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Mulheres que ganham mais que seus parceiros

(Texto de Leniza Castello Branco)

Segundo o último censo do IBGE (2010), em quase 40% dos domicílios, as mulheres estão no comando financeiro. Há dez anos, esse percentual era de 24%.

Susan é executiva, Lilian é médica, Carol, engenheira. Todas são bem-sucedidas, bonitas, saudáveis e têm entre 27 e 40 anos. Então, supõe-se que não deveriam ter problemas nos relacionamentos, mas não é bem assim.

Eu as atendi em meu consultório. Todas têm algo em comum: ganham mais que seus companheiros. Susan é casada e o marido trabalha na mesma área, mas ela está em posição superior. Ganha mais que o dobro do salário dele.

A mulher, mesmo sendo bem-sucedida e independente, muitas vezes ainda espera um homem que seja romântico e aja como nos filmes antigos – conquistando, presenteando e exercendo poder.

Lilian é dermatologista de sucesso e está solteira porque o último namorado não aceitou que ela pagasse uma viagem para a Europa para os dois. Carol está noiva de um pintor que ainda não fez sucesso. O que elas têm em comum é que ganham muito mais que seus companheiros e isso, que poderia ser motivo de comemoração, acaba trazendo problemas. Se fosse o contrário, se eles ganhassem mais, isso seria o esperado e elas não se sentiriam humilhadas ou inseguras.

Gilberto Freire, sociólogo brasileiro, em Casa Grande e Senzala (1933), descreve:

 “Nossa família no período da colonização se formou a partir do regime patriarcal, onde o dono da terra, o patriarca, era dono de tudo que nela se encontrava: sua mulher, filhos e netos, empregados, escravos, filhos bastardos, afilhados agregados. O patriarca estava no comando, sendo responsável por cuidar dos negócios, tomar decisões, defender a honra da família. Esse modelo se estendeu de norte a sul do país durante mais de três séculos”.

Até o início do século XIX, em alguns países (Inglaterra, por exemplo), a mulher não tinha direito nem à herança, mesmo se fosse única filha;  quem herdava o montante era o parente masculino mais próximo. São séculos de dominação masculina em relação ao dinheiro. A mulher deveria obedecer ao pai e, depois, ao marido. Quando ela entrava na igreja dando a mão ao pai, ele a “entregava” ao marido, que passava a ser responsável por ela. Nos dias atuais, o ritual continua assim e o símbolo transmitido da hierarquia familiar é muito forte.

O papel da mulher na vida profissional está se intensificando, mas na relação familiar ainda está defasado. Qualquer mulher fica feliz se o marido lhe dá um carro, um cheque, uma viagem ou uma joia, mas é mais difícil para um homem aceitar um carro de presente ou mesmo dinheiro, porque ele se sente ferido em sua masculinidade.

As conquistas profissionais femininas têm aumentado e as diferenças salariais estão diminuindo. De acordo com a empresa de recrutamento Catho, “o salário das mulheres vem subindo ano a ano mais do que o dos homens, mas ainda há diferença na remuneração quando ocupam a mesma função […]”. De acordo com Murilo Cavellucci, diretor de gente e gestão da Catho, “podemos perceber que o salário das mulheres sobe mais do que o dos homens e isso faz com que essa diferença historicamente apresentada venha diminuindo em alguns cargos. Em cargos de alta liderança, diretores e vice-presidentes, essa diferença média chega a ser menor que 4%. O que indica que a tendência é que a diferença da remuneração entre homens e mulheres vai desaparecer num curto espaço de tempo” *.

No entanto, algumas dessas mesmas mulheres que conquistam a independência financeira ainda sonham encontrar um homem que seja romântico, pague as contas e as convide para viajar. Existe uma pressão da sociedade e da família para que ela se case, tenha filhos e encontre um amor.

Respondendo a essa pressão, que é até biológica, quando o próprio corpo da mulher está preparado para gerar, ela pode se apaixonar por alguém que preencha esses desejos, mas que não seja tão bem-sucedido profissional e financeiramente quanto ela.

Tanto homens como mulheres costumam relacionar masculinidade a poder e a dinheiro, e é uma grande frustração para ambos quando isso não faz parte da realidade.

Apesar de a mulher poder ser financeiramente a responsável pelo sustento da família, socialmente, em muitos lares, ainda é o homem que exerce o poder e é o pagador, assim como ocorria no século passado.

Mesmo que a mulher não reclame e aceite um marido amoroso, bom pai, que lave a louça e ajude a cuidar da casa e dos filhos, mas ganhe menos, a situação, por vezes, é complexa para os dois, principalmente se ele ficar sem emprego.

No livro Complexo de Cinderela, de Collete Dowlling (Editora Melhoramentos, São Paulo, 2002), mostra-se que, há mais de 40 anos, nos Estados Unidos, muitas mulheres bem-sucedidas na Universidade abandonavam a carreira e se dedicavam à família e a ajudar o marido a crescer, porque não queriam que seu sucesso profissional atrapalhasse o casamento.

Em alguns casamentos, pode acontecer de a mulher, quando ganha mais, comportar-se de maneira submissa para não frustrar o marido: “não quero que ele se sinta por baixo”. Esse comportamento seria impensável se o homem ganhasse mais.

Essa desigualdade muitas vezes leva ao divórcio, já que os dois não aguentam a pressão e não conseguem lidar com os motivos das brigas.

O que é importante destacar é que as brigas e as agressões acontecem porque o homem, ao ganhar menos e sentindo-se diminuído em sua masculinidade, pode começar a tentar rebaixar a mulher, rejeitando-a de várias maneiras, geralmente nos aspectos em que ela é mais insegura, como na aparência física, na idade ou sexualmente, para que ela não se sinta mais forte do que ele. Assim, ela fica insegura e não sabe porque ele a rejeita, ou porque a vida sexual está ruim. Ele resgata a sua “força”, mas estraga o relacionamento. A mulher acaba pensando que a “culpa” é dela, sente-se feia, pouco atraente, tenta agradar o marido e não percebe esse mecanismo de manipulação, sendo que algumas vezes é preciso uma terapia para descobrir o que está por trás da rejeição.

Os casamentos que costumam dar certo, mesmo com as diferenças socioeconômicas e de carreira entre os pares, ocorrem geralmente com homens que exercem um trabalho criativo, artistas, músicos, pintores, que se realizam potencialmente, não invejam a mulher e são admirados por ela. Ao contrário, eles se sentem felizes por ter tempo para criar e admiram a companheira. São casais complementares, não competitivos.

A igualdade financeira já é realidade e as mulheres já a conquistaram em grande medida. Resta-lhes agora conquistar a igualdade social e familiar. Mas estamos caminhando para isso.

* “Salário das mulheres ainda é 30% menor que o dos homens” In: Globo. com, 9 mar. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/03/salario-das-mulheres-ainda-e-30-menor-que-o-dos-homens.html>. Acesso em: 16 nov. 2015.

 Leniza Castello Branco é psicóloga analista, autora do e-book Amar é bom (editora E-galaxi).

leniza09@gmail.com

leniza.wordpress.com.br

 

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