Pelos muros da cidade

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

Quem me conhece sabe que eu adoro fotografar os grafites, as pichações e os lambe-lambes pelos muros da cidade. Além da manifestação cultural ou política que representam, eles são uma das formas mais democráticas de comunicação: estão ali, à vista de todas as pessoas. São também, apesar de sua transitoriedade – característica intrínseca a essas formas de expressão –, a memória da cidade. Fotografá-los é uma maneira de registrar os conflitos e a dinâmica da cidade cujas mudanças, muitas vezes, passam despercebidas por nós.

Os grafites, apesar de serem considerados uma forma de arte urbana, ainda são vistos por muitos como poluição visual. Um caso emblemático dessa controvérsia ocorreu na cidade de São Paulo, em 2008, quando a prefeitura adotou uma política de limpeza urbana e pintou os muros da cidade de cinza, apagando as intervenções artísticas neles realizadas. Um mural de quase 700 metros, na Avenida Vinte e Três de Maio, feito por um conjunto de artistas, entre eles os irmãos Gustavo e Rodolfo Pandolfo, conhecidos como Os Gêmeos, foi apagado. Depois uma série de protestos de artistas e moradores, a prefeitura se retratou e encomendou um novo painel aos artistas.

Atualmente, São Paulo conta com o Museu Aberto de Arte Urbana – inaugurado em 2011, ele é composto de cerca de 100 painéis de grafite localizados nos pilares que sustentam a linha de metrô da zona norte da cidade – e também com inúmeros roteiros de arte urbana.

Museu Aberto de Arte Urbana. São Paulo (SP), maio de 2014. Crédito: Cláudia Carvalho Neves.

Mas se os grafites já ganharam status de arte; o mesmo não se pode dizer das pichações. Uma das diferenças que podemos estabelecer entre o grafite e a pichação é que o primeiro é baseado em desenhos e pinturas, em que há elaboração e intenção estética, e o segundo é o ato de escrever ou rabiscar em muros e fachadas de prédios. Embora a gente possa encontrar frases e poemas pichados pela cidade, que representam desde manifestos políticos ou sociais até líricos, as pichações mais comuns de serem vistas são as usadas como forma de afirmação de alguns grupos e de comunicação entre eles e apresentam basicamente a assinatura dos grupos. Em ambos os casos, pichar é considerado crime, segundo a Lei no 9.605/1988.

Os lambe-lambes, por sua vez, são uma forma de expressão que têm ocupado cada vez mais espaço nos muros e postes das cidades. Eles são pôsteres de tamanhos variados, que podem ou não ser produzidos em série, em que geralmente seus autores usam poemas e arte para expor suas ideias.

Frida Feminista é um projeto criado pela estudante de arquitetura Lela Brandão que espalha lambe-lambes com mensagens afirmativas para as mulheres pelas ruas da cidade. Avenida Paulista, São Paulo (SP), maio de 2016.

I II

O artista Luís Bueno cola pelos muros da cidade de São Paulo (SP) lambe-lambes em que Pelé aparece beijando diferentes personalidades, como Amy Winehouse (foto I; Rua Augusta, junho de 2016) e Bob Marley (foto II; Avenida Paulista, 2016). (Crédito das fotos: Cláudia Carvalho Neves.)

Assim como eu, muitas pessoas fotografam os grafites, as pichações e os lambe-lambes que encontram pelo caminho e os publicam nas redes sociais. Há vários perfis dedicados apenas a postar fotos desses tipos de manifestação, fazendo com que os questionamentos, as críticas e as inquietações que eles suscitam repercutam e se espalhem para além dos muros da cidade.

Para assistir: O filme Cidade Cinza, de Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo (2013), acompanha o momento em que os artistas que tiveram suas obras apagadas do muro da Avenida Vinte e Três de Maio, em São Paulo, em 2008, durante a política de limpeza urbana da prefeitura, pintam um novo painel. O filme também mostra como esse trabalho de “limpeza” dos muros da cidade era feito e discute a importância do grafite para as grandes cidades. Assista ao trailer clicando aqui.

Para seguir: No Facebook, no perfil Ativismo, poesia e arte são postadas fotos de lambe-lambes e pichações de frases e poemas de todo o Brasil.

Cláudia Carvalho Neves é editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

[c.c.neves@uol.com.br]

Foto da capa: Painel da Avenida Vinte e Três de Maio. São Paulo, junho de 2014. Crédito: Cláudia Carvalho Neves.

 

*O artigo foi escrito em 2016, antes da gestão Doria, portanto, em que foi adotada a limpeza dos grafites, sobretudo nas paredes do corredor da Avenida 23 de Maio, em São Paulo, SP.

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