Meu filho tem TDAH. E agora?

(Texto de Paula Eisenstadt)

Pais que levam seus filhos ao psicólogo ou ao psiquiatra buscam respostas para questões que lhes trazem intensa angústia. Quando obtêm uma resposta objetiva sobre a causa do problema, especialmente quando é oferecido um tratamento que promete resolvê-lo, há um certo alívio e uma tendência a se agarrar a uma espécie de “tábua de salvação”. É o caso de crianças indisciplinadas, que têm desempenho escolar abaixo de suas potencialidades e que tiram o sossego de seus responsáveis, sendo rapidamente diagnosticadas como portadoras de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Infelizmente, disseminou-se a ideia de que os quadros psiquiátricos que atingem a infância e a adolescência podem ser facilmente diagnosticados em uma única consulta com um profissional, desde que ele esteja adequadamente treinado. O que a maior parte da população desconhece é que o principal recurso usado para diagnosticar o paciente é um conjunto de perguntas que servem para investigar se são preenchidos os critérios para a doença, como se a criança “frequentemente evita, antipatiza com ou reluta em se envolver em tarefas que vão exigir um esforço mental prolongado”; “facilmente se distrai por estímulos alheios à sua tarefa”; “com frequência tem dificuldade de aguardar sua vez”; “frequentemente interrompe ou se intromete em assuntos das outras pessoas”; e “com frequência tem dificuldade de brincar ou de se envolver silenciosamente em atividades de lazer”. Quem tem contato com crianças sabe que são sintomas não exatamente incomuns ou indicativos de que elas são doentes. Existiria, então, algum exame laboratorial ou uma ressonância magnética que mostrasse a existência do TDAH? Não, não existe!

Diante da constatação da fragilidade do diagnóstico, e da pressão para controlar os comportamentos de crianças que “atrapalham” o andamento das atividades no modelo tradicional de escola, é fácil entender por que houve uma explosão de diagnósticos de TDAH e indicação de medicações com ritalina e outros estimulantes do sistema nervoso. Em um primeiro momento, a medicação pode até parecer bem indicada, já que a criança fica mais “focada” e calma. Contudo, a longo prazo, os efeitos podem ser perigosos, principalmente porque não conhecemos de que modo a ação das drogas pode interferir no desenvolvimento cerebral. Assim, pode-se concluir que a medicação não deve ser considerada a primeira escolha para tratamento, e sim, reservada para situações em que todas as demais abordagens se mostraram infrutíferas.

Uma conduta sensata após ter seu filho diagnosticado como portador de TDAH é, com base no que foi até agora exposto, não confiar cegamente no argumento de autoridade e perguntar ao profissional o que o fez chegar àquela conclusão. Se a resposta envolver argumentos do tipo “o cérebro tem um defeito na área responsável pela atenção”, desconfie, pois há outros elementos que podem influenciar no desempenho e no comportamento da criança, como conflitos familiares, escola não adaptada ao seu perfil e personalidade, sobrecarga emocional e mesmo doenças físicas. Pôr toda a responsabilidade em um cérebro defeituoso é simplista e normalmente não é uma boa explicação para os fenômenos observados.

Crédito: Twin Design/Shutterstock

Talvez o mais difícil para a maioria dos pais seja enxergar seus filhos como eles realmente são: quais suas necessidades, desejos, angústias, fraquezas. Como esperar que a criança corresponda plenamente às expectativas se estas são criadas pela neurose de quem não consegue reconhecer a individualidade do outro? Ou será que uma criança com agenda mais lotada de compromissos que a de um executivo de multinacional se sairá bem em suas tarefas? Nesses casos, o uso de medicação estimulante não é indicado.

Não se pretende com essa exposição argumentar que o TDAH não exista ou que é uma criação da indústria farmacêutica desejosa de lucrar e entorpecer nossas crianças, mas advertir para os riscos e a inadequação do diagnóstico pouco fundamentado e para a prescrição indiscriminada de drogas para pessoas que estão em situação natural de vulnerabilidade. Nos casos em que os sintomas de hiperatividade e desatenção persistam, mesmo depois de intervenções nas dinâmicas de relação entre criança – família – escola e de evidente prejuízo para o desempenho escolar e social, é preciso pensar em abordagens farmacológicas. Contudo, isso acaba sendo necessário de fato em casos de uma pequena parcela de crianças em idade escolar.

Com isso em mente, dificilmente se repetiria a história que presenciei, de uma criança que foi diagnosticada com TDAH aos três anos de idade e medicada com ritalina. É muito difícil conceber que, nessa idade, seja possível satisfazer critérios diagnósticos como “com frequência, tem dificuldade de aguardar sua vez”. Nesse caso, o bom senso e a consciência de que não devemos expor corpos e cérebros em formação a drogas psicotrópicas, sem uma razão válida, certamente são os melhores conselheiros para profissionais da saúde e para os pais.

Texto de Paula Eisenstadt. Graduada em Psicologia pela PUC-SP, especialista em Neuropsicologia pelo HCFMUSP e mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP. Neuropsicóloga em consultório particular, atende adolescentes e adultos. 

Crédito da foto principal: FamVeld/Shutterstock.

2 Comentários

  1. Deby Zitman

    Sou psicologa educacional, especialista, em Israel. Tambem mae de duas criancas diagnosticadas com deficit de atencao. Ah, meu marido tambem! Gostei da materia e gostaria de acrescentar o fato de que a Genetica tbm deve estar clara no diagnostico ( ja que o fruto nao cai longe da arvore) e tambem contar que aqui em Israel dificilmente se medica uma crianca antes da primeira serie. Outra coisa, como profiasional recomendo o diagnostico feito por um psiquiatra que tem a habilidade de saber se se trata de um deficit de atencao ou um periodo conturbado por algum motivo emocional.

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  2. Samanda

    Olá, tenho um filho de 9 anos que foi diagnosticado por um neuropediatra como portador de TDAH. Meu filho sempre estudou em escola particular, entretanto, ainda não consegue ler. Meus esforços para ajudá-lo parece em vão, por isso busquei ajuda com o neuro. Fizemos os exames EEG e o P300, e assim o médico indicou o ritalina 10 mg, meu filho não é uma criança com o comportamento agitado, mas demonstra momentos de anciedade, principalmente na hora de estudar. Fico lendo artigos como esse e as vezes me pergunto se estou agindo corretamente. Obrigada

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