TOC

(Texto de Samir Thomaz)

Ela se sentia incompleta. Faltava algo, mas ela não sabia dizer o quê. No metrô, em vão tentou se concentrar nas páginas do livro que trazia a tiracolo. Ela sempre trazia um livro a tiracolo. A memória dispersava. Fechou o volume, reabriu, voltou a fechar. Mal conseguia achar a página em que interrompera a leitura. Então se voltou para o interior do vagão, à procura de um sentido para aquela pantomima sem sentido em volta de si.

Próximo à porta, um cego em pé esboçava um sorriso na comissura dos lábios, alheio ao entorno, mergulhado em seu mundo. Lá fora, o sol prometia uma falsa felicidade. Indiferente, ela voltou ao livro. Abriu-o numa página qualquer. Não fora ali que parara. Fechou-o de novo. A incompletude corrompia o seu ser. Se ao menos achasse o fio da meada. O parágrafo. O sentido das coisas.

O metrô parou em uma estação. O cego virou-se, tateou a bengala com aleatórias picadas no chão do vagão, próximo ao vão da plataforma, sendo logo amparado por um funcionário, que o tomou pelos braços e o levou para longe. A vida é tão diversa. Quantos eus diferentes do seu. Quantas vidas distantes da sua. De quantas variáveis é feita a realidade… E ela ali, com aquele livro nas mãos, sem saber em que página havia parado. Qual era mesmo o enredo? Quem eram os personagens? Que vidas pulsavam naquelas páginas, tão diferentes da sua?

Virou-se de lado e só então viu que uma garotinha com a Síndrome de Down a observava vivamente, como se esperasse dela um olhar de cumplicidade. Mas cumplicidade com o quê?

Ao ver que fora descoberta em sua curiosidade espontânea, a menina levou a mão direita à boca e lhe mandou um beijo, logo seguido de um sorriso sincero. Ela devolveu o beijo, também levando a mão à boca e a soltando no ar.

A menina continuou olhando-a continuamente, encantada com a retribuição do beijo, como se tivesse descoberto uma criatura saída das histórias infantis naquele vagão anônimo de metrô. Mas logo deixou o vagão, puxada pela mãe, não sem antes enviar outro beijo e deixar o rastro de seu sorriso na manhã.

Ela voltou-se para o livro e o abriu novamente, tentando buscar a página em que lera a última linha. Pensou ainda uma vez na menina. A vida é tão diversa.

De repente, o lampejo. Sim! Ele acabara de descobrir o que lhe faltava. Não havia dúvida!

O marcador de página!

Crédito da imagem em destaque: Tupungato/Shutterstock

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