Hora de zerar o relógio

(Texto de Ivonete Lucirio)

Basta virar o calendário no mês de dezembro e começamos a fazer planos para o próximo ano. Isso é ótimo, divertido e eficiente, desde que se trabalhe para concretizá-los

Lá vamos nós: ano novo, vida nova. Esse desejo de transformar tudo para melhor ao virar o calendário é bastante saudável. O psicanalista Sigmund Freud afirmou que o que nos mantém vivos é o desejo. Quando paramos de produzi-lo, nos deprimimos e morremos. Ter metas e manter-se em movimento nos tira da apatia, da mesmice. “Estamos sempre buscando uma nova chance para fazer algo bem feito, seja para reparar o que realizamos de errado no passado, seja para aperfeiçoar algum aspecto da nossa vida”, explica a psicóloga Lana Harari, de São Paulo. E o calendário traz essa nova chance. Só que o processo não é automático. A “novidade” precisa ser construída, o que nem sempre é simples. “Na hora de tomar as decisões de ano novo, estamos de cabeça fria e, por isso, ficamos otimistas com relação à nossa capacidade de agir no futuro. Mas, quando o futuro chega, permanecemos sob a influência das emoções do momento e acabamos fazendo diferente do que foi inicialmente proposto”, afirma Lana Harari. Então, o plano de poupar dinheiro é adiado porque surge algum imprevisto, a intenção da dieta vai por água abaixo porque um nervosismo levou a atacar a geladeira…

Como fugir dessa armadilha? O primeiro passo é saber que as decisões de ano novo, para serem viáveis, não dependem apenas de uma vontade racional. Não adianta achar que é possível melhorar o casamento, o trabalho, as relações familiares, simplesmente porque você decidiu isso. É possível realizar mudanças – até mesmo radicais – em nossa vida, desde que façam parte de uma resolução mais complexa, ligada a um projeto maior, e que surjam de um desejo genuíno. Não é o caso, por exemplo, de viajar para a Europa porque todos os amigos já foram, e sim, porque alguém querido mora lá, porque conhecer as ruas de Paris é um sonho antigo, ou porque na Inglaterra está aquele castelo que merece ser visitado. “Não pode ser uma lista de metas vazias. Se não estiverem apoiadas em um desejo forte, genuíno, será difícil investir sentimento e energia”, diz a psicóloga Ana Paula Cuoccollo Machia, do Instituto Ideia, em São Bernardo do Campo, SP.

Crédito: AcomSistemas

A motivação deve vir de uma necessidade interna, por causa de uma insatisfação com o que se está vivendo no momento, do desejo de ter mais qualidade de vida ou de realizar algo que ficou pendente durante muito tempo. “As resoluções de ano novo são interessantes como ponto de partida para construir grandes projetos no futuro, não para serem tomadas como metas finais”, diz Lana Harari. “Quero fazer dieta porque esse é um dos aspectos da transformação que desejo realizar na minha vida, aumentar minha autoestima”, exemplifica ela.

Reunimos aqui algumas decisões que podem servir de ponto de partida para que você planeje as suas metas. São todas muito simples, que ajudam a criar um círculo virtuoso que prepara o terreno para as grandes transformações.

  • Traduza em palavras o que a deixa infeliz. É partindo disso que as metas devem ser traçadas.
  • Controle seu humor. Estar irritada faz mal para você e para quem está à sua volta. Se sabe que costuma ficar mal-humorada pela manhã, tente marcar os compromissos sociais para a parte da tarde e reserve as primeiras horas do dia para tarefas solitárias.
  • “Estabeleça a serenidade como meta para a solução de problemas”, sugere Ana Paula Macchia. Não adianta fazer estardalhaço se o caixa eletrônico não está funcionando, ou se alguém pegou sua vaga no estacionamento. “Com serenidade você se sentirá mais segura, haverá menos ansiedade e estresse”, completa Ana Paula.
  • Espalhe boas ações. Essas ações podem ser as mais nobres, como doar sangue, ou ajudar um amigo a conseguir emprego, até as mais singelas, como jogar no lixo um papel que encontrou no chão ou colocar água na plantinha que fica no hall, próxima ao elevador, lá no ambiente de trabalho.
  • Espalhe também gentileza. Ajudar uma velhinha a atravessar a rua não saiu de moda; palavras simples – bom dia, obrigada, por favor – e elogios surtem um efeito incrível.
  • “Não faça de sua família um depósito de lixo de suas emoções”, diz Ana Paula Macchia. As irritações do dia não devem ser despejadas sobre marido, esposa, filhos, pais, ao chegar em casa. Que sentido faz tratar mal as pessoas que mais amamos e que realmente fazem diferença em nossa vida? Os efeitos a longo prazo podem ser danosos.
  • Brincar é universal, espontâneo e treina concentração e liberação de energia. É um excelente exercício para a saúde mental. Não precisa rolar na grama – se bem que não há problema nisso –; pode engajar-se em um jogo de mímica, cantar, dançar, contar uma piada.

Crédito: palavrasdasgarotas.wordpress

  • Cultive as amizades que já tem e faça outras novas. As relações sociais aumentam o bem-estar. Muitas vezes, ficar em casa sozinha é a opção mais confortável. Não há problema em fazer isso de vez em quando. Mas, ao tornar-se um hábito, vai privá-la de muitos momentos agradáveis e você só vai perceber quando as pessoas pararem de sentir a sua falta.
  • Pare de procrastinar. Se tem um problema para ser resolvido, empenhe-se nisso. A grande maioria dos problemas não desaparece, sem que haja uma intervenção. Pelo contrário, tendem a aumentar e a ocupar cada vez mais a mente.
  • Finalmente, dê atenção à sua realidade interna. Estamos tão preocupadas com nosso trabalho, com as contas, com as redes sociais, com a situação política, que esquecemos de olhar para a própria essência. Mas é a própria essência, não a do outro! Para isso, pratique meditação, reze, saia sozinha para pensar, caminhe, relaxe em uma banheira. Encontre o que funciona melhor em seu caso.

 Texto de Ivonete Lucirio, jornalista que adora escrever para revistas – digitais ou impressas. Escreve artigos para várias publicações de circulação nacional, é autora de livros paradidáticos e já ministrou oficinas de escrita criativa.

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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