Mais que uma viagem

(Texto de Ivonete Lucirio)

O Caminho de Santiago de Compostela é mais que uma simples opção de férias. É uma peregrinação de autoconhecimento.

Você já deve ter ouvido a expressão “todos os caminhos levam a Roma”. Uma versão atualizada dessa expressão seria “todos os caminhos levam a Santiago de Compostela”. É nessa cidade – na Catedral de Santiago de Compostela – que estão os restos mortais de São Tiago Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo, e para lá se dirigem milhares de pessoas todos os anos, vindas de várias partes do mundo. Na verdade, não existe um caminho único, mas vários, que saem de diferentes partes da Europa e levam de uma semana a mais de um mês para serem percorridos. Só para ter uma ideia, o caminho francês sai de San Juan Peid Port e tem 795 quilômetros. E há o caminho português, que sai de Valença do Minho e tem 114 quilômetros.

Santiago de Compostela é destino dos peregrinos há séculos. Aliás, as peregrinações foram encorajadas pelo imperador Carlos Magno, no século VIII, porque ele as considerava uma forma de defender as fronteiras das invasões árabes. Os peregrinos nunca deixaram de visitar a região, mas o número voltou a crescer no fim da década de 1980, fazendo com que o caminho se tornasse Patrimônio da Humanidade, no fim da década de 1990. O livro Diário de um Mago, do autor brasileiro Paulo Coelho, contribuiu para o aumento no número de peregrinos. Mas o que será que esse caminho – ou caminhos – tem de tão especial?

Em primeiro lugar, é cheio de simbologias que, embora ligadas à Igreja Católica, extrapolam a religião e se tornam importantes para pessoas em busca de autoconhecimento. “Tenho a sensação de que fui para o Caminho e nunca mais voltei”, conta a fisioterapeuta carioca Maria Alice Medina, que conhece vários dos caminhos até a região. “É uma experiência de liberdade, confiança, solidariedade. Nos relacionamos com pessoas de todo o mundo. O ambiente é de simplicidade e gratidão, o que traz uma imensa alegria interior”, descreve ela. Em agosto de 2016, ela trabalhou por 15 dias como hospitaleira em um albergue no caminho, ajudando a cuidar dos peregrinos.

Não é raro que vários deles fiquem cansados e doloridos no meio das longas caminhadas. Mas quem já fez o percurso garante que vale a pena. Os peregrinos carregam consigo uma credencial, que deve ser carimbada em postos localizados em igrejas, albergues, órgãos públicos e mesmo em alguns bares e restaurantes. É a comprovação de que o percurso foi feito por completo. Dependendo do caminho, não é preciso fazer tudo a pé. “Para que o peregrino possa afirmar que realmente percorreu o caminho, deve caminhar os últimos 100 quilômetros. Ou fazer os últimos 200 de bicicleta ou cavalo”, conta Lilian Joppert, vice-presidente da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (http://www.caminhodesantiago.org.br/), sediada no Rio de Janeiro. Essa Associação, assim como outras no Brasil, tem como objetivo ajudar o peregrino a organizar a viagem, emitir a credencial – que também abre as portas para frequentar os albergues –, ensinar a organizar a mochila, entre outros serviços.

“Há algumas dicas que ajudam a percorrer o Caminho de Santiago. Por exemplo, basta uma mochila com 5 quilos, com saco de dormir e duas ou três mudas de roupa, já que é permitido lavá-las nos albergues”, conta Lilian. Ela dá outras sugestões: invista em uma boa mochila, daquelas que permitem apoiar parte do peso nos quadris; compre uma bota um número maior que o seu oficial; leve também uma capa de chuva. “A experiência mais forte que eu trouxe é exatamente essa: precisamos de muito pouco para viver. Isso é uma lição para todas nós, que nos acostumamos com um mundo em que o material é muito valorizado”, completa a carioca Tetê Orro, que já percorreu o caminho sete vezes.

A experiência pode ser realizada sozinha, em grupos, em casal, com uma amiga. Depende de como você se sente. Pode acontecer de a pessoa começar o percurso com um grupo e perceber que quer continuar sozinha. Depende da experiência que cada um deseja viver durante essa jornada. Cada viagem é particular, única e peculiar.

 Texto de Ivonete Lucirio, jornalista que adora escrever para revistas – digitais ou impressas. Escreve artigos para várias publicações de circulação nacional, é autora de livros paradidáticos e já ministrou oficinas de escrita criativa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *