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Existe saída para a crise no casamento?

(Texto de Ana Paula Macchia)

A vida após as tempestades da adolescência não é uma calmaria. O período que vai dos 18 aos 50 anos é o centro da vida, a fase das grandes oportunidades e da máxima capacidade, mas se engana quem pensa que esse período não é turbulento. Esse período não é fácil: tal como na infância, viver nessa fase envolve não apenas novas tarefas do desenvolvimento, mas exige que sejam abandonadas as estratégias que funcionaram anteriormente. Cada passagem significa renunciar a uma ilusão de segurança e a um sentido muito confortável de identidade. A vida adulta se caracteriza por um período em que importantes mudanças se operam a caminho de um crescimento e isso muitas vezes se dará por meio de crises.

As crises são inevitáveis na vida adulta, mas nós fazemos de tudo para fugir delas. Em vez de nos arriscarmos na tarefa de assimilar nossas deficiências ou os nossos fantasmas, procuramos negá-los ou afugentá-los, invariavelmente lançando mão de recursos que deram certo no passado, mas que se esgotam. E é por meio desse esgotamento que nos damos conta de que uma crise está acontecendo.

Muita gente pensa que o que deflagra uma crise na vida adulta é algum tipo de evento balizador, algo como uma grande perda, o luto, algum acidente ou catástrofe. Sim, de fato esses eventos balizadores promovem intensas mudanças internas e deflagram crises, porém, para a grande maioria de nós, as crises se desencadeiam de maneira silenciosa. A questão é que sempre haverá dentro das pessoas um impulso fundamental para a mudança que deflagrará as crises e, muito embora elas sejam inevitáveis na vida adulta, talvez a mais marcante delas seja a crise no casamento.

Talvez, grande parte das pessoas pense que a crise no casamento seja a mais prevalente na vida adulta, mas não é bem assim. A causa disso é que se torna muito mais fácil encontrar as influências externas de nossas crises do que as internas. É mais fácil culpar o casamento, os filhos, o parceiro ou a parceira e seus hábitos, do que olhar para dentro de si e reconhecer o que está em desequilíbrio. Nem sempre a crise no casamento se refere ao relacionamento, mas sim ao fato de que a pessoa não reconhece suas próprias mudanças e desequilíbrios e diante de um profundo sentimento de vulnerabilidade, tente encontrar em razões externas a causa e a solução para esse desconforto. Uma boa dose de autoconhecimento é necessária para a percepção do que realmente está acontecendo e encaminhar para o crescimento e a resolução da crise, seja ela pessoal ou conjugal.

Se pessoas sofrem com um descompasso entre o que são de fato e o que imaginam ser, imagine isso em relação ao outro? Imagine isso em relação às expectativas que se constroem em relação ao outro? Após sete, oito, dez, vinte anos de casamento, você não é mais a mesma pessoa, você mudou, seus desejos e percepção de vida modificaram, seus valores são diferentes, pois você não tem mais a mesma idade, embora continue com os mesmos aspectos de personalidade. Com certeza, aconteceu o mesmo com seu parceiro ou parceira. Internamente, um processo contínuo e silencioso de mudanças foi acontecendo, e para cada um de um jeito e em seu ritmo próprio.  Porém, algumas pessoas tendem a perceber e esperar do casamento aquilo que projetavam e desejavam com base num contrato e em expectativas que tinham quando se casaram. Outras sentem muita dificuldade em aceitar o crescimento e o amadurecimento do parceiro ou parceira, enquanto outras não suportam ver que o parceiro ou parceira está imaturo. Nesse sentido, pouco importa qual foi o estopim da crise, seja ele o cartão de crédito que estourou, o sexo que não acontece mais ou a falta de diálogo. O fato é: existe um grande descompasso que mexeu com a unidade do casal.

A crise é uma grande oportunidade de ajustar esse descompasso, pois ela favorece a criação de novas percepções e de recursos e, consequentemente, favorece o crescimento. Nem toda crise é um momento de risco, embora culturalmente seja transmitida a ideia de sinônimo de um fracasso pessoal, de uma debilidade da pessoa em suportar eventos da vida. A maioria das pessoas tende a sair fortalecida das crises, mas existe uma parcela cuja evolução de uma crise pode ser prejudicial. Essas pessoas costumam não se recuperar de uma crise e, ao contrário do que se espera, regridem emocionalmente.

