Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

Somos todos empreendedores – ou quase todos

(Texto de Samir Thomaz)

Sim, o empreendedorismo, se não virou moda entre os brasileiros, está virando. A Feira do Empreendedor, que aconteceu em fevereiro no pavilhão do Anhembi, em São Paulo, organizada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), foi uma amostra disso. Durante os quatro dias de duração do evento, quase não se podia andar pelas alamedas da feira, entre estandes com novidades de todas as áreas, apresentadas por empreendedores de diversas idades, gêneros e regiões do país. Esses empreendedores se destacavam por uma característica em comum: sangue nos olhos!

A jornalista e escritora Cristiane Correa é autora de dois livros da área de negócios muito bem vendidos atualmente – as biografias do trio de empresários Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles (Sonho grande) e do ex-dono do Pão de Açúcar, Abílio Diniz (Abílio). Em recente entrevista à Rádio CBN, ela afirmou que o Brasil vive hoje o que os Estados Unidos viveram no início da década de 1950. Parece que o brasileiro finalmente começa a despertar para o fato de que o emprego formal, com carteira assinada e cartão de ponto, é apenas uma opção, entre outras, para ganhar dinheiro e fazer carreira. O empreendedorismo começa a seduzir a turma que aprecia a segurança do dinheiro certo no fim do mês, mesmo trabalhando a vida toda no mesmo cargo. Ou melhor, que apreciava. Alguma coisa começa a mudar no cenário do mercado de trabalho no Brasil.

Feira do Empreendedor, que aconteceu em fevereiro de 2016, no Pavilhão de Eventos do Anhembi, em São Paulo. Crédito: José Cordeiro/SPTrans.

Muito dessa mudança, é verdade, provém da situação de crise econômica que o país enfrenta. A relação é óbvia: com as milhares de demissões ocorrendo, muitos profissionais, com o dinheiro do dissídio em mãos, em vez de procurarem outro emprego, consideram a possibilidade de abrir o próprio negócio. Segundo pesquisa feita pelo Sebrae com participantes da Feira do Empreendedor, cerca de 75% dos que compareceram ao evento estavam desempregados.

O que o Sebrae e os empreendedores experientes aconselham, no entanto, é que se tenha cuidado com a ilusão de liberdade, da posição de mando, do ganho fácil e do glamour que se costuma associar ao ofício de empreender. A maioria dos que obtiveram êxito no campo do empreendedorismo não hesita em afirmar que uma das condições para entrar nesse ramo é não ter medo de trabalhar pesado, no melhor estilo do empresário Antônio Ermírio de Morais, que se orgulhava de dizer que trabalhava cerca de 16 horas por dia. Antônio Ermírio, aliás, morto em 2014, com seu foco no trabalho, sua proverbial honestidade e sua disciplina férrea, pode ser considerado um inspirador do espírito empreendedor que começa a tomar o país.

Uma novidade que essa nova onda apresenta é a quantidade de jovens querendo empreender. Motivados pelas facilidades das tecnologias digitais, muitos desses jovens são nativos digitais, ou seja, já cresceram com a vivência da realidade digital como fato natural do mundo globalizado em que nasceram. É o caso da jovem empreendedora e escritora Bel Pesce, uma paulistana de 28 anos que se formou no Massachusetts Institute Technology, o famoso MIT, prestigiada universidade. Depois de formada, Bel se mudou para o Vale do Silício, meca dos empreendedores que buscam se aprimorar em tecnologia de ponta e que conta, entre seus formados, com 85 laureados com o Prêmio Nobel.

A jovem empresária Bel Pesce e seus livros sobre inovação e empreendedorismo. Crédito: Acervo pessoal.

Bel foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do país pela revista Época, uma entre os 30 jovens mais promissores do Brasil pela Forbes e uma entre os 10 líderes mundiais mais admirados pelos jovens. Recentemente, venceu o Women’s Initiative Awards, prêmio da Cartier cujo objetivo é avaliar projetos de mulheres empreendedoras em todo o mundo, consolidando outra particularidade desse movimento que tem levado as pessoas a empreender: a grande quantidade de mulheres que decidiram se tornar empresárias. Pode-se dizer que é um movimento complementar à massiva entrada feminina no mercado de trabalho formal das últimas décadas. Nesse aspecto, Bel Pesce, proprietária da FazINOVA, escola de desenvolvimento de habilidades, erige-se como um exemplo que muitas jovens têm seguido.

Mas não é só com tecnologia de ponta que os novos empreendedores estão tendo ideias bem-sucedidas. Na verdade, para empreender, não é preciso necessariamente ter um capital inicial, uma equipe de funcionários, equipamentos sofisticados ou até mesmo alugar um escritório como sede. Muitos empreendedores têm começado seus negócios na própria casa, com uma atividade na qual já têm alguma experiência. Este é, aliás, um caminho recomendado por muitos empreendedores bem-sucedidos, aquilo que se chama “validar o negócio”, em vez de correr riscos com investimentos precipitados. É o caso da ex-ambulante e ex-diarista Eliane Nóbrega, de 38 anos.

Em recente entrevista à revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, ela conta que, em 2010, ao passar diante de uma casa em demolição e ver janelas e portas serem descartadas, lembrou que, na família de seu marido, havia alguns donos de demolidoras que não aproveitavam o material das casas que demoliam. Então, teve a ideia de criar um site, contratou uma linha telefônica e anunciou no Google os serviços da Nobre Demolidora. O marido apoiou, embora achasse que a iniciativa seria perda de dinheiro. Atualmente, porém, ele divide a administração com Eliane. No primeiro ano, a empresa faturou 200 mil reais. Na atualidade, a empresa tem sede própria e uma loja para revender os materiais retirados das demolições. Em 2015, com uma equipe de 30 funcionários, faturou 4 milhões de reais.

Empreender com criatividade, em algo que já se conhece ou já se tem experiência, eis um bom começo, quem sabe, para enfrentar a atual crise econômica no país.

Samir Thomaz é jornalista, editor e escritor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros. Atualmente, escreve um livro sobre empreendedorismo para alunos do Ensino Fundamental II, a sair este ano pela Editora Moderna.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *