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A importância dos limites na infância

(Texto de Ana Paula Macchia)

Com certeza algum dia você já assistiu atônito algum pai ou alguma mãe sem reação diante de um comportamento desafiador dos filhos em um ambiente social. Certamente, também assistiu à cena de uma crise de birra infantil. Diante desses eventos, você mesmo pensou ou ouviu alguém falar: “Esta criança precisa de limites!”

Essa frase remete sempre à evidência de que há algo errado na forma de educar a criança, embora a grande maioria dos pais esteja sempre se desdobrando e procurando as melhores formas de educar. Esta é a grande característica dos tempos modernos: nunca se pensou ou se produziu tanto em razão de uma pedagogia da infância e da adolescência. Em toda a história social da criança, ela nunca esteve tão em evidência, nem nunca teve adultos tão sensibilizados em relação às suas necessidades, o que ao mesmo tempo é benéfico e maléfico. A criança de hoje é a protagonista na família e na escola, o que se mostra por meio da troca de importância nos papéis sociais na família e na educação. Pais e educadores enfrentam diariamente o desafio de transmitir regras e valores, mas ao mesmo tempo garantir às crianças um ambiente saudável, que desenvolva nelas o sentimento de segurança, promovendo sua autoestima.

Diante de um fenômeno que faz da infância a protagonista dos eventos sociais, o caminho mais curto e fácil é o mimar e o satisfazer, que é muito eficaz a curto prazo, mas que se transforma em um sentimento de insegurança no longo prazo. Sim, nós temos dificuldade em impor limites porque amamos demais, porque desejamos o bem-estar dos pequenos e porque queremos ser amados e admirados por eles. Ao mesmo tempo em que ocorre uma infância protagonista, temos adultos com medo de falhar e de não satisfazer.

Quem impõe limites ao comportamento infantil está se arriscando a não ser necessariamente querido naquele momento. Arriscando-se a cultivar algumas brigas, raiva e até comportamento de ira na criança. Para que o adulto sustente essa ação, precisa necessariamente de segurança e convicção de que está indo no caminho correto, mas a obrigação de não cometer erros, de fazer tudo exatamente como informam os manuais e os educadores acaba por gerar mais incertezas do que segurança.

Quando os limites ficam mal estabelecidos ou frouxos, ou quando eles inexistem, o que reina é a insegurança, o que leva essas crianças a testar todas as possibilidades para, assim, perceber até onde podem avançar. Apesar dos muitos protestos, as crianças não sofrem com o estabelecimento de limites, muito pelo contrário, elas ganham orientação.

Limites efetivos são estabelecidos por pessoas seguras e firmes. Firmeza não tem nada a ver com nenhuma forma de autoritarismo, com gritos, berros, violência física ou verbal, mas sim, com consistência, ou seja, a firmeza é a certeza de que aquele determinado limite não se modificará de acordo com o humor da criança ou dos pais ou com algum evento externo. Transmitir limites com clareza significa adotar postura e tom de voz adequado, com calma interior e, principalmente, confiança e respeito mútuo.

Colocar limites não é de modo nenhum castrar ou impedir a criatividade e a ação da criança, mas sim, encorajá-la e soltá-la para as vivências da sua idade, para que encontre seu verdadeiro papel, o que levará a alguns arranhões e choros. Impor limites não é proteger demasiadamente a ponto de evitar o confronto com a realidade, mas sim, permitir que as experiências aconteçam de acordo com a maturidade. O excesso de proteção gera adultos inaptos.

Se impor limites não é proibir, também não é castigar, porque um limite se coloca antes do comportamento efetivo e não depois de um uma ação errada. Ou seja, não se está impondo um limite ao se castigar a criança retirando dela um brinquedo, mas sim, quando você lhe informa, de antemão, as regras da situação.

Crédito: Angel Simon/Shutterstock

Os limites servem para oferecer direção à criança em suas ações no ambiente e mostrar a ela qual é ou não é o seu lugar naquela situação, ensinar a criança a reconhecer, julgar e a agir nas situações, dando-lhe uma perspectiva de até onde pode ir. Por essa razão, limites não ocorrem como um freio de uma situação em curso. Os limites não devem ser considerados ordens ou dogmas, mas sim, reflexões sobre as ações.

A neurociência atualmente nos mostra aquilo que psicólogos do desenvolvimento já reconheciam na análise do comportamento infantil. As crianças muito pequenas têm importante dificuldade em frear um comportamento em curso, porque ainda não têm adequada funcionalidade das estruturas cerebrais responsáveis pelo controle inibitório; então, são, consequentemente, mais impulsivas. Isso significa que limite, análise, julgamento e consequência necessitam ser transmitidos externamente, de maneira consistente e repetitiva, até que essas conexões se tornem funcionais e a criança possa estabelecê-las por si só. O problema é que esse processo está em desenvolvimento durante toda a infância e adolescência. Essas conexões fazem parte das funções executivas do cérebro, que podem sofrer alterações até a segunda década de vida e são responsáveis pelo controle inibitório, por julgar e antecipar dados de uma situação, ou seja, pelo juízo, pela flexibilidade mental e pela autorregulação emocional.

A autorregulação de respostas emocionais é uma importante conquista no desenvolvimento infantil e se mostra como um fator protetor diante das situações de estresse.  Limites geram oportunidades para a criança suportar e tolerar frustrações, mas também geram a oportunidade de reconhecer suas emoções e suas deficiências em regular as respostas emocionais que trarão consequências sobre o ambiente. O reconhecimento das emoções e de como respondem aos eventos traz a possibilidade à criança de aprender a autorregular suas emoções diante de situações de estresse ou de frustração. A autorregulação emocional é importante para desenvolver crianças mais adaptadas e ajustadas ao meio social. Crianças com dificuldade em autorregular as respostas emocionais se tornam mais vulneráveis a situações de estresse.

Hoje em dia vemos muitos pais utilizando o tablet como ferramenta de controle comportamental, assim como no passado os aparelhos de televisão eram as babás eletrônicas que entretinham as crianças por horas. O grande problema é que o tablet está à mão em qualquer situação, então, diante do mínimo desconforto ou impaciência da criança, ele lhe é fornecido. Mas há uma diferença muito importante em relação à televisão: a criança o controla e reinicia a ação quantas vezes ela quiser e sem intervalos comerciais! A área de recompensa de seu cérebro fica plenamente ativada, em vez de sentir um pequeno desconforto ou tédio ao aguardar a comida chegar em um restaurante, por exemplo. O pior é quando se age assim diante do choro ou da birra. Crianças precisam aprender a esperar a vez, a autorregular-se em uma crise de choro ou birra, a tolerar frustrações e, para isso, necessitarão ser orientadas por um adulto, que as ensinará a analisar a situação e a consequência  de seus atos. O tablet não ensina isso, ele apenas desvia a atenção e muda o foco. O tablet deve ser utilizado como ferramenta de estimulação e diversão, não como ferramenta de controle de comportamentos difíceis.

Impor limites e educar não é uma tarefa fácil, gera dúvidas e exige uma boa dose de coragem e disponibilidade. Não há regras a seguir, não há um manual que ensine o caminho correto.

O importante não é o que os pais falam aos filhos quando estabelecem limites, mas sim, como falam, como praticam esses limites em suas vidas, como os vivenciam. O sucesso ocorre na postura educativa, na forma, mais do que no conteúdo.

Impor limites é orientar e fornecer segurança, respeitando e considerando a dignidade e o papel da criança em seu nível de maturidade, contribuindo, assim, para o fortalecimento de sua autoestima.

 

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