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Uma palavra sobre cirurgia bariátrica

(Texto de Carmen Benedetti)

            Já tive, no espaço desta revista, a oportunidade de falar sobre obesidade, mas gostaria de dizer mais algumas palavras, não sobre a obesidade em si, mas sobre a cirurgia bariátrica – que tem sido o tratamento eleito para pessoas muito obesas e também para algumas que não são tão obesas assim.

            Desde 1997 trabalho com cirurgia bariátrica. Na ocasião, a ideia de mutilar um estômago saudável para promover emagrecimento parecia absurda. Como psicóloga, ensinada a tratar doenças buscando a causa do sintoma, a cirurgia era o atestado da incompetência. Incompetência do paciente para controlar seus próprios impulsos e também da Psiquiatria e da Psicologia para ajudá-lo nesse controle.

            Passados quase 20 anos deste início de contato com a cirurgia bariátrica, o que posso dizer hoje sobre o assunto é que infelizmente o que a cirurgia da obesidade faz por pessoas obesas é muito, muito mais, do que qualquer outro tratamento já fez.

            Para aqueles pouco familiarizados com o tema é necessário dizer que, antes do desenvolvimento das técnicas cirúrgicas, pessoas gravemente obesas eram deixadas à própria sorte, porque tanto a Medicina, quanto a Psicologia tinham ações pouco eficientes no combate a esta doença gravíssima que é a obesidade, sobretudo quando atinge grandes proporções.

            Mas por que em parágrafo anterior usei a palavra infelizmente? A resposta é simples: porque não deixa de ser triste mutilar um estômago saudável para facilitar que uma pessoa emagreça. O ideal não seria isso. O melhor seria que algo se operasse no corpo e no psiquismo desta mesma pessoa que a fizesse passar por uma sorte de mudança que, em última instância, a ajudasse a emagrecer e continuar magra ao longo do tempo. Mas, por enquanto, não existe nada nesse sentido.

            De fato, a cirurgia bariátrica é uma oportunidade única. Não há dúvida sobre isso. O que no entanto precisa ser enfatizado é que, como toda oportunidade, ela pode ser bem ou mal aproveitada e é na qualidade do aproveitamento que reside a possibilidade de sucesso e de fracasso do tratamento.

            Não estou enfatizando a necessidade de uma alimentação saudável para todo o sempre, depois da cirurgia. Já é de conhecimento geral que a cirurgia não opera milagres e que sem um controle alimentar mínimo há chance de reganho de peso. O foco aqui é outro: mais amplo e profundo. Diz respeito à dependência do sucesso terapêutico diante da capacidade da pessoa de se colocar no mundo de uma maneira diferente. Em outras palavras, algumas pessoas conseguem, via cirurgia, um emagrecimento nunca antes alcançado, mas não o mantém porque tem muita dificuldade de ajustar sua vida à magreza e à normalidade do corpo.

            Para que o emagrecimento ocorra, não é necessário mais do que um balanço energético negativo, ou seja gastar mais energia do que consumir. E para isso a cirurgia bariátrica é um grande aliado, porque altera a fisiologia da pessoa. No entanto, a cirurgia não tem o poder de desconstruir e reconstruir o modo como a pessoa se vê e como se coloca no mundo, com base no deslocamento da condição de obeso para o de pessoa normal. E sem a sensação de normalidade, parte das pessoas que se submetem à cirurgia retoma o peso e a vida de obeso ou vive em sofrimento constante.

            Para quem nunca esteve no mundo como magro, estar magro pode ser bem difícil. Já ouvi inúmeras vezes pessoas refletirem sobre a tristeza da constatação do tempo perdido, da vida pouco aproveitada, por causa do excesso de peso e do sofrimento que ele impõe. Também não são poucos os casos em que os novos corpos magros abalam casamentos, relações afetivas com amigos estruturados, pois a obesidade era parte integrante.

            É próprio do ser humano resistir a mudanças. O acomodamento em qualquer esfera traz inúmeras vantagens: pouco risco, sofrimento já conhecido, ganhos secundários. A mudança é perigosa, mesmo se almejada e implica crise (em maior ou menor grau) porque entre um estado e outro há a ebulição da transição: uma adolescência entre a infância e a idade adulta. No caso de pessoas induzidas ao emagrecimento por meio da cirurgia bariátrica, o processo não é diferente e, embora para a maioria daqueles que estão gravemente obesos, a cirurgia bariátrica seja indicada (não há dúvida quanto a isso), o próprio paciente e sua família devem estar atentos aos pequenos indícios de dificuldades no processo de transição da condição de obeso para a condição de magro e procurar ajuda nos casos em que a adaptação ao novo corpo esteja sendo disfuncional.

            Humor depressivo em pacientes que passaram por cirurgia bariátrica não é indicativo de que o procedimento não deveria ter sido realizado (esta ideia pode levar inúmeros obesos a não usufruir desta modalidade terapêutica e se resignar ao sofrimento que a obesidade impõe). A depressão é, na grande maioria dos casos, indício de dificuldade na adaptação e pode ser tratada. O tratamento nem sempre é simples, mas certamente tem mais chances de êxito do que aquele que visa ao emagrecimento de grandes obesos.

 Carmen Benedetti é formada em Psicologia pela PUC-SP, em Psicodrama pela Escola Paulista de Psicodrama e doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atualmente, é coordenadora de projetos educacionais do Estúdio Bogari Produção Editorial Ltda. e psicóloga clínica em consultório particular, atendendo adultos e adolescentes, em regime individual, grupal e de casal.

Crédito da foto de destaque: Bruce Rolff/Shutterstock

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