Uma flor nasceu no gramado do Maracanã, no inverno brasileiro de 2016

(Texto de Graça Sette)

No fim do show de abertura das Olimpíadas do Rio-2016, milhões de pessoas ouviram a atriz brasileira Fernanda Montenegro e a britânica Judi Dench recitando versos do poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade. Esse é o terceiro dos 55 poemas do livro A Rosa do Povo, lançado em 1945. Os poemas refletem o compromisso do poeta com a gente brasileira e registram dois momentos históricos. Um, internacional: a Segunda Guerra Mundial, na Europa. O segundo, nacional: o Estado Novo de Vargas, no Brasil. Como todas as obras clássicas, A Rosa do Povo transcende o seu tempo e continua atual.

No contexto da festa olímpica brasileira, a flor que brota do asfalto tematizou a questão ambiental, que precisa unir todos os países.

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Como se pode perceber, o natural (“montanhas”, “nuvens”, “flor”), o cultural (“bondes”, “ônibus”, “rio de aço do tráfego”, “asfalto”) e os sentimentos negativos (“tédio”,“nojo”, “ódio”) se chocam, mas a beleza da natureza se impõe.

A mensagem é clara: o que importa é que a flor nasceu e a nossa esperança continua… Como disse sobre ele mesmo o cronista-boêmio-poeta Antônio Maria, quando ficou doente: “brasileiro, profissão: esperança”.

Lembrando o contexto da frase: o médico havia acabado de lhe tirar tudo de que ele mais gostava: a costela, o chope e a feijoada. Mas Antônio Maria seguiu adiante, com bom humor e resignação. Um dia cansou, e veio o segundo infarto. Foi em 15 de outubro de 1964. E escreveu a tão famosa frase: “Com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é: desdenha o próprio coração). Profissão: esperança”.

Resta saber se a nossa esperança é a última… Ou a única que não morre.

 Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se: Trilhas e Tramas (Ensino Médio, Ed. LeYa, 2016); Marcha Criança – Produção de Textos (EF1, Somos Educação, 2016); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Ed. Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Ed. Scipione, 2010); Para ler a Gramática (Ed. Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Ed. Lê, 1999, crônicas).

Crédito da foto principal: Nielskliim/Shutterstock

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