O iídiche como inspiração

(Texto de Samir Thomaz)

O burburinho dos cafés não me tira a concentração. Mas os sentimentos humanos, quem pode suportá-los?

Se há uma habilidade que tenho, não sei se inata ou adquirida, é a de escrever em público em meio ao burburinho. Qualquer burburinho. Se for num café, melhor ainda. Eu teria trabalhado numa boa nas redações dos jornais dos anos 1950 e 1960, com os plinct ploct plins das máquinas de escrever enlouquecendo o ambiente. Só não toleraria fumaça de cigarro, outro hábito comum nas redações daquela época.

O murmúrio ambiente, no entanto, longe de ser um ruído de comunicação, se aproxima mais de uma fuga de Bach. No café que frequento, em Higienópolis, já me acostumei com as altercações em iídiche dos velhos judeus do bairro. Acho inspirador. É o que se costuma chamar de “clima”. Tanto que já estou quase falando iídiche por osmose.

Hoje de manhã, no entanto, num café em Santa Cecília, meu foco foi prejudicado de forma inusitada. Havia apenas um casal no local: o homem já na casa dos quarenta, e a moça, linda e sensual, certamente ainda não chegada aos trinta. Não havia neles nada que me perturbasse a concentração, nem mesmo a beleza da moça, embora de vez em quando meu olhar deslizasse furtivamente para seus ombros espadaúdos e leitosos como porcelana.

O que me tirou o foco foi o fato de eles estarem mergulhados em uma pungente discussão de relação, a famosa DR. Desconfiei disso primeiro pelo tom de voz dos dois. Eles não discutiam propriamente. Mesmo quando as palavras continham certa aspereza, havia entre eles um cuidado calculado. Depois fui pescando as frases involuntariamente até formar algum sentido: “O que me deixou magoada…”; “Mas quando eu te liguei, naquele dia…”; “Eu sei que sou um porre mesmo…”. Não identifiquei se era uma conversa de reconciliação ou de despedida. Mas bastou para que eu deixasse minha escrita de lado, pedisse um café e apurasse o ouvido, numa bisbilhotice não consentida, mas necessária para que pudesse retomar meu trabalho depois.

Até quis voltar ao meu escrito. Foi impossível. Já estava envolvido na conversa, como se estivesse na mesa com eles. E enquanto tomava um gole e outro de café, me veio uma vontade inexplicável de torcer pela reconciliação do casal. Desejei com toda a força, por alguma compaixão repentina, que aquela conversa terminasse bem, eu que nunca vira aquele casal na vida. E então, como numa comunhão de vontades, aconteceu.

A certa altura, o homem se ergueu da cadeira, ajoelhou-se diante da moça, que continuou sentada, e a abraçou com uma intensidade tão sentida, tão terna, que não pude ficar indiferente. Ficaram por mais de um minuto nessa posição, sem dizer palavra. Quando ele voltou ao seu lugar, vi que algumas lágrimas escorriam no rosto da mulher, refletidas pela luz que vinha da rua.

Como eu já não tinha clima para mais nada, não tive alternativa senão fazer o que fiz. Sem querer saber o desfecho da história, terminei meu café, fechei meu notebook, recolhi meus apontamentos, pedi a conta e saí, rumo de outro café, o de Higienópolis, que fica próximo dali. Levava uma nostalgia imprecisa na lembrança, que logo se evanesceu com o agito das calçadas e o movimento dos carros.

Era domingo de manhã, o horário em que os velhos judeus costumavam se reunir no café. Foi outro desejo forte naquela manhã. Enquanto me aproximava, torci muito para que eles estivessem lá.

 Samir Thomaz é escritor, jornalista, conteudista e editor. No momento, escreve um livro paradidático sobre empreendedorismo para a Editora Moderna.

Crédito da foto de destaque: MJTH/Shutterstock

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