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Nísia Floresta: uma mulher singular e plural do século XIX

(Texto de Graça Sette)

“Ela era uma mulher de muitos nomes, também de muitas vidas. A sua preocupação maior, o sonho pelo qual lutou por tanto quanto teve de energias, foi o de elevar a mulher brasileira à plenitude de suas potencialidades humanas.”
(Peggy Sharpe-Valadares. In: Opúsculo Humanitário. Disponível em: Opúsculo Humanitário. Acesso em: 22 maio 2015.)

Em uma sociedade patriarcal, a mulher da elite brasileira do século XIX, mesmo com certo grau de instrução, era excluída da vida política e cultural. Mas isso mudou lentamente com os avanços políticos, sociais e culturais ocorridos na Europa que chegaram ao Brasil e deram origem ao movimento feminista por aqui.
Poucas mulheres, no entanto, se atreveram a se engajar nessa luta. Uma das raras exceções foi Dionísia Gonçalves Pinto, nascida em 1810, em Papary (hoje, Nísia Floresta), no Rio Grande do Norte. Ela usava o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia porque correspondia às sílabas finais de seu nome (Dionísia); Floresta porque era o nome da fazenda onde nasceu; Brasileira talvez pela necessidade de afirmar sua nacionalidade e Augusta porque era uma homenagem ao segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, pai de sua filha.
Nísia foi feminista, educadora, poeta, romancista, ensaísta, republicana e abolicionista. Lutou pelos direitos das mulheres, dos indígenas, dos negros e, ainda, pela preservação das riquezas naturais do Brasil. Na vida pessoal, deu exemplo de sua autonomia ao se separar do primeiro marido, que não fora escolhido por ela, mas imposto pela família – como na maioria dos casamentos daquele tempo. Se o discurso moralista da época pregava que a participação da mulher no mercado de trabalho era pecado, imagine como deve ter sido encarada essa separação?
Sempre inquieta e revolucionária, morou em Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Paris. Nesta última cidade, viveu por quase três décadas e publicou o livro Opúsculo humanitário, uma coleção de artigos sobre a emancipação feminina, muito elogiada por Auguste Comte, o ícone do Positivismo. Nísia faleceu em Rouen, na França, em 1885.

Nísia iniciou sua carreira literária escrevendo artigos a respeito da situação da mulher, para um jornal pernambucano intitulado Espelho das brasileiras. Com sua obra Direitos das mulheres e injustiça dos homens, ela é considerada, até hoje, a primeira feminista brasileira e a precursora do feminismo na América Latina.
Como educadora, ela dirigiu, no Rio Grande do Sul, um colégio para meninas. No Rio de Janeiro, dirigiu também os colégios Brasil e Augusto, tornando-se referência para a educação. Seus projetos e concepções de educação são objetos, até hoje, de estudo nas universidades brasileiras.
Apesar de ser considerada por especialistas uma grande escritora do Romantismo brasileiro do século XIX, sua obra poética nunca foi verdadeiramente reconhecida e divulgada. Se quisermos ler poemas de Nísia em antologias ou em livros didáticos de Literatura Brasileira, teremos dificuldades em encontrá-los. E se também buscarmos estudos críticos a respeito de sua obra, vamos constatar mais essa lacuna. Sabe-se: é fácil encontrar leitores que conhecem “de cor e salteado” os poetas românticos, como Gonçalves Dias, Castro Alves e Casimiro de Abreu… Quase todos nós sabemos, pelo menos, dois ou três versos de “Canção do exílio”, de “O navio negreiro” ou de “Meus oito anos”. Mas, de Nísia Floresta, nada ou quase nada de nada…
Por que a obra poética dessa autora, especialmente A lágrima de um Caeté, publicada em 1847, ficou invisível? A condição da mulher, na época, pode ter contribuído para esse apagamento. Mas o fator principal deve ter sido a ousadia da moça em não privilegiar a visão hegemônica, o mito do bom selvagem, belo, inocente, forte e heroico.
Ao contrário do indígena pacífico descrito por outros poetas românticos, Nísia retrata o nativo inconformado, com desejo de vingança. Também na contramão dos escritores indianistas consagrados – como José de Alencar, Gonçalves de Magalhães ou Gonçalves Dias –, A lágrima de um Caeté não idealiza o encontro idílico entre dois povos, mas trata de forma realista da luta desigual entre o opressor europeu e o nativo oprimido. Mais ainda, a obra exalta e incentiva movimentos revolucionários ocorridos durante o Império.
Já no prefácio de A lágrima de um Caeté, a autora faz referência às dificuldades enfrentadas para publicar o texto. O trecho “mil torturas inquisitoriais” parece aludir, de forma mais explícita, à censura de que foi vítima. Assim, não é por acaso que Nísia assinou sua obra com o pseudônimo de Telesila, heroína grega que simboliza a luta contra os opressores.
Resumindo: essa poetisa brasileiríssima, quase desconhecida fora dos meios acadêmicos, ainda tem muito a nos dizer. Sua obra fornece pistas valiosas para entender a sociedade brasileira atual, que ainda não superou as desigualdades denunciadas por ela, há dois séculos.

Para saber muito mais a respeito de Nísia Floresta, acesse:

  • Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta (introdução e notas de Peggy Sharpe-Valadares). Disponível em: Opúsculo Humanitário. Acesso em: 22 maio. 2015.
  • Domínio Público. Acesso em: 22 maio 2015.
  • Revendo o Indianismo brasileiro: A lágrima de um caeté, de Nísia Floresta, por Constância Lima Duarte (FALE-UFMG). Disponível em: Portal de Periódicos da USP. Acesso em: 24 maio 2015.
  • O Indianismo e o problema da identidade nacional em A lágrima de um Caeté, de Nisia Floresta. Tese de doutorado de Stélio Torquato Lima (UFPB-JP/Letras). Disponível em: Portal Domínio Público. Acesso em: 22 maio 2015.

 

Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se: Trilhas e Tramas (Ensino Médio, LeYa, 2016); Marcha Criança – Produção de Textos (EF1, Somos Educação, 2016); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Scipione, PNLD 2010); Para ler a Gramática (Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Lê, 1999, crônicas, Prêmio Jabuti/2000).

Crédito da imagem de capa: Opúsculo Humanitário

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