O maior problema da traição é que ela é uma decisão unilateral

(Texto de Josie Conti)

Em um simples cruzar de rua, atravessando uma faixa de pedestres, dezenas de pessoas podem ter suas vidas separadas por poucos centímetros, sem que exista a mínima percepção das vidas particulares umas das outras, sem que se note a existência de um outro alguém.

Um belo dia, porém, duas delas podem trocar um olhar e perceberem-se em um novo mundo que agora contempla uma nova relação, nascida de um contato ao acaso. Esse envolvimento, caso seja consolidado, alcançará outros patamares baseado na troca de experiências, histórias de vida e valores, desenvolvidos por ambos ao longo de suas existências. Algumas questões, muito particulares, podem gerar estranhamento ou até mesmo curiosidade; outras, por outro lado, podem ser muito similares e estarem relacionadas ao estilo de vida, à contextualização cultural e social em que estão inseridos.

Muito da relação, principalmente no início, é subentendido ou preconcebido pelas partes isoladamente. As pessoas tendem a esperar do outro comportamentos e valores similares aos seus e aos de suas famílias. Para uma pessoa criada em família religiosa ou socialmente mais tradicional, por exemplo, a fidelidade certamente é algo que “se deve esperar” na relação a dois. Mas isso não para por aí. Tendo em vista nossa formação cultural em geral, quando falamos em relacionamento afetivo, sobretudo em relacionamento amoroso, a maioria de nós espera que haja fidelidade, ainda que não se tenha a clara percepção disso. Logo, podemos dizer que existe uma regra subentendida de que deverá haver fidelidade em um relacionamento.

No entanto, a traição acontece de fato quando um dos pares falta com transparência. Essa situação é bastante comum, uma vez que nem tudo o que é entendido é explicitamente dito em palavras. Se é fato que a maioria das pessoas segue a ideia de relacionamentos fiéis, aquele que não segue a regra é que deve deixar claro seu posicionamento diferente. Quando isso não acontece, rompe-se a lealdade na relação. Se, entretanto, houver um comum acordo, a partir do qual esteja liberado se relacionar com outras pessoas, não há traição.

O mais comum, entretanto, é que a pessoa que trai acabe por atribuir ao outro a responsabilidade por suas próprias escolhas, buscando minimizar o peso de suas ações. Nesse momento, surgem as queixas quanto ao afastamento emocional, à rotina, à falta de afinidade, entre tantos outros argumentos. Quem trai pode dizer que buscava afeto ou apenas sexo, que procurava novas sensações e prazeres, que se sentia ignorado ou negligenciado. Tudo isso pode realmente acontecer, mas o maior problema da traição é que ela é uma decisão unilateral, posto que, se fosse consensual, a palavra traição não se aplicaria.

Crédito: Jerzy Gorecki/Pixabay

Normalmente, a quebra da fidelidade é alicerçada em uma lógica de não enfrentamento e de esquiva, quando algo na relação ou com a própria pessoa não está acontecendo da maneira desejada. Alguém com pouca autoestima, por exemplo, pode achar que a conquista o valoriza e reforça seus atributos pessoais.

É importante enfatizar que não existe uma regra absoluta de comportamento certo ou errado, mas sim o certo e o errado para o casal e para o que um espera do outro. Mesmo diante da traição, um relacionamento não precisa acabar. É possível entender as fragilidades que permeavam a relação e buscar uma repactuação como casal, o que necessitará de tempo para a elaboração do luto e o reestabelecimento da confiança.

O trauma de uma traição pode perseguir uma relação durante toda uma vida, caso os pares não a considerem uma forma de ressignificar a relação. Nesses momentos, o auxílio de uma terapia de casal pode ser decisiva ao ajudar os envolvidos a falar mais abertamente sobre seus sentimentos e frustrações, repensar o sentido da relação e até mesmo avaliar se ela deve realmente continuar.

Entretanto, a transparência será sempre a melhor abordagem, pois permitirá escolhas mais maduras, antes que alguém acabe seriamente magoado.

 Josie Conti é blogueira e empresária. Após trabalhar por muitos anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, conjuntamente com sua equipe, trabalha prioritariamente na internet, na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como CONTI outra, A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 8.5 milhões de usuários. Escreve também para a Contemporânea Brasil.  

Crédito da imagem de destaque: Alexas_Fotos/Pixabay

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