Relacionamentos tóxicos: reconheça, entenda e liberte-se

(Texto de Josie Conti)

Em farmacologia, o potencial tóxico de algumas substâncias depende da quantidade ingerida e do tempo durante o qual são administradas. Uma mesma substância, aplicada em dosagens diferentes, pode curar ou ser nociva, levando à morte.

Nos relacionamentos humanos, permeados por personalidades diversas e nuances de humor cíclico, uma pessoa também pode se descobrir envolta em relações nocivas. Estas, em vez de contribuírem para o crescimento e a evolução pessoal, promovem sentimento de culpa e medo, fazendo a pessoa se sentir insignificante e incapaz.

Tóxico, então, não é aquilo que nos é estranho; e sim, aquilo que gera uma troca negativa e não nos permite crescer. Os relacionamentos tóxicos podem ser protagonizados, até mesmo, pelas pessoas mais próximas, das quais deveríamos esperar apoio e afeto, como nossos amigos, familiares e parceiros amorosos.

Assim, se entendermos que nas relações saudáveis as pessoas prioritariamente oferecem apoio mútuo e contribuem para o crescimento umas das outras, a primeira lição do processo de libertação de um relacionamento tóxico é identificar e aceitar que, na maioria das vezes, ele cresceu e criou raízes nas nossas relações mais íntimas e básicas, desde o princípio, com a nossa permissão.

Não podemos nos iludir e crer que existem apenas chefes e políticos tóxicos, configurando relações distantes e pouco relacionadas à nossa vida afetiva. O comportamento tóxico pode estar na base das relações que temos com nossos pais, filhos, avós, irmãos, maridos, esposas e, até mesmo, em como nós mesmos nos comportamos. Não há cargo, condição social, papel hierárquico ou mesmo familiar que exclua alguém de se comportar de maneira negativa, destrutiva ou mesmo manipuladora. Ou seja, nem sempre as pessoas que amamos ou que achamos que deveríamos amar são boas para nós.

Por que demoramos tanto para nos percebermos em uma relação tóxica?

As relações humanas são permeadas por sentimentos. As emoções envolvidas no dia a dia podem, assim, atrapalhar o discernimento e a imposição de limites necessários para a preservação do amor próprio. Quanto há afeto, é comum confundir, por exemplo, amor com perdão incondicional e pode se tornar rotina trocar a assertividade por atitudes complacentes e de adiamento de conflitos.

As armadilhas afetivas que sustentam as relações tóxicas costumam estar relacionadas a uma visão idealizada das pessoas queridas, ao medo de desapontá-las, de perdê-las e da solidão diante dessa perda. Como a manipulação é um mecanismo fortemente usado em relações tóxicas, as chantagens afetivas levam às concessões e a um ciclo de direitos pessoais cada vez mais invadidos. Ou seja, quanto mais uma das pessoas cede, mais infeliz ela se torna, menor é sua autoestima e mais fragilizada ela fica para retomar as rédeas de sua vida.

O ciclo descrito no parágrafo anterior é o que impede, muitas vezes, as pessoas de saírem de situações de abuso em relações psicológica e/ou fisicamente violentas. Existe uma construção de identidade fragilizada que pode ter começado desde a infância com pais violentos, dominadores ou mesmo superprotetores – tanto a superproteção como a dominação impedem o desenvolvimento de autonomia.

Pessoas tóxicas vivem às custas da fraqueza daqueles que estão ao seu redor, e o lado mais fraco pode ser qualquer um: do avô ao filho de 2 anos, que já crescerá com um referencial de “amor” distorcido e ligado apenas a ciclos de aceitação de violência, alternados por ganhos de “amor em migalhas” durante a reconciliação.

Como aprendem que merecem muito pouco e que não são dignos de mais, não conseguem se libertar facilmente. Quem cresce em ambientes assim tem grande probabilidade de desenvolver transtornos mentais ao longo do tempo, pois tudo o que deveria ter sido sua base emocional foi construída sobre um modelo de desequilíbrio de emoções. Logo, a pessoa cresce sem referências e fragilizada, tornando-se uma vítima em potencial de novas relações com características similares. Talvez ela não encontre outra forma de se relacionar, simplesmente porque ainda não aprendeu que as relações podem acontecer de maneira diferente.

