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A primeira romancista brasileira: Maria Firmina dos Reis

(Texto de Graça Sette)

 Você conhece os sentidos dos nomes Maria e Firmina?

Maria (nome de origem incerta, provavelmente do hebraico Myriam ou do sânscrito Maryáh) significa “senhora soberana”, ou ainda, “a vidente”, “a que tem pureza” ou “a virtuosa”. Já Firmina veio do latim e significa “firme, forte, constante, vigorosa”.

A primeira romancista do Brasil recebeu esses dois nomes e os tomou como norte para a sua vida.

Maria Firmina dos Reis (1825-1917), afrodescendente, de São Luís, nasceu no século XIX e foi criada pela mãe na cidade de Guimarães (interior da província do Maranhão), pois o pai não a reconheceu como filha. Autodidata, construiu, por meio da leitura, seus conhecimentos, sua visão de mundo comprometida com as questões étnicas, sociais e econômicas de seu tempo.

Mesmo sem ter frequentado o ensino formal, foi aprovada em primeiro lugar para uma vaga de professora primária em concurso público estadual, em 1847, em Guimarães.

Para que os meninos e meninas pudessem ter a educação formal que ela não teve, fundou a primeira escola mista, gratuita, do Brasil. Essa ação inusitada ocorreu em uma época em que crianças e jovens de classes abastadas estudavam em colégios separados, com currículos voltados para formar os dois gêneros de forma diferenciada e sem proximidade. A maioria do povo não tinha acesso à escola.

Sempre pioneira, Maria Firmina lançou, em 1859, o primeiro romance da literatura afro-brasileira escrito por uma mulher: Úrsula. Nessa obra, as personagens negras e escravizadas têm voz, denunciam a escravidão e relatam a saudade da África de onde foram tiradas à força como produto de exportação. Como neste trecho:

Sim, para que estas lágrimas?!… Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! Liberdade… ah! eu a gozei na minha mocidade! – Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo se respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias, e aí com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daquelas vastas praias.” (REIS: 2004, p. 115)*.

Ou em:

 

“Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa.

Durante a campanha abolicionista, em 1887, publicou, no número 3 da Revista Maranhense, o conto A Escrava, reafirmando sua militância antiescravagista. Uma personagem desse conto assim se expressa:

“Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio, e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado. Ainda dela nos vem o opróbrio, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres; por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um dentre nós convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo.”

Publicou ainda, um pouco antes (em 1861/1862), um romance indianista intitulado Gupeva e um livro de poemas: Cantos à beira-mar, em 1871. Além disso, Maria Firmina foi colaboradora assídua de vários jornais da época, como: Parnaso maranhense; A ImprensaPublicador MaranhenseA Verdadeira MarmotaAlmanaque de Lembranças BrasileirasEco da JuventudeSemanário MaranhenseO Jardim dos MaranhensesPorto LivreO DomingoO PaísA Revista MaranhenseDiário do MaranhãoPacotilhaFederalista, entre outros.

Com coragem e jogo de cintura suficiente para encarar a sociedade intelectual machista de seu tempo, ela também compôs músicas clássicas e populares, musicou uma letra de Gonçalves Dias e compôs o Hino da libertação dos escravos, em 1888.

Assim, rompeu com os padrões de uma sociedade patriarcal e provinciana, ao tematizar em suas obras questões que escritores de seu tempo buscavam evitar, como o regime de escravidão, as relações políticas, econômicas, sociais e culturais daquele tempo. Em pleno século XIX, enfrentou o racismo e o sexismo, ainda persistentes na sociedade brasileira na segunda década do século XXI.

Maria Firmina dos Reis foi uma mulher singular e uma artista múltipla. Como Nísia Floresta, que já foi tema de outro artigo neste espaço, em que procuramos redescobrir personalidades brasileiras que ficaram invisíveis na Literatura e na História, por questões ideológicas, de gênero, de etnia, entre outras.

* Para saber mais, acesse: <http://anais.anpuh.org/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0592.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2017.

 Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se: Trilhas e Tramas (Ensino Médio, LeYa, 2016); Marcha Criança – Produção de Textos (EF1, Somos Educação, 2016); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Scipione, PNLD 2010); Para ler a Gramática (Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Lê, 1999, crônicas, Prêmio Jabuti/2000).

Crédito da imagem de destaque: Maria Firmina dos Reis <http://wwwpordentroemrosa.blogspot.com.br/2012/11/vozes-mulheres-de-escritoras-e.html>. Acesso em: 19 abr. 2017.

1 Comentário

  1. Maria Angela Paulino Teixeira Lopes

    O olhar analítico de Graça Sette sobre Maria Firmina dos Reis nos leva a admirar ainda mais essa escritora brasileira que, à frente de seu tempo, lutou pela causa abolicionista. Muito bom, Graça.

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