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“Flipped classroom”: que inversão é essa?

(Texto de Roberta Lombardi Martins)

Um conceito que vem ocupando espaço na área da Educação e recentemente da mídia é o de flipped classroom – ou o de sala de aula invertida, em inglês –, uma dinâmica diferente em relação ao que ocorre nas salas de aula no momento.

De acordo com esse conceito, em vez de o aluno receber conteúdos em sala de aula e fazer atividades de lição de casa, ele se prepara estudando em casa para fazer atividades em sala de aula.

Será que isso realmente muda algo? Ou melhora o processo de aprendizagem? Teriam de ser considerados diversos aspectos, antes de tentar responder a essa questão.

Em primeiro lugar, vou retomar o contexto de surgimento dessa modalidade de ensino. Em 1999, Aaron Sams e Jon Bergmann, professores de Química de escolas do ensino médio norte-americano, começaram a gravar vídeos destinados a alunos que, em razão de serem atletas, faltavam muito e não conseguiam acompanhar os estudos. Com o acesso ao que acontecia em sala, articulado à participação em aulas nas quais aplicavam o que estudavam nesses vídeos, esses alunos melhoraram substancialmente seu rendimento. Além de vídeos, os professores passaram a usar também blogs e podcasts, nos quais publicavam materiais extras, reflexões, propostas de atividades e promoviam discussões extras.

Então, primeira hipótese: a sala de aula invertida pode ajudar quem tem dificuldade de acesso à sala de aula presencial, o que traz uma proximidade relevante à modalidade de educação a distância.

Entretanto, surge uma nova dúvida: será que todos os alunos que têm dificuldade de comparecer a aulas presenciais, por motivos diversos (profissionais, de saúde etc.), têm autonomia para reger o seu próprio processo de aprendizagem? Talvez. Isso dependerá, muito provavelmente, do tipo de escolaridade alcançada pelo indivíduo e de características de personalidade intrínsecas (como motivação pessoal, mas essa questão já daria margem a outro texto…). Os altos índices de desistência de cursos a distância, divulgados por instituições de ensino, atestam que nem todo aluno se acostuma a autogerenciar sua aprendizagem.

Em segundo lugar, penso: em uma situação pedagógica ideal, na sala de aula, os alunos receberiam e construiriam conhecimentos e interagiriam com esses conhecimentos, colegas e professores, voltariam para casa e estudariam mais. É claro que essa não é uma regra e não é tão simples assim. Lembro-me dos meus alunos calouros na universidade: ainda dependentes de mim para lhes orientar na leitura de textos, lembrar-lhes das tarefas a serem cumpridas, pedir-lhes encarecidamente que lessem os textos necessários para discutir na aula seguinte… E também da primeira meia hora que eu tinha de disponibilizar na aula seguinte, para que todos lessem o texto que deveria ter sido lido antes.

Logo, segunda hipótese: a sala de aula invertida terá êxito no contexto brasileiro se puder reverter, em larga escala, essa relação de dependência para com o outro no processo didático-pedagógico.

Assim, dois conceitos antagônicos se enfrentam: autonomia e dependência – mostrando-nos que a teoria que defende haver diferentes estilos de aprendizagem e, consequentemente, diferentes estilos ou modos de ensino é mais do que plausível. Nesse sentido, começo a delinear uma possibilidade de resposta às questões que propus no início: sim, a sala de aula invertida pode mudar os resultados e melhorar o processo de aprendizagem de alguns, mas não de todos.

Eu, por exemplo, sou disciplinada, curiosa, psicótica até com relação ao que quero ou preciso aprender. Meus caminhos de aprendizagem foram quase sempre autônomos: ter sido filha de mãe desquitada e que trabalhava nas décadas de 1960/1970 não me deu muita saída a não ser me virar sozinha desde muito cedo para tudo, inclusive nos estudos. No entanto, tenho amigos que reconhecem necessitar de um empurrãozinho em algumas atividades: orientação, lembrança e cobrança (essa tríade sempre presente!). Acredito que eu me daria bem em uma metodologia de sala de aula invertida, mas conheço muitas pessoas que a odiariam. Acredito que, para adultos, pais e mães ou solteiros, que trabalham e precisam se formar ou buscar uma pós-graduação ou um MBA, a sala de aula invertida seja uma ótima possibilidade. Entretanto, também acredito que nem todos que precisam se adaptarão a essa metodologia. Há uma expressão da qual eu gosto muito, que diz respeito diretamente a essa questão: “Cada um com seu cada qual”.

Só para concluir, tenho lido notícias referentes ao fato de essa metodologia começar a entrar no âmbito do ensino regular para os pequenos. Nesse sentido, ainda tenho dúvidas. Talvez esteja errada e, quem sabe, partindo já dos anos iniciais, a metodologia poderia ajudar a formar cidadãos mais autônomos, pois não passariam por uma fase de tutoria, digamos, tão controladora. Para opinar sobre isso, porém, preciso refletir sobre dados e fatos, que se construirão ao longo dos próximos anos. Há que se aguardar. Os fatos dirão.

 

Para saber mais sobre o assunto:

 

 Texto de Roberta Lombardi Martins, Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, Mestre em Língua Portuguesa, Especialista em Filosofia da Educação, Bacharel e Licenciada em Língua Portuguesa, com percurso de formação desenvolvido na PUC-SP. Designer de cursos a distância, consultora pedagógica e professora em projetos de educação a distância, ensino-aprendizagem de escrita acadêmica e formação de professores.

Crédito da imagem da capa: Shutterstock/Tatyana Vyc

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