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O amor em tempos de Tinder

(Texto de Lana Harari)

O amor sempre foi uma emoção e uma necessidade psíquica dos seres humanos. A psicanálise explica que o ser humano nasce dependente de um cuidador e segue buscando reviver esse vínculo afetivo com outra pessoa na vida adulta, para se sentir validado na sua existência e protegido contra a solidão sem ter de enfrentar as dificuldades da vida sozinho. Mas os comportamentos dos seres humanos associados às relações amorosas variam de acordo com a época e a cultura. Na Idade Média, por exemplo, o jogo do amor, organizado pelos homens para os homens, consistia em o homem cortejar uma mulher, com galanteios em forma de versos, trovas e troca epistolar, para conquistar seu coração e seduzi-la sexualmente. Com o tempo, o sexo passa a explicitamente fazer parte da busca do amor, até chegarmos ao amor dos nossos tempos, tempos de Tinder, uma ferramenta tecnológica que possibilita seja o compromisso amoroso, seja o sexo casual.

A tecnologia hoje é inescapável. O mundo está conectado digitalmente e somos todos levados a utilizar a internet no computador e aplicativos no celular, gostemos ou não (como o WhatsApp e a Zona Azul). E ferramentas como o Tinder afetam nossos comportamentos e a maneira como entendemos o amor e o sexo. Hoje podemos começar ou terminar uma conversação de forma rápida e fácil. A troca de cartas foi substituída pela troca de mensagens entre pessoas que tiveram seu interesse recíproco confirmado pelo aplicativo e que podem aproveitar para se comprometer ou se descomprometer rapidamente, sem se preocupar com os sentimentos do outro com quem o encontro presencial ainda não aconteceu.

Nesse sentido, se o Tinder permite que a pessoa resolva sua angústia de solidão, ele também tem esse efeito interessante de protegê-la da angústia da intrusão, possibilitando-lhe manter seu espaço e dar limites ao outro, fazendo os contatos virtuais somente quando ela pode, se e com quem ela quiser.

E o que leva as pessoas a usarem o Tinder? Pode ser somente a curiosidade. Pode ser a diversão: a pessoa usa o Tinder, como se jogasse Candy Crush, em casa, no metrô, com os amigos, às vezes sem ter a intenção de conhecer alguém, já que o Tinder é um aplicativo lúdico e aditivo. Pode ser a busca de uma aventura sexual. O desejo, assumido ou não, de encontrar um[a] namorado[a]. A busca de garantia de ter um novo parceiro afetivo, caso o relacionamento atual termine. A necessidade da pessoa de confirmar seu poder de sedução, alimentando seu ego com a ilusão de que ela “manda muito”, porque muitas pessoas que ela achou interessantes lhe deram like. A timidez, já que é mais fácil “paquerar” alguém on-line que pessoalmente. E pode até ser o ciúme e a insegurança, que fazem a pessoa entrar para checar se seu[sua] namorado[a] está no Tinder.

O psicanalista francês Michaël Stora observa que, assim como o Facebook, o Tinder é o reflexo de uma sociedade narcísica, em que precisamos ser confirmados no olhar do outro. Se essa confirmação não acontece no ambiente de trabalho – como no caso que me foi contado do gerente de uma multinacional que faltou dois dias seguidos no trabalho e não teve sua ausência notada por ninguém! –, pelo menos no Tinder, a pessoa é vista e apreciada.

Crédito: Masson/shutterstock

A jornalista francesa Julie Conti também comenta que o Tinder é o produto de uma cultura da imagem e da encenação. Postamos no nosso perfil a foto encenada que comunica mais sucintamente a mensagem que queremos passar (com o cachorro, a moto, a pose sedutora, ou somente de partes desnudas do corpo) e escolhemos a pessoa que nos agrada também com base na imagem encenada que ela postou. Fazemos a escolha de um jeito instintivo e primitivo, com uma olhada rápida numa imagem que fala conosco, em meio ao desfile vertiginoso de rostos e cenários que passam na ponta de nossos dedos.

Embora o Tinder tenha trazido atualmente a possibilidade de encontros entre pessoas do mesmo gênero, vou me ater nesse artigo a analisar diferenças de comportamento entre homens e mulheres heterossexuais. Um estudo realizado pela Associação Americana de Psicologia mostrou que os homens têm se sentido muito desconfortáveis por ter que se preocupar com sua aparência. Eles agora têm a sensação de ser “objetos sexuais”, avaliados em alguns segundos a partir de três fotos, como se fossem “uma mercadoria”. Mas esta é uma experiência há muito conhecida pelas mulheres, acostumadas que foram a ser sempre avaliadas com base na sua aparência e comparadas a modelos de beleza inatingíveis.

