O espírito da coisa

(Texto de Samir Thomaz)

O mundo anda complicado.

– Boa tarde.

– …

– Por favor, um expresso puro.

– Com qual extração?

– Como assim?

– É que nós trabalhamos com duas qualidades de extração…

– Hum…

– … a do Orgânica, que foi classificado em quinto lugar num concurso internacional em Bruxelas…

– Sei…

– … e a do Wolff Topázio, que é de uma extração superior.

– Superior a quê?

– À qualidade do Orgânica.

– Ah, sim. E por que Wolff Topázio?

– Isso eu não sei.

– Bom, não importa… Mas acho que vou querer o expresso normal mesmo.

– Mas os dois são normais.

– Então me faz o Orgânica. Single, por favor.

– Longo ou curto?

– Longo.

– Aceita uma sugestão?

– Claro.

– Por que o senhor não experimenta o curto?

– E por que deveria?

– É que o curto é mais encorpado.

– Sim, mas vem menos café…

– Isso é relativo. No longo, a melhor extração fica concentrada na metade de baixo da xícara.

– Mas a extração não é a mesma?

– Sim, mas há uma hierarquia no interior de cada extração.

– Quem disse isso?

– O júri de Bruxelas.

– Ah…

– E com o movimento da xícara, você acaba enfraquecendo a concentração do todo.

– Aí a extração perde a qualidade, certo?

– Exatamente. Está vendo, o senhor já está pegando o espírito da coisa. Cada metade deve processar o café de acordo com o seu potencial de maturação.

– Muito interessante. Mas, olha, vou preferir o expresso normal mesmo, quer dizer, o Orgânica.

– Longo mesmo?

– Longo mesmo.

– O senhor é que sabe. Açúcar ou adoçante?

– Adoçante.

Ele se vira para a máquina para, enfim, fazer o café. Por precaução, tiro o celular do bolso e simulo uma ligação.

 

Samir Thomaz é jornalista, editor e escritor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros.

 

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

1 Comentário

  1. Rosely Rodrigues da Silva

    Samir Querido,
    Adorei e já “peguei o espírito da coisa”.
    Eu estou trabalhando num café, acontecem situações semelhantes a esta mesmo,rs. Muito bom!
    Saudades suas!
    Aproveito para desejar à você um ano de realizações e vitórias!
    Super Abraço!

    Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *