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O papel do patrimônio cultural na valorização do passado e da tradição cultural brasileira

(Texto de Gabrielle Cifelli)

Ao longo de nossa trajetória de vida, é comum termos certas recordações de fatos e acontecimentos marcantes, de pessoas, objetos e lugares que, por algum motivo, ficaram registrados em nossa memória. De outro lado, como a memória é seletiva, acabamos nos esquecendo de parte das histórias que vivemos, das pessoas que conhecemos, dos lugares que frequentamos e de certos objetos que pertenceram ao nosso passado. Cultivar nossas lembranças significa evitar o desconhecimento de parte da nossa própria história de vida e das referências culturais que adquirimos ao longo do tempo.

Uma das formas mais eficazes de manter vivas as recordações de outros tempos é por meio da preservação de vestígios materiais que sirvam de suporte à memória de um indivíduo ou de um grupo social, já que têm a capacidade de evocar lembranças e sentimentos vivenciados em outras épocas, além de possibilitar compreender as características do período em que foram produzidos e utilizados. Uma grande multiplicidade de objetos pode adquirir essa finalidade, como joias que são relíquias de família, peças de vestuário, utensílios domésticos, mobílias, obras de arte, álbuns de fotografia e outros artefatos de uso pessoal que muitas vezes são considerados “coisas velhas” e, por isso, descartados.

Não são apenas objetos de uso pessoal ou coletivo que podem evocar nossas lembranças, mas também edificações como casas, igrejas, prédios públicos e militares, cidades inteiras, sítios arqueológicos e outras obras de relevância histórica, arquitetônica e artística. São um dos poucos vestígios materiais do que restou de períodos históricos anteriores. A preservação desses edifícios estreita os vínculos entre o passado e o presente; essas construções se tornam marcos representativos da passagem do tempo e de suas transformações na paisagem dos lugares em que se localizam. Em muitas cidades europeias, a valorização de edifícios construídos há décadas, séculos ou até milênios é tão significativa que muitas vezes limita a construção de novos e de obras de infraestrutura que podem levar à sua destruição ou à sua degradação.

Em muitas cidades europeias e em algumas cidades brasileiras, muitos dos conjuntos arquitetônicos construídos no período medieval ou na Idade Moderna ainda hoje são usados como moradia ou para abrigar atividades econômicas e culturais variadas. Desse modo, preserva-se a fachada dos edifícios, mas se modifica o seu interior para se adaptar à sua utilização no presente. Algumas edificações, como igrejas, castelos, palácios e outras construções monumentais, não podem sofrer alterações nem no seu interior por terem relevância histórica e cultural significativa. Em cidades como Roma e Atenas, vestígios e sítios arqueológicos são encontrados em vários pontos da malha urbana para demonstrar os testemunhos materiais de diversos períodos históricos importantes da civilização greco-romana. Vestígios que constituem, atualmente, um dos principais atrativos turísticos de tais localidades, mundialmente conhecidas e valorizadas.

A preservação de edificações antigas de relevância histórica e cultural ocorre, na maioria dos casos, por meio do reconhecimento do seu valor patrimonial e da instituição de normas de proteção criadas no país, nos estados ou municípios de origem. O reconhecimento pelo poder público como patrimônio cultural faz com que esses vestígios materiais sejam valorizados no tempo presente como uma herança do passado que representa a história, a tradição cultural e a identidade de um grupo, de uma nação ou até mesmo da humanidade, dependendo do seu grau de importância. O reconhecimento do valor patrimonial é válido não apenas para obras arquitetônicas, mas também para uma grande variedade de objetos antigos, muitos deles expostos em museus, que nos ajudam a compreender hábitos, costumes e modos de vida da sociedade em outros períodos históricos.

Casario do Pelourinho, no centro histórico de Salvador (BA). Conjunto arquitetônico tombado pelo IPHAN como Patrimônio Nacional. Crédito: Gabrielle Cifelli (2014).

