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Foco

(Texto de Samir Thomaz)

Em 2011, entrevistei a escritora Ana Maria Machado para o blog da Abril Educação, no qual escrevia. A certo momento da entrevista, perguntei a ela se usava as redes sociais. Ela respondeu que não e explicou por quê. Perto dos 50 anos de idade (ela estava com 70 anos na época da entrevista), ela teve um câncer que a fez refletir sobre a existência. Chegou à conclusão de que a vida é curta e que, dali por diante, caso superasse a doença, iria se dedicar às coisas que realmente importavam. No caso dela, o que realmente importava era escrever. Óbvio que viver intensamente os momentos com as pessoas que ama também fazia parte. Mas, sobretudo, escrever.

Aquela resposta me impactou profundamente. Sem saber, eu estava diante do embrião de uma atitude que iria se desenvolver de forma autônoma na minha mente, como costuma acontecer com as coisas que realmente fazem sentido para nós em algum momento. Nesses casos, quando algo bate lá no fundo, iluminando um aspecto da existência que até então permanecera oculto ou insuspeitado para a nossa razão, não precisamos forçar a barra para que passe a fazer parte do que pensamos ou de como agimos. Quase podemos ouvir lá no fundo da mente um sussurro de rendição do nosso eu interior, como a dizer: “É isso!”.

Anos mais tarde, ao ler um dos livros da jovem empreendedora Bel Pesce, da qual virei ávido leitor, uma frase me surpreendeu novamente, com um sentido muito parecido com aquele da resposta de Ana Maria Machado: “Tire o foco daquilo que não agrega”. Não sei dizer com precisão em qual texto dela li essa frase, mas lembro que a assimilação foi imediata. A frase virou um mantra para o meu dia a dia. De repente, identifiquei nas poucas palavras que a compunham um dos problemas que me atrapalhava nas tarefas do dia a dia: a falta de foco. E descobri que aquela frase podia ser aplicada a qualquer situação do meu cotidiano, desde a dispersão nas redes sociais e na televisão (no meu caso, porque trabalho em casa), a sintonia com assuntos que causam estresse e sugam a energia (como discussões políticas acaloradas), até pessoas que nada acrescentam ou que estão em sintonia diferente da nossa. Não digo que consegui implementar a mensagem da frase com 100% de êxito. Mas acredito estar caminhando para isso. O mais importante, porém, é que o teor da frase me fez rever meus valores de uma forma decidida e veio consolidar em mim a sensação que calara fundo cinco anos antes.

Foi com a própria Bel Pesce que aprofundei, depois, essa questão de tirar o foco daquilo que não agrega, ou seja, de focar no que realmente importa. Em um de seus famosos Caderninhos, intitulado “Identifique o importante”, ela nos conta sobre o Princípio de Pareto, também conhecido como Lei 80-20 – que leva o nome do economista franco-italiano Vilfredo Pareto (1848-1923). Segundo esse princípio, 80% das consequências de nossas ações provêm de 20% das causas. Em outras palavras, 20% das minhas atividades são responsáveis por 80% dos meus resultados. Ou, sendo ainda mais explícito, é preciso que identifiquemos quais são os 20% que realmente importam, seja em um projeto, seja no espaço de tempo de um dia, uma semana, um mês ou um ano. Os 20%, segundo a Lei de Pareto, mapeiam os 80% restantes.

Crédito: Wavebreakmedia/Shutterstock

Na prática, isso significa que temos de tomar cuidado com a forma como priorizamos o nosso tempo e as nossas tarefas. Uma das formas mais conhecidas de priorizar, e da qual nem sempre conseguimos fugir, é a da urgência, mas ela nem sempre se mostra a forma mais proveitosa. Segundo a Lei 80-20, a melhor forma é priorizar, considerando o quanto a atividade vai contribuir para um melhor resultado. Ou seja, é preciso saber escolher de forma acertada o que é mais importante fazer em determinado momento.

O foco tem sido um dos assuntos mais desenvolvidos nas áreas de gestão, administração, economia e produtividade. Em razão do tempo cada vez mais exíguo das pessoas para realizarem seus projetos, elas têm procurado maneiras de equacionar suas metas profissionais com os outros aspectos da vida moderna, tão importantes para uma vida saudável quanto a eficiência no trabalho. Saber identificar os 20% mais importantes entre suas tarefas, seu tempo ou os eventos para os quais é convidado pode ser decisivo, não apenas para o seu êxito, mas também para que se tenha um mapa quantitativo claro do que estamos fazendo e projetando. Para um mapa qualitativo, por sua vez, tirar o foco daquilo que não agrega, como diz a Bel Pesce, pode se revelar fundamental.

 Samir Thomaz é jornalista, editor e escritor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros. 

Crédito da foto principal: Copyright: Lichtmeister/Shutterstock

4 Comentários

  1. Ana Cris

    Samir, tocado por Ana Maria Machado e por Bel Pesce,faz com que outras pessoas acendam a luzinha da reflexão! Texto ótimo, adorei!

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    1. Samir Thomaz

      Obrigado, Ana Cris. São duas mulheres excepcionais, de gerações diferentes. Sem perceber, uni duas gerações em contextos diferentes. Beijo!

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  2. Inês Azevedo

    Seu texto me inspirou a priorizar o que realmente importa, coisa que raras vezes consegui.Mas eu chego lá, obrigada pela ajuda.

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  3. Samir Thomaz

    Olá, Inês, obrigado pelo comentário. Realmente não é fácil, mas é preciso insistir. Com o volume de informações e de atividades hoje em dia, o foco é fundamental. Beijos!

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