Rotorruter [caso de caseiro ou o famoso serviço “por fora”]

(Texto de Antônio Barreto)

Para os menos chegados, apenas isso: Rotorruter. Mas, para os diletos: Manezinho, o Grande. Bombeiro, passou a vida inteira desentupindo coisas. Grande papo, grande copo, pé de valsa dos melhores. Chapa dez, inclusive de princípios. Outra: pronto-socorro das donas de casa. Fazia de tudo: consertava, desempenava, botava no prumo, desentortava, lubrificava, remendava e, pela lógica, desentupia. Isso não falando de outro quebra-galho das horas vagas: Manezinho bombeava paixões e aliviava alguns corações solitários que vagueavam lá pelas bandas do Malandro é o gato. Perdeu-se? Não importa, cara leitora: é apenas o sugestivo nome de uma comunidade de tapumes, aglomerados, latas e papelões nas proximidades, ou melhor, nos “alderredores” de Belzonte – como ele próprio gostava de se mapear pelo Gúgal. Localizado o palco do meliante, portanto, vamos ao caso que nos interessa.

Mês passado seus negócios pioraram. O celular já não tocava mais. O Uotizap também, tava vaziinho da silva. E até sua página no Facebook (que vivia repleta de curtidas e compartilhadas) tava ficando infrequentável, abandonada, jogada às traças eletrônicas. Ora, pois, vamos e venhamos: hoje em dia a noite já não é mais criança, concordam? É apenas mais uma adolescente eterna… E como já não se sabe se amanhã amanheceremos todos, Manezinho resolveu “mudar de ramo”, entre aspas. Era melhor se precaver ou, pelo menos, manter o nível do faturamento.

Então? Não é verdade que as Bolsas de Valores quebram todo dia? Um dia na Venezuela, outro em Nova Iorque. Ora em Londres, ora no Pólo Norte. Dia em São Paulo, outro também… E não é verdade que tudo agora depende do que os políticos e os especuladores da Bolsa comeram, beberam ou ventaram na noite anterior? E esse negócio do Petrolão, do Pré-sal? Isso não tá parecendo sal de fruta fervendo em copo de cachaça? Coisa mais pra ressaca, ou pra Pós-sal, já que estamos todos usando energia fóssil (de fossa, privada, latrina), quero dizer… Então? E a inflação? Dia sobe, outro também. Nossa inflação tá mais sobe-descente que usuário de “viágara” – era assim que ele dizia. Concordam? E o preço da cesta básica do Vagabundil lá de Brasília? Não tá lá pelos olhos da cara e da coroa?

Pois bem. Manezinho foi à luta. Não fez fita com Deus. Chamou Borocochope: amigo do peito, poeta de chorinho e samba-desenredo da Unidos do Milium. Pagou pra ele uma engasga-gato, um chá de cobra, um caldo de mocotó, dois pratos de dobradinha, cinco pastéis e uns dez chopes. Aí, lá pelas tantas, na muganga da noite, o anúncio que ele queria ficou prontinho. Bem bolado, essa belezura que vos passo. Olhem lá:

Embaixo da rima colocou o número do celular. Mandou imprimir. E foi pá e pimba! Espalhou o anúncio pelos condomínios fechados da Zona Sul. Pronto!

O caso é real, juro. Mas vou contar apenas o pecado. Não conto a santa, nem o cantinho do céu onde o milagre aconteceu. Se não, tou no curé… E só declino o nome fictício dela. Por hora: Marietta.

E assim se deu: o celular do Manezinho finalmente tocou. Ele vestiu roupa boa. Botou boné do Atlético para dar sorte. Amarrou a maleta de ferramentas na garupeira da bicicleta. E se mandou. Ia começar vida nova no campo, ou melhor, no condomínio fechado.

Lá chegando, Marietta (sessentona bem conservada, viúva de posses), já há muito precisando de uma revisão no reparo das válvulas do amor – coisa a que os portugueses batizaram, deverasmente, de “autoclisma da retrete” – não se conteve no serviço a fazer. Rabiola desempenada e ainda no prumo, recebeu Manezinho de robe de chambre transparente. Copo de uísque na mão. Bebinha e já muito alegre-zuretinha-zuzo-bem-da-zilva, filizdavida, detonou:

– Pago três salários por mês, Tigrão! – Tigrão? Manezinho, o Grande, se apequenou no sofá da sala. “Será uma nova marca de PVC? Massa plástica? Cola de cano? Ou será o serviço extra, o por fora?” – pensou. Suspirosa e perfumada de Ballantine’s, porém, Marietta já foi se aproximando rapidinho da caseiragem. Passou sensualmente a mão no narigo dele. Deu um piparote no seu boné. E ameaçou tirar o penhoar. Remendou:

– Aaaaaiiii, Tigrinho… – Ao que o Manezinho, transtornado, vislumbrou a porta de saída. “Tigrinho agora? Êeeeepa!”… E deu no pinote. Pegou a maleta, montou na bicicleta e foi-se. Antes que tivesse de consertar o reparo de uma coisa que ele ainda não conhecia. Coisa dos dias de hoje, dos tempos pós-eletrônicos: os mistérios elétricos e os desejos hidráulicos de uma madama viúva, desimpedida, bebalegre, soletrada, fogosa e caçadora voraz: Dona Marietta… com dois “tês”.

No caminho de volta, incomodado pelo assédio viuval, ainda se consolou numas de poeta. Pagou três dedos de conversa com a turma do Malandro é o gato. E abriu o registro:

– Melhor cair do telhado que do céu. Eu, hein? – decretou.

– Cê não pegou o trabáio não, Mané? – a turma quis saber.

– Nem morto, uai! Coração de madama atrasada, mermão…

– Cumo anssim?

– O “selviço” era com “tê” de três quartos, desses que nem joelho de meia desvia, nem tampão de 5/8 sossega!

– Que rabo de foguete, Mané! – todos exclamaram.

– Pois é… – filosofou nosso herói – O pessoal que agora me chame de Mané Pequeno, uai! Mas “selviço” de marido eu não faço!

 Antonio Barreto nasceu em Passos (MG) e reside atualmente em Belo Horizonte. É cronista, contista, poeta, romancista e autor de livros infanto-juvenis. Ganhou diversos prêmios literários, como João-de-Barro, Ezra Jack Keats (Unicef), IBBY (Unesco) e foi indicado várias ao Prêmio Jabuti. Escreve regularmente para jornais e revistas impressas e eletrônicas, no Brasil e no exterior. Alguns de seus romances: A barca dos amantes (Lê); Crônicas adoidescentes e Lixo cósmico (Mercuryo Jovem); O papagaio de Van Gogh (Lê). Contos: Os ambulacros das holotúrias e Reflexões de um caramujo (UFMG). Poemas: O sono provisório (Francisco Alves); Vastafala (Scipione); Vagalovnis (Autêntica). Infanto-juvenis: Balada do primeiro amor; O velho pássaro da lua, No beleléu e Brincadeiras de anjo (FTD); O menino que não sonhava só (Mercuryo Jovem); A desdorminhoca (Dubolsinho). Facebook: https://www.facebook.com/antonio.barreto.12139

Crédito da foto de destaque: Carlos Asanuma

 

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