Traição: algumas considerações

(Texto de Lana Harari)

Quando pensamos em traição, a primeira coisa que nos vem à mente é a infidelidade, que acontece com um casal que tem um vínculo afetivo e sexual. Entretanto, a infidelidade é uma modalidade de traição.

Traição envolve engano, decepção e surpresa. Causa dor, vergonha e raiva. Todas as relações, sejam elas significativas (como as familiares, as de amizade ou de trabalho), sejam elas passageiras ou distantes, envolvem trocas: cada um tem expectativas sobre o que vai receber e dar ao outro. A quebra dessa expectativa pode tanto não ter grandes consequências, quanto ser devastadora, dependendo do grau de importância que o outro tem na vida da pessoa ou da gravidade de sua atitude.

A traição pode acontecer, por exemplo, entre pessoas que não têm uma relação significativa e, assim, ter menos peso para elas. Em uma situação social, uma pessoa que mal conheço pode revelar uma informação sobre mim que eu preferia manter oculta: conta que eu não tenho namorado e, assim, me deixa constrangida e aborrecida. Sinto-me traída por essa pessoa, mas nossa relação não vai sofrer grandes transtornos porque não somos próximas. Só vou ter que administrar o prejuízo que isso vai me causar no grupo.

Pode acontecer numa relação significativa, mas ser uma traição sutil. Minha melhor amiga conta ao novo namorado uma mentira desnecessária sobre meu namorado e eu: “Eles não gostam de viajar”, para justificar seu desejo de viajar sem nós no fim de semana. Mais do que uma decepção, essa atitude inesperada da amiga de colocar distância entre nós e preterir nossa amizade em favor de um novo namoro faz que eu me sinta rejeitada e desconsiderada.

Os relacionamentos significativos entre as pessoas são sempre baseados na confiança. A confiança está ligada a uma sensação de segurança que experimentamos ao lado de uma pessoa. Desde o nascimento, a necessidade de segurança é vital para o bebê, que depende de um cuidador para sobreviver. Essa confiança, que se constrói no primeiro relacionamento do ser humano com alguém significativo, vai ser buscada e repetida durante toda a vida nos outros relacionamentos. Queremos e precisamos nos relacionar com as pessoas e precisamos confiar nelas. Os relacionamentos nos proporcionam segurança, na medida em que o outro confirma que nós existimos, que temos importância e somos capazes de despertar amor.

O primeiro olhar que nos garante reconhecimento nos é dado: é o olhar dos pais –ou dos cuidadores que os substituem. Fora da família, mais tarde, a criança vai ter amigos e essas amizades têm muito valor porque elas foram conquistadas. É uma relação entre pares que se espelham um no outro, se confirmam e têm expectativas de que haja lealdade no “jogo” que ocorre entre eles, que compreende regras, ditas e não ditas.

Ao longo da vida, nós nos conectamos com pessoas com quem nos identificamos e ao lado de quem construímos nossa própria identidade. Vivemos uma relação quase fusional com os amigos de quem esperamos receber afeto, apoio, parceria e cumplicidade, com base no que vivemos com nossos familiares. E repetimos essa experiência no amor, quando nos unimos a alguém em quem confiamos e de quem temos muitas expectativas.

Entretanto, como o ser humano é limitado e vulnerável, em algum momento, seja na família, seja entre amigos, seja no trabalho, um de nós vai deixar de corresponder às expectativas do outro, desrespeitar as regras da relação e falhar com o outro. Vai trair sua confiança ao enganar, faltar, mentir, denunciar, negligenciar, aliar-se a outra pessoa, ou mesmo roubar.

Toda traição gera dor, raiva, indignação e confusão naquele que foi traído. É uma experiência extremamente desorganizadora, que deixa a pessoa insegura sobre sua própria percepção da realidade: “Se eu não esperava por isso, o que mais pode me acontecer que não sou capaz de enxergar?”. Seu mundo se desestabiliza: suas certezas, suas crenças, seus valores, sua confiança no outro e na realidade são abaladas. Na nossa mente, não conseguimos nos colocar no lugar do outro e prever suas motivações e seu ponto de vista. Por isso, o choque da descoberta da traição.

No consultório, sou testemunha da revolta e do sofrimento devastadores que aquele que se sente traído experimenta. Pode ser alguém que foi roubado no trabalho pelo sócio, de quem era amigo. Pode ser uma mulher que viu a melhor amiga comprar produtos de beleza que ela mesma vende, em outro lugar. E, como terapeuta de casal, vejo os efeitos que a traição tem sobre os membros do casal, quando um deles faz uma descoberta inesperada sobre o outro: que ele joga, ou que tem muito dinheiro guardado, ou que usa drogas etc.

