Jack, o reivindicador

(Texto de Samir Thomaz)

Um dia, os autores das “célebres frases”, aquelas que são proferidas para dar um toque especial a uma fala ou situação, se reuniram em Londres para reivindicar seus direitos autorais. A capital da Inglaterra fora escolhida por ser a cidade do mentor do protesto, Jack, o estripador, autor de uma das célebres frases mais citadas: “Vamos por partes”.

– Não é justo que nossas criações sejam usadas de forma banalizada sem que recebamos um penny por isso – disse Jack, líder da ala radical do movimento.
John Lennon, autor da célebre frase “O sonho acabou”, membro da ala moderada, lembrou que pelo menos seus nomes eram citados, o que amenizava o uso indiscriminado.
Jack replicou que Lennon dizia aquilo porque era milionário, e que o uso de sua frase só o ajudava a vender mais discos. Mas que, no caso dele, só consolidava sua má fama.
– Mas, Jack, você estripava pessoas! – indignou-se Maquiavel (“Os fins justificam os meios”). – Se eu fosse pedir indenização por calúnia, injúria e difamação, estaria bilionário.
– Estripava mesmo – alterou-se Jack, as veias já lhe saltando nas têmporas. – Como dizia a célebre frase do Jânio Quadros, “Fi-lo porque qui-lo”.
– Estão vendo! – interveio Greta Garbo (“I want to be alone”), outra da ala moderada. – Se nós mesmos usamos as célebres frases, por que cobrar direitos autorais do cidadão comum?
– Concordo com a Greta – disse Machado de Assis (“Ao vencedor as batatas!”).
– Eu também – falou Otto Lara Resende (“O mineiro só é solidário no câncer”).
– Apoiado! – emendou De Gaulle (“O Brasil não é um país sério”).
– De minha parte, só lamento que nem sempre citem a frase corretamente – disse Nietzsche (“Deus está morto”). – A minha sempre é lembrada pela metade. Eu não disse apenas “Deus está morto”, mas “Deus está morto e fomos nós que o matamos”.
– É que as pessoas só enfatizam aquilo que interessa a elas – disse Paulo Maluf (“Estupra, mas não mata!”).
– É verdade – concordou Marta Suplicy (“Relaxa e goza!”).
– Bem lembrado, Nietzsche – disse Jack, já mais calmo.

– Vou colocar sua reivindicação em pauta. Mas vamos por partes. Que tal começarmos pela pauta principal?
Todos apoiaram. Menos dois sujeitos que ficaram o tempo todo calados, no canto do recinto. Intrigado, Jack quis saber quem eles eram.
– Somos o autor anônimo e o autor apócrifo – disse o anônimo, falando pelos dois.
Fez-se um silêncio constrangedor. Afinal, cada um ali era autor de uma célebre frase, quando muito de duas. Mas aqueles dois eram autores de centenas, talvez de milhares de frases. E não tinham reconhecimento algum. Nem faziam questão de ter.
A postura humilde dos dois gerou uma reviravolta na discussão. A ala moderada logo enxergou neles a causa de uma minoria oprimida e a reivindicação perdeu força. Em nova votação, decidiu-se que não reivindicariam mais nada. Que estava tudo certo.
Todos ficaram satisfeitos com o resultado da enquete, menos Jack, que foi voto vencido. Na saída, ele teve a solidariedade de Tomasi di Lampedusa:
– Não desanime, Jack – disse o escritor italiano, colocando a mão em seu ombro. – Como diz minha célebre frase, “É preciso que as coisas mudem para que tudo permaneça como está”.
Saíram dali e foram tomar um conhaque no distrito de Whitechapel, onde Jack tinha construído sua fama.

 Samir Thomaz é jornalista, editor e escritor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros.

 

 

Crédito da foto principal: © Marijus Auruskevicius | Dreamstime.com

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