundo.

Um mundo às avessas, visto do outro lado do espelho, mas que traz à superfície cristalina outro entendimento das coisas, onde a própria realidade é questionada: teria Alice sonhado com o que aconteceu ou seria ela apenas um sonho do Rei Vermelho?

As possibilidades de interpretação das obras de Lewis Carroll protagonizadas por Alice são muitas, mas o que continua reverberando quando terminamos a leitura, ou a releitura, das aventuras dessa garota irreverente por mundos maravilhosos – onde, ainda que às avessas, regras são impostas – é que é possível enfrentá-las, sobretudo quando tais normas são usadas pelos prepotentes apenas para cercear nossa liberdade de pensamento e crescimento.

Há muitas edições das duas obras mais famosas de Lewis Carroll à disposição do leitor brasileiro, contemplando as obras na íntegra ou adaptadas. Seguem algumas sugestões de leitura para crianças e adultos de todas as idades. Texto integral: Aventuras de Alice (no País das Maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá). Tradução e organização de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus, 1980; Alice no País das Maravilhas. Tradução de Rosaura Eichenberg. Porto Alegre: L&PM, 1998; Alice no País do Espelho. Tradução de William Lagos. Porto Alegre: L± Alice através do espelho (e o que ela encontrou lá); Alice no País das Maravilhas. Tradução de Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Versões adaptadas: Alice no País das Maravilhas. Adaptação de Ana Maria Machado. São Paulo: Ática, 2000; Alice através do espelho. Adaptação de Índigo. São Paulo: Scipione, 2012, Alice no país das Maravilhas. Adaptação de Edy Lima. São Paulo: Scipione, 2003.

 Maria Schtine Viana nasceu em Carangola, Minas Gerais, e viveu alguns anos de sua juventude em Belo Horizonte para estudar Artes Cênicas. Depois, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou durante muitos anos como editora. Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda na Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Crédito da imagem da capa: Clker-Free-Vector-Images/pixabay

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