Os homens também dão mais like que as mulheres para aumentar suas chances de sucesso. E se decepcionam mais com a aparência das mulheres, quando as conhecem e descobrem que elas são mais gordas ou menos produzidas do que nas fotos. As mulheres parecem dar menos importância à estética, talvez por serem mais cuidadosas nas pesquisas que fazem sobre os candidatos e por valorizarem mais a firmeza do cara que comparece e não “embaça”, não se esquiva dos encontros.

Como a imaginação é melhor que a realidade, enquanto as pessoas estão olhando rostos, analisando perfis, elas vão preenchendo os buracos formados pelo que não conhecem do outro com sua fantasia e pensam, por exemplo: “Ah, se essa pessoa postou fotos de outros países, deve adorar viajar e tem vontade de morar fora, como eu”.

Entretanto, toda essa fase virtual de likes e trocas de mensagens termina quando o primeiro encontro é marcado. Nesse momento, a pessoa é confrontada com a realidade. “Puxa, ele não é tão alto, ou divertido, ou esportista, como parecia”. “Ela não tem intenção de morar fora, ou não tem grandes sonhos, ou não se veste bem, como acreditei”. De perto aparecem os defeitos, as diferenças e assim se faz a confrontação da idealização que a pessoa criou na sua cabeça com o real. Nesse sentido, os encontros promovidos pelo Tinder não diferem nada dos encontros às escuras do passado. As pessoas continuam sendo movidas inicialmente por seus sonhos, suas expectativas, suas idealizações. Mais tarde, quando a relação se torna uma co-construção real entre duas pessoas, vão emergir, ou não, a capacidade e a maturidade que elas têm para lidar com conflitos e frustrações e para desfrutar da construção de um vínculo de confiança que se fortalece com o tempo.

Mas o Tinder pode falhar em promover encontros afetivos e o motivo está no Paradoxo da Escolha, uma ideia desenvolvida pelo psicólogo americano Barry Schwartz (a palestra que ele dá no site Ted Talks é imperdível). Ter à sua disposição um grande número de escolhas tem o efeito paradoxal de produzir paralisia nas pessoas, em vez de liberdade. Primeiro, porque, diante de tantas opções, muitos podem acabar não conseguindo tomar nenhuma decisão. E segundo, porque, quando conseguem escolher, podem acabar inseguros com a escolha que fizeram e se perguntarem se não poderiam ter escolhido outra pessoa melhor. Aumentar o número de opções pode fazer as pessoas terem mais expectativas, sonharem com a escolha perfeita e se decepcionarem duramente com a realidade.

Uma conhecida relatou-me que o namoro dela, que tinha começado no Tinder, terminou por uma bobagem, porque o Tinder oferece tanta opção de parceiras[os] que a pessoa nem se esforça para dar certo e prefere descartar na primeira frustração, para logo “pular em cima” da próxima do cardápio.

Crédito: Peter Ruter/Shutterstock

Do ponto de vista psicológico, é possível que muitos usuários do Tinder não necessariamente queiram atingir seu objetivo de ter um encontro real com alguém. Como explica Freud, no seu texto “Os arruinados pelo êxito”, muitos encontram mais prazer na fantasia do que na realização de seu desejo. Teclar, esperar a resposta, sentir o coração disparar quando o celular avisa que chegou uma nova mensagem, alimentar fantasias e viver as emoções intensas que elas provocam pode ser tão gratificante que a pessoa acaba fazendo mil manobras para se manter afastada da realidade, que vai certamente decepcioná-la.

Se a tecnologia inova constantemente, nossos processos psíquicos continuam basicamente os mesmos: produzimos desejos, experimentamos gratificações e frustrações. Crescemos e aprendemos que, nos relacionamentos e nas situações da vida, sempre temos que lidar com o pacote todo, que compreende o bom e o mau, qualidades e defeitos, vantagens e desvantagens. Que temos que harmonizar nossos desejos e necessidades com os do outro. E que, depois, temos que harmonizar tudo isso com as possibilidades da nossa realidade. O Tinder é um excelente meio de ter acesso a novas pessoas. Tanto é que outros aplicativos surgiram na mesma linha, mas com diferentes objetivos. O Wiith, por exemplo, permite fazer novos amigos (como quando a pessoa está de passagem por uma cidade a trabalho e não quer jantar ou sair sozinha à noite). Na minha clínica, vi muitos pacientes engatarem um namoro a partir do Tinder. Mas a experiência virtual é sempre só um ponto de partida, porque os grandes desafios vêm depois, quando passamos a nos relacionar com as pessoas reais que conhecemos, imperfeitas como nós, mas que nos reservam também surpresas agradáveis e interessantes.

 Lana Harari é psicóloga pela USP e terapeuta de casal e família pela PUC.

 

 

 

Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

 

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