Se a vida adulta promove de tempos em tempos essa turbulência interna, por que será que identificamos a crise no casamento como uma das mais impactantes? A resposta é simples: porque a crise no casamento atinge os principais papéis que se exercem na vida adulta, que são o papel de esposo ou esposa e os papéis de pai e de mãe. Quando se estabelece uma crise no casamento, se estabelece uma crise nesses papéis também. Esses papéis são reconhecidos não na família, mas socialmente. Muitos dirão que não se importam com a opinião alheia, mas os adultos se incomodam bastante pelo fato de as pessoas reconhecerem falhas em seus papéis.

Outra razão é que a crise no casamento ameaça a segurança e a estabilidade para a sobrevivência, seja ela bem ou mal construída, ou seja, seja em boas ou más condições financeiras, a crise no casamento sempre terá um sentido ameaçador e de reorganização.

Por fim, a presença de filhos significa talvez o maior motivo das crises no casamento serem impactantes e de longa e difícil resolução.

Crédito: Maga/Shutterstock

É profundamente injusto com os filhos, sejam crianças, adolescentes, jovens ou até adultos, incluí-los na crise, que pertence ao casal. Não se trata de excluí-los, mas sim de fornecer-lhes a referência de que a crise pertence ao casamento. A família sempre será afetada com a crise, mas não pode de modo algum perder o seu papel. Talvez seja reajustada, reorganizada, desmembrada ou ampliada, mas deve permanecer com um sentido de unidade que dará a essas pessoas um sentimento de pertencimento e de segurança. É importante lembrar-se de manter um ambiente de acolhimento, pois, assim como o casal, os filhos passarão por uma fase de confusão e de luto.

Para que isso ocorra, os adultos devem constantemente fazer um exercício de autoconhecimento para evitar as seguintes  tentações: a tentação de culpar os filhos pela crise;  a tentação de tentar, a toda prova, salvar os papéis de esposa ou esposo para as crianças e dessa forma atingirem a família; e a tentação de atingir o parceiro ou a parceira por meio dos filhos, utilizando-os nos conflitos como barreira ou como ataque.

Diante de feridas importantes causadas pelo outro ou de deficiências talvez insuportáveis referentes a valores, evitar algumas dessas tentações pode ser um árduo trabalho. O que dizer se você reconhece que errou na relação do casamento? Essa tarefa se torna mais difícil ainda.

Um ponto de partida é estabelecer um diálogo sincero com os filhos, onde se cria uma atmosfera propícia para esclarecer medos e dúvidas. Mostrar-se aberto para responder ao que eles querem saber, mas não transformar isso num confessionário ou numa lamentação. Apenas os acolher e os confortar.

Mesmo percebendo que o parceiro ou parceira está fraco e vulnerável, promover um sentido de segurança na família e de proteção. Talvez os filhos sintam-se inseguros em não poder contar com o adulto mais vulnerável, ou desenvolvam por ele um sentido de proteção; nesse momento, é importante que o outro lado não se sinta sobrecarregado. É importante que o lado mais forte e equilibrado continue reafirmando o sentimento de pertencimento e de família.

Não falar mal, não denegrir, não menosprezar o outro, pois isso gera um profundo incômodo nos filhos e promovem conflitos internos. Em vez de falar do outro, falar de si mesmo. Falar do quanto podem confiar e do quanto se é verdadeiro, e aproveitar para reafirmar segurança e amor.

Tentar comprar os filhos com presentes e prazeres trará um benefício momentâneo, pois os filhos procuram a segurança, e não o conforto. Os filhos procuram a parceria e a presença dos pais.

Por fim, na medida em que se desenvolve um autoconhecimento, amadurecimento e aprendizado com as crises, admitir e transmitir com sinceridade esse processo aos filhos talvez os façam crescer com segurança e confiança, sabendo que desequilíbrios ocorrem e são necessários ao processo de desenvolvimento.

A solução da crise no casamento só se dará mediante um processo profundo de autoconhecimento, de paciência e tolerância em relação às mudanças do outro e de ajustes das expectativas em relação à vida conjugal.

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