E vejo sobretudo a dor causada pela infidelidade de um dos dois. A infidelidade é uma quebra do contrato, que varia de casal para casal. Casais que têm uma relação aberta, que compreende aventuras extraconjugais, também têm um contrato com uma cláusula sobre o que é infidelidade. Por exemplo, se ficou combinado que ter relação com alguém que ambos conhecem é inaceitável, quando isso acontece, os dois podem experimentar muita dor, exatamente como sente o casal monogâmico.

Crédito: wavebreakmedia/Shutterstock

As reações daquele que foi traído e daquele que traiu são as mais variadas. O/a traído/a costuma primeiro não reconhecer o parceiro infiel: “Não sei mais quem você é”. Pressionado/a pela necessidade de dar um sentido ao que está vivendo, ele/a pode passar a questionar o outro sobre todos os detalhes da infidelidade. Pode também exigir ter controle sobre seus movimentos e sua privacidade. Quando ele/a pergunta: “Como você pôde fazer isso comigo?”, ele/a expressa o choque e a dor de sentir que sua confiança, seus direitos, suas necessidades e seu valor foram desprezados. Ele/a pode querer terminar tudo imediatamente ou alimentar desejos de vingança, numa tentativa de obter reparação. Mas pode, também, ter uma queda de autoestima que vai reativar antigas feridas narcísicas não resolvidas: “Eu sou uma porcaria mesmo”, “Sou culpado/a por isso ter acontecido”, e ficar à mercê da decisão do outro quanto a manter o casamento ou terminá-lo.

Na terapia, inevitavelmente a situação que se configura é aquela em que há um culpado e uma vítima, e essa dinâmica deve ser delicadamente questionada, já que aquele que traiu comparece no processo terapêutico porque também precisa de ajuda, também está confuso e leva o peso de ser o causador do sofrimento do cônjuge (e de outros que podem ser afetados). Suas motivações, conscientes e inconscientes, também devem ser exploradas. A infidelidade pode ocasionar o fim do casamento. O psicanalista inglês Wilfred Bion diz que é importante saber que existe uma porta de saída que faça o casal sentir que não precisa ficar preso num casamento infeliz. Mas pode também levar a um novo começo, quando os dois parceiros entendem que são imperfeitos e falhos, como todo mundo, e se abrem para a compreensão, tanto do outro, como de si mesmo, com coragem e honestidade. A pessoa que traiu reconhece a dor que causou, busca ter o perdão e dispõe-se a reparar seu erro. Aquele que foi traído se dispõe a ouvir o outro, tem espaço para falar de sua dor e de suas insatisfações, e assume seus erros também. A infidelidade é uma experiência que muda as pessoas, que se descobrem frágeis, fortes, humildes, empáticas. O tecido da confiança que se esgarçou pode então se refazer e uma relação sobre novas bases se constrói. Como disse uma pessoa que conheço que sofreu uma traição: “A infidelidade dele foi a melhor coisa que aconteceu em nossas vidas porque nos tirou do comodismo em que estávamos”.

Crédito: Roman Samborskyi/Shutterstock

Para concluir, quero ampliar a compreensão do fenômeno da traição, que é inescapável. Todos nós traímos e somos traídos. Somos seres plurais, feitos de múltiplas identidades, porque pertencemos a vários contextos (família, amigos, estudos, religião, trabalho) e temos relações com diversas pessoas, dentro das quais ocupamos diferentes posições. Sou mulher, filha, irmã, esposa, mãe, profissional, colega, aluna e, quando estou em cada relação, uma parte de mim trai a outra: quando sou profissional, sou menos mãe; quando sou esposa, sou menos filha. Estamos em constante negociação interna com essa pluralidade e administrando as renúncias e as traições que ela implica.

Estes múltiplos pertencimentos levam inevitavelmente a conflitos de lealdade que me farão ser sempre desleal a alguém, ou a mim mesma, e sofrer a deslealdade do outro, que tem que fazer escolhas tão difíceis quanto as minhas. Somos constantemente colocados em situações de dilema. “Devo escolher desistir da minha carreira para cuidar dos meus filhos ou devo perseguir meu sonho, mas ser menos presente na vida deles (como fez minha mãe)?”.  Traições são necessárias para se ser leal a outro propósito, outra pessoa ou a si mesmo. E muitas vezes, por trás de uma traição aparente, está uma lealdade invisível. As repetições na família são prova disso. O filho acaba sendo infiel no seu casamento, como o foi seu pai, validando assim aquele comportamento que ele tanto desprezou, por lealdade ao pai.

Os conceitos de honra, compromisso, engano e traição não são simples e demandam todo um trabalho para serem analisados e compreendidos no interior da complexidade de nossos processos psíquicos.

 Lana Harari é psicóloga pela USP e terapeuta de casal e família pela PUC.

Crédito da imagem de destaque: Prazis Images/Shutterstock

 

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