Nossos hábitos nos definem e por isso devem ser revistos e podem ser mudados

Assim como uma substância pode passar de remédio a veneno, nossos atos podem transitar de saudáveis a nocivos ao longo de nossas vidas. Dependendo da situação, podemos nos manter em uma situação tóxica criada por outra pessoa, assim como podemos ser os protagonistas de ciclos de toxidade emocional que envolvem pessoas que conhecemos, familiares ou mesmo colegas de trabalho. De um extremo a outro, alguns aspectos comportamentais devem ser observados para que não mordamos a isca que nos levará a distorcer valores e realizar uma leitura deturpada da realidade em que estamos inseridos. Ou seja, existem sintomas de comportamento tóxico quando:

  • A pessoa não se responsabiliza por seus atos e muda o foco dos problemas para outra pessoa, a qual é definida como culpada e responsável por suas mazelas. Ao fazer isso, gera no outro sentimentos de desconforto, responsabilidade e culpa que não lhe pertencem.
  • Recorre à posição de vítima para ganhar atenção e conseguir barganhas sem apresentar movimento de mudança. A vitimização, nesse caso, não é fruto de alguém que viveu em condições diferentes e não conseguiu se levantar, e, sim, de alguém que usa da culpa do outro para manipular e conseguir o que quer.
  • Uma das partes envolvidas na relação vivencia constantemente um sofrimento que é maior que o prazer alcançado na convivência.
  • A pessoa nunca consegue fazer uma observação positiva e usa da crítica destrutiva, da arrogância e da inveja para depreciar, difamar e fragilizar outras pessoas.

Como superar um relacionamento tóxico

  • Saiba que a maior parte das manifestações de violência não é física e, se a convivência com alguém está lhe causando mal-estar, é preciso reavaliar a situação.
  • Lembre-se de que quem apenas critica não costuma ser dotado de autocrítica adequada. Logo, se alguém só o procurar quando precisa de alguma coisa, só entrar em contato para falar mal de alguém ou se raramente tem algo de bom para dizer a você, mantenha a maior distância possível: dar limites é o ponto-chave para o processo de desintoxicação.
  • Diga claramente o que precisa ser dito, mesmo que isso gere alguns desconfortos. Se a pessoa não puder aceitar quem você é e como pensa (guardando os limites de civilidade), não existe possibilidade de construir uma relação saudável.
  • Tire o outro do pedestal da idealização e entenda que alguns comportamentos realmente podem ser nocivos.
  • Peça ajuda. Ninguém tem todos os recursos para lidar com relacionamentos complexos. As relações são construídas e, muitas vezes, pensar sobre o caso com pessoas de sua confiança ou buscar um profissional de saúde mental pode abrir caminhos para novas possibilidades e maneiras de viver e se relacionar.

Lembre-se de que não escolhemos quem são nossos pais, filhos, irmãos ou quem serão nossos colegas de trabalho. Também não controlamos a maioria dos problemas que surgem ao longo de nossas vidas. Entretanto, somos seres inteligentes e emocionalmente capazes de optar pelas mudanças e nos adaptarmos a elas. Se existe uma coisa que a vida ensina, é que podemos aprender com os nossos erros e traçar novas rotas. A partir do veneno, que façamos sua vacina.

 Josie Conti é blogueira e empresária. Após trabalhar por muitos anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, conjuntamente com sua equipe, trabalha prioritariamente na internet, na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como CONTI outra, A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 8.5 milhões de usuários. Escreve também para a Contemporânea Brasil.  

2 Comentários

  1. Rosali Aguiar da Silva

    Obrigada pelo texto e a forma didática que foi apresentada. preciso muito deste olhar. Estou vivendo em um relacionamento tóxico e não consegui um até agora um diagnóstico tão preciso. sei que preciso de ajuda.

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    1. Josie Conti

      Oi Rosali. Fico feliz em saber que o texto a ajudou a enxergar melhor algo que está passando e a fazendo sofrer. Identificar o problema é sempre o primeiro passo. Saber que precisa de ajuda é o que te motivará a buscá-la e eceitá-la. Força!!!

      Responder

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