Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

Maura Lopes Cançado: tecendo loucura e arte

(Texto de Graça Sette)

 “Considero-me além de qualquer expectativa.”

“Existo desmesuradamente, como janela aberta para o sol. Existo com agressividade.”

(Maura Lopes Cançado)

É possível que você nunca tenha lido um livro de Maura Lopes Cançado, nem ouvido falar dessa escritora mineira. Não se considere uma exceção. Esse desconhecimento é comum até entre os estudiosos da literatura brasileira.

Maura nasceu em São Gonçalo de Abaeté (MG), casou-se aos 15 anos e teve um filho que foi criado pela avó. O casamento durou apenas um ano.

Depois, mudou-se de São Gonçalo para Belo Horizonte e, logo em seguida, para o Rio de Janeiro, aos 22 anos. No Rio, passou a conviver com poetas, artistas e intelectuais.

Ambicionava ser a maior escritora brasileira. E, na década de 1960, publicou o diário Hospício é Deus (1965) e a coletânea de contos O sofredor do ver (1968). Ambos foram muito bem recebidos pela crítica, à época. E sua autora, considerada a grande “revelação” da literatura brasileira. Mas a doença mental e as sucessivas internações em hospitais psiquiátricos soterraram sua arte e interromperam uma grande carreira literária.

Entretanto, a Autêntica Editora tirou essas duas obras de Maura da sombra do esquecimento, do ostracismo, e nos deu a oportunidade de ler/reler uma autora tão incomum, ao relançá-las em edição especial, em que os dois livros são acompanhados por um perfil biográfico da escritora, produzido pelo jornalista Maurício Meireles. Tudo reunido em uma caixa.

Hospício é Deus foi escrito em forma de diário, quando a autora estava internada no hospital psiquiátrico Gustavo Riedel, no Rio de Janeiro. Nele, a narradora vai tecendo histórias (reais ou ficcionais?), descrevendo impressões e sentimentos a respeito do hospital, dela mesma e dos internos. Assim, ela se refere ao hospital psiquiátrico: “uma cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos”.

(c) Divulgação.

Em vários trechos, Maura analisa a sua condição e a de outros internos: “O doente, ainda preso ao mundo de onde não saiu completamente […]”; “O que me assombra na loucura é a distância – os loucos parecem eternos. Nem as pirâmides do Egito, as múmias milenares, o mausoléu mais gigantesco e antigo possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura […].”

Ao evocar a infância, Maura analisa: “Não creio ter sido uma criança normal, embora não despertasse suspeitas. Encaravam-me como a uma menina caprichosa, mas a verdade é que já era candidata aos hospícios aonde vim parar.”

Em outra parte, ela explica sua veia de ficcionista, ao narrar que, “quando tinha 7 anos, contava que era filha de russos, que tinha uma irmã chamada Natacha e que seu tio nascera na China, durante uma viagem dos avós dela”. Tudo invencionice da futura escritora.

Maura não só encontrou nas palavras uma maneira de se relacionar com sua doença, como produziu literatura de qualidade, pela capacidade narrativa, pela recriação da realidade e pelo trabalho com a linguagem.

Para saber mais a respeito da vida e da obra dessa autora imperdível, acesse:

http://www.poscritica.uneb.br/revistaponti/arquivos/v1n1/v1n1-85-98.pdf

http://www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/CorreaLB.pdf

http://oglobo.globo.com/cultura/a-mineira-maura-lopes-cancado-comeca-ter-sua-obra-redescoberta-12184270

(Datas de acesso: 9 maio 2016).

Hospício é Deus / O sofredor do ver

(Maura Lopes Cançado)

Autêntica Editora • Edição: 1 • Data de publicação: nov. 2015.

 

 Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se: Literatura – Trilhas & Tramas (Leya, 2015); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Scipione, 2010); Para ler a Gramática (Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Lê, 1999, Prêmio Jabuti de “Melhor   livro didático”, 2000).

Crédito da foto principal: (c) Divulgação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *