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O que nos encanta tanto em Amélie Poulain?

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

Desde a primeira vez em que assisti ao filme O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, França, 2001), a sonhadora Amélie entrou em minha vida e não saiu mais. De tempos em tempos, eu revejo o filme e mergulho no universo mágico e colorido criado pelo diretor francês Jean-Pierre Jeunet.

E isso parece não ter acontecido só comigo. A personagem saiu das telas e está em camisetas, canecas, capinhas de celulares, em grafites nos muros da cidade, enfim, em toda a parte. Mas o que nos encanta tanto em Amélie Poulain?

Amélie é uma menina que cresceu sem ter contato com outras crianças porque os pais achavam que ela tinha uma doença cardíaca. Esse isolamento fez com que ela criasse um mundo de fantasia só seu, em que o disco de vinil era feito como as panquecas e as nuvens tinham a forma de animais, e se divertisse com pequenos prazeres, como fazer uma moeda girar com um peteleco ou puxar a cola que fica grudada na pele das mãos.

Ao se tornar adulta, Amélie se muda para Paris e, trabalhando como garçonete em um café, mantém o seu mundo de fantasia e uma rotina solitária, cultivando, ainda, o gosto particular pelos pequenos prazeres, como quebrar a cobertura do crème brúlée com a colher e jogar pedras no Canal Saint Martin. Até que um dia, Amélie encontra no apartamento em que mora uma caixa cheia de objetos infantis, que um menino escondera há quarenta anos. Ela promete a si mesma encontrar o dono da caixa e entregá-la para ele. Se o dono se emocionasse ao rever o seu tesouro de infância, ela iria interferir na vida das outras pessoas para ajudá-las.

E é esse olhar atento para os pequenos prazeres da vida e para as pessoas que me encanta em O fabuloso destino de Amélie Poulain.

As personagens, pessoas comuns, são apresentadas ao espectador por meio das coisas de que gostam ou não no seu dia a dia e pelos pequenos prazeres que cultivam. Dessa forma, vamos conhecendo um pouco da personalidade delas. Todas, de algum modo, têm dificuldades em realizar o que desejam. Mas, por meio de diversos estratagemas, Amélie vai, ao longo do filme, ajudá-las a realizar seus sonhos e objetivos.

Mas, enquanto se ocupa em ajudar os outros, Amélie não consegue lidar com os seus próprios desejos, como se aproximar do rapaz por quem se apaixona. Será, então, o seu vizinho, Raymond Dufayel, que, por sua vez, vai interferir na vida de Amélie e ajudá-la e incentivá-la nessa aproximação.

Como as outras personagens, Dufayel também cultiva pequenos prazeres. Há 20 anos, ele faz reproduções do quadro Le déjeuner des canotiers (1880-1881), do pintor francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que retrata uma cena de amigos divertindo-se durante um almoço.

Le déjeuner des canotiers (1880-1881), de Pierre-Auguste Renoir. Crédito: The Phillips CollectionWashington, DC. [Pesquisa iconográfica: Neuza Faccin.]

No primeiro diálogo que mantém com Amélie, Dufayel diz a ela que, depois de tantos anos pintando esse quadro, a única personagem que ele ainda não conseguiu captar é a moça com o copo de água, que está no centro da tela. “Ela está no centro e, no entanto, está fora”, diz Dufayel. Ao que Amélie responde: “Talvez ela seja diferente dos outros”, referindo-se na realidade a ela mesma.

A partir de então, em seus encontros, eles conversarão sobre as dúvidas e os anseios de Amélie, como se eles fossem da moça retratada no centro do quadro, e esse subterfúgio o ajudará a entender Amélie e a incentivá-la a superar os seus medos e a assumir os riscos e a responsabilidade pela realização do que deseja.

Se, como diz uma das personagens do filme, “estes são tempos difíceis para os sonhadores”, a história de O fabuloso destino de Amélie Poulain nos mostra que podemos cultivar certa esperança, no entanto, se atentarmos para o que nos proporciona pequenos prazeres no dia a dia e se prestarmos atenção às pessoas e aos seus desejos e, de alguma forma, pudermos contribuir para que eles se realizem. Sem descuidar da realização dos nossos próprios desejos, por mais adversidades que possam surgir no caminho.

Assista ao trailer do filme em: https://www.youtube.com/watch?v=0LPxU7659D4. Acesso em: 29 mar. 2016.

Cláudia Carvalho Neves é editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

c.c.neves@uol.com.br

 

Foto principal: Poster, ímã de geladeira, porta-chaves… uma infinidade de produtos para ter Amélie Poulain sempre por perto. Crédito da foto: Arquivo pessoal.

1 Comentário

  1. Kelly Soares

    Lindo texto, Cláudia! Que possamos ser sempre um pouco Amélie 🙂

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