“Retratos da escola”: uma antologia fundamental, um presente inesquecível

(Texto de Graça Sette)

 

“Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida

de que aquilo era a porta da própria vida.”

(Affonso Romano de Sant’Anna – “Porta de Colégio”)

Retratos da escola, antologia organizada por Adriano Macedo e publicada pela editora Autêntica, é uma coletânea de textos clássicos e contemporâneos, um conjunto de “fotografias literárias” em que escritores de diferentes épocas narram experiências vividas por suas personagens, na escola.

Os textos reunidos também promovem um interessante diálogo entre autores como Machado de Assis e Raul Pompéia – que viveram e produziram suas obras no século XIX – e contemporâneos, como Affonso Romano de Sant’Anna, Luiz Vilela, Lourenço Diaféria, Marcos Rey, Branca de Paula, Francisco de Morais Mendes e o próprio Adriano Macedo.

Tais textos ficcionais ambientados no espaço escolar, ou mesmo fora dele, são separados por nada mais nada menos que dois séculos de distância. Mas a dinâmica da escola, que é a motivação dos conflitos e das ações das personagens, do ponto de vista humano, não se alterou. Estão presentes a relação conflituosa com a autoridade, o medo, a delação, a corrupção, as dúvidas, a culpa, o arrependimento: emoções e sentimentos que permeiam sempre as relações humanas, dentro e fora da escola.

Não existe mais a palmatória; e os internatos de meninos e meninas, talvez, também não. Mas as relações de poder no interior da instituição permanecem as mesmas. Afinal, de alguma forma, são representações e reflexos dessas relações na própria sociedade. Em alguns textos, o leitor vai perceber que a escola é representada como uma prisão, um espaço opressor. Em outros, escola é vida, e não uma “preparação para a vida”, como costuma se dizer no senso-comum. Em outros textos, ainda, ela é retratada em tom mais lírico, mais otimista e intimista. Há contos em que narradores-protagonistas contam suas reminiscências; e narradores-observadores narram conflitos e peripécias vividas pelas personagens durante a vida escolar. Leia, a seguir, uma minidegustação de cada texto, revelando o tema…

O clássico e fundamental “Conto de escola”, de Machado de Assis, narra o primeiro contato de um menino com a delação e a corrupção. Os fatos narrados aconteceram no século XIX, mas poderiam muito bem ser contextualizados na época atual, em qualquer cidade brasileira.

No conto de Luiz Vilela, “O Professor de Inglês”, o primeiro dia de aula de Carlos – que chega atrasado à sala, durante uma arguição – transforma-se em uma experiência que pode deixar marcas na vida do rapaz.

Em “Porta de escola”, de Afonso Romano de Sant’Anna, o narrador olha amorosamente para um bando de adolescentes em frente a um colégio e divaga a respeito do futuro desses jovens, que, em sua opinião – enquanto estão na escola –, ainda se encontram protegidos dos perigos da vida.

Já em “A prova de Matemática”, de Adriano Macedo, a personagem tenta desesperadamente conseguir fazer uma prova que perdeu. É uma situação familiar a qualquer estudante, mas a solução que a menina encontrou pode trazer consequências graves.

“Pisando leve”, de Branca Maria de Paula, tematiza os namoros adolescentes e narra as vivências de duas meninas que estudam em um internato. Você que troca mensagens pela internet (ou pelas redes sociais) o tempo todo não vai acreditar na dificuldade que era enviar uma simples cartinha aos namorados, na época em que essa história se passa.

Há também um trecho do romance O Ateneu, em que Raul Pompéia narra o primeiro dia de aula de Sérgio, no internato, quando ele é recebido pelo rígido diretor Aristarco. Desde aquele momento, o narrador-protagonista vivencia um clima de medo e opressão no colégio.

“Coração roubado”, de Marcos Rey, é uma história comovente a respeito da dúvida e da injustiça. Você já imaginou desconfiar de um colega e depois de quarenta anos descobrir que foi injusto com ele?

Em “Cesta lírica”, de Lourenço Diaféria, o narrador conta o distanciamento dos colegas de sua “boa turma”, após a conclusão do curso, e as aventuras de um deles, o Bombarda. O que teria acontecido com cada um?

Em “A luta do ano”, de Francisco de Morais Mendes, os protagonistas são os “marrentos” da escola. Os brigões estão sempre envolvidos em confusões. Como teria sido mesmo aquela famosa “briga do ano”?

Ao escolher os textos dessa antologia, o organizador Adriano Macedo teve muita sensibilidade, tanto em relação à qualidade literária como à escolha de temas relevantes. Afinal, a escola é uma ponte entre a casa e o mundo. Nas salas de aula, o estudante percebe e observa o outro e tem de lidar com as diferenças. É onde aprende a conviver e a compartilhar; tem contato com novos conhecimentos e amplia o que já sabe a respeito da realidade.

Retratos da escola, enfim, é uma excelente leitura para jovens e adultos. E um ótimo presente de Natal, desses que podem se tornar “inesquecíveis para sempre” – como os nossos velhos e novos tempos de escola.

RETRATOS DA ESCOLA (Org.: Adriano Macedo)

Páginas: 88/ Preço: 35,00

Editora: Autêntica/ Site: <http://grupoautentica.com.br/>

 Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se Trilhas e Tramas (Ensino Médio, LeYa, 2016); Marcha Criança – Produção de Textos (EF1, Somos Educação, 2016); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Scipione, PNLD 2010); Para ler a Gramática (Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Lê, 1999, crônicas, Prêmio Jabuti/2000).

Crédito da imagem de destaque: Acervo da Editora [Pesquisa: Neuza Faccin]

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