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“A Lua vem da Ásia”: um não contra “a loucura da normalidade”

(Texto de Graça Sette)

“As flores têm o perfume que a terra lhes dá sem ser perfumada. Assim, também nós devemos dar a nossos atos aquilo que não trazemos em nós, mas de que somos realmente capazes, e que não morrerá com a nossa morte”.

(Campos de Carvalho)

A Lua vem da Ásia, romance do escritor mineiro Walter Campos de Carvalho (1916-1998), foi  publicado originalmente em 1956. É considerado cult, uma obra-prima elogiada pela crítica, mas pouco lido e conhecido tanto pelos leitores da época em que foi editado quanto pelos contemporâneos.

A editora Autêntica, ao republicá-lo 60 anos depois, mais uma vez mostra seu compromisso contra o apagamento de autores fundamentais da literatura brasileira. E oferece-nos a oportunidade de ler uma obra singular em que sonhos, fantasias, delírios, negação da “lógica” estruturam a narrativa surreal, irônica, aparentemente caótica, mas com extrema coerência interna entre tema e linguagem. Segundo Cláudio Willer, A Lua vem da Ásia “examina a loucura contra a sanidade mental, e a loucura da normalidade […]”.

Já no primeiro parágrafo, o narrador em primeira pessoa sela o pacto ficcional com o leitor e o adverte de que não deve esperar uma narrativa realista nos moldes de outras obras consagradas da época: “Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.”

Com relação à sua aparência, sua condição de vida e à dificuldade de se identificar, ele reforça o alerta: “Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo”. Mais adiante, ele questiona também o título: “À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.’’

Na primeira parte, “Vida sexual dos perus”, Astrogildo narra sua vida em um cenário opressivo de hospital psiquiátrico, que ele nomeia no início da trama como “hotel de luxo”: “Tudo isso do meu passado eu conto para que se possa ter uma ideia exata da minha situação presente, depois que me deram por excêntrico e me jogaram neste hotel de luxo onde os garçons, o gerente e o subgerente andam todos de branco, e têm também os dentes brancos e não vermelhos ou amarelos como toda gente. Conto, também, porque o dia aqui para mim tem setenta e duas horas, e às vezes mais até […]”.

A sequência dos capítulos dessa primeira parte reforça o nonsense. Por exemplo: depois de “Capítulo Primeiro”, surgem o Capítulo 18º; em seguida, o Capítulo Doze; o (Sem Capítulo); o Capítulo Sem Sexo; o Capítulo 99…; o Capítulo I (Novamente); Dois Capítulos Num Só, Capítulo Não-Eclesiástico…; entre outros. E haja loucura, haja humor nessas titulações carvalhais!

Na segunda parte, intitulada “Cosmogonia”, ele narra sua vida após fugir da prisão e viver experiências caóticas, marcadas pela quebra da lógica espacial e temporal. Perambula “virtualmente” por  Melbourne, Varsóvia, Cochabamba, Cuzco, Madagascar, Nova York, Cidade do México e, óbvio, Paris. Mais: metamorfoseia-se em assassino, filósofo, cafetão, político, mendigo, espião, amante, romancista, jornalista, ator, entre outros “modos de ser ou não ser”, sem nunca encontrar sentido para a vida.

Ao final, escreve uma carta ao redator da seção de necrológios do jornal Times, narrando seu suicídio. Nessa carta, faz o seguinte comentário: “A morte de um mosquito é tão importante quanto a minha própria morte, digo-o sem falsa modéstia, e disso o senhor mesmo terá prova ao ficar sabendo do meu suicídio, que o afetará tanto quanto a morte de um dos milhões de perus sacrificados à véspera do Natal”.

Esse protagonista de meados do século XX ainda é a representação do homem contemporâneo que vive em um mundo virtual, distópico, tomado pela angústia, pelo absurdo da vida rotineira e pela tentativa, quase sempre frustrada, de manter a individualidade. Ao final, o leitor poderá perceber que esse romance do genial Campos de Carvalho tem muito a dizer a cada um de nós, e desse tempo tão estilhaçado e fragmentado em que vivemos.

Um detalhe: alguns capítulos da obra podem ser lidos como contos, embora haja um fio de ligação entre eles. O autor mescla gêneros como autobiografia, aforismos, discursos, monólogo, texto teatral, carta etc.

Campos de Carvalho, sem dúvida, escreveu um verdadeiro clássico da literatura de todos os tempos. Pois, conforme ressaltou Ítalo Calvino, “clássico  é aquele livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Assim é A Lua vem da Ásia.

Dados da obra:

A Lua vem da Ásia

Número de páginas: 176

Mês/Ano de publicação: 11/2016

Editora Autêntica (Belo Horizonte): Rua Carlos Turner, 420, Bairro Silveira,
Belo Horizonte – MG. CEP: 31140-520 .  Tel. (31) 3465-4500 / Site: <http://grupoautentica.com.br/>

Para saber mais sobre Campos de Carvalho e sua obra, leia: <http://rascunho.com.br/a-vinganca-do-icone-iconoclasta/>

 Graça Sette, antes de tudo, é uma leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas, destacam-se: Trilhas e Tramas (Ensino Médio, LeYa, 2016); Marcha Criança – Produção de Textos (EF1, Somos Educação, 2016); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Scipione, PNLD 2010); Para ler a Gramática (Lê, 2005); Transversais do mundo – leituras de um tempo (Lê, 1999, crônicas, Prêmio Jabuti/2000).

Crédito da ilustração: Carlos Asanuma

Crédito da foto de destaque: Acervo/Editora Autêntica

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