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Marido de professora

(Texto de Antonio Barreto)

Não sei se a jovem leitora já ouviu falar. Mas houve época em que ser “marido de professora”, principalmente em cidade do interior, valia de alguma coisa. Dava status, dava inveja, dava poder. Dava crédito com agiota, dava respeito, dava talão de cheques. E dava até caderneta para pendurar a conta no boteco do Fiado, Só Amanhã.

A única desvantagem era na ordem de comando do galinheiro. Porque o sujeito mal casava e já ganhava o sobrenome dela depois do seu. Ou o posto: “– Lá vai o Zezé de Dona Juju Pedroso! Olha lá o Janjão de Dona Belinha da Escola! Aquele lá é o Tuca de Dona Bebé Diretora!” – e por aí vai.

De forma que, naquele tempo, não sendo o sujeito um machão convicto, dava tudo certo. E talvez tenham sido eles, os “maridos de professora”, os primeiros feministas do Brasil, quem sabe? Mesmo porque elas, as professoras, também eram amadas e idolatradas. Mais idolatradas (isso eu garanto) que essa “pátria amada salve, salve”. Ou essa tal de “pátria educadora” de mentirinha que hoje temos por aí. E outra: naquele tempo, o pendão da nossa esperança era apenas um caderno de caligrafia, novinho, à espera do lápis bem apontado. O brado retumbante, com seus raios fúlgidos, era apenas o som exalado de nossas gargantas, após as intermináveis sessões de óleo de rícino ou óleo de fígado de bacalhau (remédios que serviam pra tudo: lavar tripas, matar lombrigas, curar reumatismo, fortalecer músculos, ativar o cérebro e decorar tabuadas de Matemática). E o lábaro estrelado? Esse era apenas o resultado da pancada, do cascudo que o famoso Paulão Hostentas – o caboco maior e mais forte da minha turma – distribuía de vez em quando sobre nossas cabeças já ostentadas de redemoinhos, piolhos e carrapatos.

Mas sigamos em frente.

Quando o mundo era grande e vasto (mas bem menor que o coração do mestre Drummond), a gente era tão pequeno que sentia no chão os rumores da cidade crescendo, ensaiando os primeiros passos de Passos na direção do rio Grande, onde nasci. Havia por lá um bairro operário chamado Coreia. Até hoje não sei o motivo desse nome. Mas deve ser o mesmo pelo qual em BH, também, há uns muquinfos e favelas também apelidadas com esses designativos irados: Iraque, Vietnã, Afeganistão, Pau Comeu e Arranca Rabo. Pois bem, na Coreia, havia uma espécie de minishopping, um tem-tudo, que a gente chamava de empório ou “venda”. E, na porta da venda, um baixinho meio sarará que ficava o dia inteiro exercitando sua ímpar condição de premiado pelo destino. Almofadinha, entre um beberico e outro, esse joão estalava a língua no céu da boca. E sempre, com ares de avestruz-em-lua-de-mel, penteava os bigodes bem aparados. Depois, alisava a careca (ou seja: aquela parte do corpo despossuída de acúleos capilares) num espelho redondinho. E aprumava o cangote antes de jogar no bicho, ordenando: “– Dez contos no milhar da cobra! Vinte contos na centena do jacaré! E trinta contos na barbuleta! Se der o terno, eu engulo a gravata!” – dizia ele, todo pavoneado.

Invariavelmente, o trololó acontecia. Porém, não me recordo mais do seu nome. Mas sei que toda vez que eu ia naquela venda, a serviço doméstico de Doneugênia de Seu Nhonhô – minha mãe –, lá estava o engomado bailando um palito de fósforo entre os dentes e proclamando: “– Sou marido de professora!”. Era assim que o pavão passava o dia. Trabalhando feito cão deitado. E, por cima, ainda tirava sarro em quem chegasse suando do trampo, atrás de pinga ou de cigarro picado.

Ah, aqueles mequetrefes que não tiveram a mesma sorte: serem maridos de professora! Digo isso porque, hoje em dia, a coisa mudou. Ser marido da “tia” é o mesmo que arrumar emprego de Enxugador de Gelo na Antártida. Ou Medidor de Nuvens no Saara, Pegador de Redemoinhos em Marte ou Cerca-Chuvas no volume morto do Complexo da Cantareira. Na hora em que a tempestade cai, dá-lhe canivete na cabeça! E assim vamos indo e zunindo, no verde-louro dessa flâmula…

Mas já teve governante mandando a polícia jogar água fria e descer o cassetete nas professoras. Pra não dizer do folclore que já correu por aí, de um ex-governador mineiro: “As professoras não ganham mal. Elas são é malcasadas!”. Quem disse isso, nada mais fez do que botar todos nós, pertencentes à classe dos professori-consortes (o palavrão é meu, e sou um deles), nos seus devidos lugares. Quem mandou elas se casarem com a gente? Marido de professora? Que sujeito mais azarado!

Falar nisso, malcasado também é o nome que se dá, pelas bandas de Alagoas e Pernambuco, a um beiju de tapioca com leite de coco e coco ralado, tudo assado a fogo brando, em folhas de bananeira. Hum… Algo que lembra, novamente, o destino cruel: marido de professora, um banana. Um assado e ralado a fogo brando, pelo governo.

Com o devido respeito, na próxima “encadernação” (e aqui já vou ajuntando os cascos e batendo continência), quero voltar como marido de sargenta da Polícia Militar! Ou, quem sabe, de uma mulher que nunca me diga adeus. Pensando bem… (pausa para refletir)… – já sou casado com ela. E no maior orgulho!

(Enquanto digito esta crônica, olho para o meu lado e vejo: lá está ela, guerreira, sonhadora, carinhosa, corajosa, pé no chão e renitente com seus livros, cadernos, lousas e computadores. Quase cega, não se abate, nunca. E continua tentando, talvez inutilmente, tirar do “berço esplêndido” essa nova juventarde que desafia o nosso peito à própria morte…). De resto, sobra esse nó na garganta e essa vontade de abraçá-la e chorar para sempre. Sempre ao lado dela. Mas, pátria educadora, até quando?

 

 Antônio Barreto nasceu em Passos (MG) e reside atualmente em Belo Horizonte. É cronista, contista, poeta, romancista e autor de livros infanto-juvenis. Ganhou diversos prêmios literários, como João-de-Barro, Ezra Jack Keats (Unicef), IBBY (Unesco) e foi indicado várias ao Prêmio Jabuti. Escreve regularmente para jornais e revistas impressas e eletrônicas, no Brasil e no exterior. Alguns de seus romances: A barca dos amantes (Lê); Crônicas adoidescentes e Lixo cósmico (Mercuryo Jovem); O papagaio de Van Gogh (Lê). Contos: Os ambulacros das holotúrias e Reflexões de um caramujo (UFMG). Poemas: O sono provisório (Francisco Alves); Vastafala (Scipione); Vagalovnis (Autêntica). Infanto-juvenis: Balada do primeiro amor; O velho pássaro da lua, No beleléu e Brincadeiras de anjo (FTD); O menino que não sonhava só (Mercuryo Jovem); A desdorminhoca (Dubolsinho). Facebook: https://www.facebook.com/antonio.barreto.12139

 

 Ilustração de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revista, jornais, revistas empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, gosta muito de fotografia. Ele adora fotografar insetos.

 

 

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