Os espaços de museus são considerados pelo historiador Pierre Nora como “lugares de memória”, com a função de serem repositórios e testemunhos materiais da memória e de relacionarem determinados objetos às memórias particulares dos que os observam e lhes atribuem sentido. Quando pessoas mais velhas visitam museus e observam algum objeto exposto, é comum ouvirmos comentários sobre recordações dos antepassados ou até mesmo de suas próprias lembranças de infância. Tais espaços servem, portanto, para resgatar certas memórias dos tempos regressos e para interpretar o modo de vida de nossos antepassados. As cidades e os centros urbanos antigos com uma concentração significativa de seu patrimônio arquitetônico preservado também servem para preservar a memória dos lugares, mesmo que o  seu uso na atualidade seja diferente daquele do período em que foram construídos.

Ao visitarmos tais lugares, passamos a ter uma certa noção da fisionomia das cidades em períodos históricos anteriores, da forma de organização e de vida de seus antigos moradores. Ao contrário da Europa, no Brasil, são poucos os exemplos de cidades que mantiveram preservadas as edificações construídas em séculos anteriores. Como exemplo, podem ser destacados o conjunto arquitetônico das cidades de Ouro Preto, Diamantina e Tiradentes (MG) e o centro histórico de Salvador (BA), Olinda (PE); Parati (RJ) e da Vila de Paranapiacaba (SP). São acervos arquitetônicos protegidos por lei e considerados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)1 patrimônio cultural de relevância nacional, representativo da evolução histórica e da riqueza artística e cultural de diversos períodos da história do Brasil. Cabe destacar que a cidade de Ouro Preto e os centros históricos de Diamantina, Salvador e Olinda são mundialmente consagrados, reconhecidos pela UNESCO2 como Patrimônio da Humanidade.

Museu da Inconfidência de Ouro Preto (MG). Acervo formado por objetos antigos de importância histórica, como vestimentas, peças de mobiliário, ornamentação, armas, além de obras de arte de autoria de Aleijadinho e de Manoel da Costa Athaíde. Crédito: Gabrielle Cifelli (2014).

A importância histórica e a estética diferencial de suas paisagens arquitetônicas acabam por transformar grande parte dessas cidades em importantes atrativos turísticos brasileiros. Assim, o valor histórico e cultural das edificações associa-se à possibilidade de ganhos econômicos, incentivando a efetivação de medidas de proteção do acervo patrimonial.

A dimensão simbólica do patrimônio, associada às relações afetivas e identitárias de indivíduos e grupos para com os bens materiais, também é muito importante para o processo de valorização e preservação. Isso pode ser percebido, por exemplo, quando idosos resistem em se mudar de suas casas antigas para outros lugares. Reconhecidas ou não oficialmente como patrimônio, essas edificações representam parte da memória e da história dessas pessoas, dificultando o rompimento dos vínculos afetivos com os lugares em que viveram grande parte de suas vidas.

Conhecer, valorizar e preservar o patrimônio cultural de um país consiste em evitar uma ruptura entre o passado e o presente e a perda de referências materiais que expressam a passagem do tempo e nos fazem perceber a intensidade das transformações ocorridas em períodos cada vez mais curtos.

1 Para mais informações sobre a relação de edificações, conjuntos arquitetônicos e cidades reconhecidas pelo IPHAN como Patrimônios Culturais, acesse o site da instituição: <www.iphan.gov.br>. Acesso em: 26 abr. 2016.

2 Para mais informações sobre monumentos, conjuntos urbanos e cidades brasileiras conhecidas pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade e para consultar a lista do Patrimônio Mundial, acesse o site da instituição: <http://whc.unesco.org/en/list/>. Acesso em: 26 abr. 2016.

Referências bibliográficas:

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN. Disponível em <www.iphan.gov.br>. Data de acesso: 26 abr. 2016.

NORA, Pierre. “Entre Memória e História: a problemática dos lugares”. In: Projeto História. São Paulo: PUC, n. 10, dez. 1993. p. 7-28.

Gabrielle Cifelli é graduada em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Rio Claro; mestre e doutora em Geografia pela Unicamp. Docente da Fatec (Barueri e Itu), nas áreas de Geografia e Geopolítica. É também pesquisadora nas áreas de Geografia e patrimônio cultural.

Foto principal: Ofício das baianas do acarajé. Centro Histórico de Salvador. Crédito: Gabrielle Cifelli (2014).

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