A que geração você pertence?

(Texto de Samir Thomaz)

 

A fragmentação social é uma das marcas do nosso tempo. Uma de suas manifestações mais visíveis é a classificação por gerações. Baby boomers, X, Y, Z… De qual geração você faz parte? Qual é a pertinência dessas codificações? A quem interessam?

Existe um embate silencioso atualmente no ambiente corporativo. Munidos de suas armas práticas e conceituais, pelo menos três gerações agregam ao já competitivo e acirrado mercado de trabalho uma disputa não declarada pelo protagonismo no interior das corporações, no cenário da chamada “nova economia globalizada”. São elas: a geração baby boomer (grosso modo, os nascidos no pós-guerra, entre 1946 e 1960), a geração X (1960-1989) e a geração Y (1989-2000). A geração Z (cerca de 2000 até os dias atuais), embora já esteja por aí, ainda não está na idade de exercer uma profissão.

Quem está roubando a cena no conflito geracional nas empresas são os ypsilons, a geração da vez, em oposição aos xis, o pessoal que está nos cargos de chefia das organizações ou goza da reputação de especialista em alguma área. Recentemente, o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella, um legítimo representante baby boomer – ele é de 1954 – fez duras críticas à geração Y, afirmando que são bem formados, porém mal educados. “Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela”, complementou Cortella, em entrevista à BBC Brasil.

A despeito da pertinência ou não da afirmação, o professor não fez mais do que jogar lenha na fogueira de uma discussão que vem ocupando pais, professores, profissionais de RH, além dos próprios interessados no assunto, os xis e os ypisilons. Na prática, o que está em jogo é a demarcação de territórios. Os xis jogam com a experiência profissional e de vida; os ypisilons, com a inovação e o domínio das recentes tecnologias digitais.

Crédito: Eugenio Marongiu/Shutterstock

Crescidos nos anos da ditadura militar pós-1964, no cenário da Guerra Fria, os xis brasileiros diferenciam-se dos baby bommers da década de 1950 pela revolução comportamental que viram nascer nos anos 1960. Há um claro contraste entre os jovens bem comportados dos anos dourados da década de 1950 e os hippies e militantes políticos dos anos 1960. Foi a ocasião em que as diferenças entre uma geração e outra começaram a chamar a atenção da propaganda e do marketing, que viram nessas incongruências uma oportunidade de vender produtos que valorizassem uma geração em detrimento da outra. É dessa época um famoso slogan que dizia que a juventude era “uma calça velha, azul e desbotada”. Estava criada a rebeldia juvenil, com seu gosto pela transgressão das regras. Nesse período, os baby boomers ocupavam os cargos de chefia nas empresas, enquanto os xis não passavam de adeptos do desbunde contracultural.

Fazendo um exercício de imaginação, fica fácil perceber que agora os xis estão no papel dos baby boomers dos anos 1960 e 1970 e os ypisilons no lugar dos xis. As críticas aos jovens são parecidas com as que eram feitas aos jovens libertários daquelas décadas. Há até mesmo um denominador comum entre eles, que, contudo, em vez de uni-los, os distancia ainda mais: uma revolução. Se nos anos 1960 a revolução comportamental abria um fosso entre os boomers e os xis, agora a revolução tecnológica é que trata de deixar claro o oceano que existe entre o mundo analógico dos xis e o universo digital dos ypisilons.

Não faltam críticas à geração Y, se comparada à geração X – e quem mais os criticaria com tanta veemência senão a própria geração X? Se os xis ainda frequentam bibliotecas e ainda se apegam aos impressos (jornais e livros), os ypisilons estão sempre conectados, com seus tablets, smarthphones e ipads. Se os xis ainda valorizam o tempo de casa nas empresas, os ypisilons (ou millenials, com também são chamados) são ansiosos e imediatistas, não ficando muito tempo em um emprego. Se os xis ainda respeitam a hierarquia, os ypisilons não digerem muito bem a ideia de receberem ordens, uma vez que estão convencidos de que o mundo lhes pertence. Nenhuma situação materializa mais esse curto-circuito no mundo corporativo do que aquela em que um xis passa a ser subordinado a um ypisilon.

Contudo, há um meio termo nessa discussão. O bom senso acena em meio às diferenças de parte a parte. Alguns estudiosos, à luz da sociologia e da administração, entendem que esse embate faz parte da dinâmica de transição das sociedades. O que o faz objeto de discussões tão acaloradas é o fato de que nunca essas balizas geracionais e comportamentais estiveram tão bem demarcadas e visíveis como agora. Isso decorre dos recursos tecnológicos de que dispomos em plena era da informação, que tornam os dados mais tangíveis e os contrastes da fragmentação social, uma das marcas do nosso tempo, mais veementes. Tanto que já se fala em uma nova geração a cada dez anos. Haja alfabeto para designá-las.

Crédito da imagem em destaque: Konstantin Chagin/Shutterstock

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