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Ex-amores: quando um persegue o outro nas redes sociais

(Texto de Rosangela Guerra)

Ex-amores: quando um persegue o outro nas redes sociais

 “Faço você desbloquear para sempre o perfil da pessoa amada no Facebook”, está escrito num lambe-lambe colado em um poste. Com humor e crítica, a mensagem vai direto ao ponto: tem muita gente seguindo os passos de ex-amores nas redes sociais, verificando tudo o que é postado por ele ou ela. E isso tem nome – stalk –, palavra inglesa que significa perseguir. Nas conversas, conjuga-se o verbo nas mais diferentes pessoas: “ela stalkeia”, “nós stalkeamos”, “eles stalkeiam”. E um detalhe: tanto jovens como maduros podem cair nessa perseguição.

Mas quem confessa? Nem todos. Advogada, 28 anos, entrega: “Sei onde ele vai, com quem sai, se está bem ou não. Passo pelo Facebook,  Whatsapp, Tinder,  Instagram, Snapchat, Twitter e, nessas,  às vezes atravesso a madrugada”. No dia seguinte, a moça decide acabar com isso, mas depois muda de ideia.  À noite lá está ela de frente para a tela.

Fábio (nome fictício), engenheiro, 37 anos, conta que o seu relacionamento com a ex-namorada virou uma história sem fim. Um vigia o outro há quase dois anos. “É uma espécie de jogo só nosso. Ela faz posts com coisas que têm a ver com o que vivemos, como a foto de um lugar ou o link de uma música que curtimos”. Essa sedução acaba quase sempre em mensagens de Whatsapp com tudo junto e misturado:  amor, ciúme, mágoas e acusações mútuas. “Ah, é uma canseira”, lamenta o engenheiro.

Há aqueles que já não aguentam mais. A aposentada Manuela (nome fictício), 63 anos, revela que vive numa gangorra entre bloquear e desbloquear o ex nas redes sociais. Agora, resolveu que chegou a hora de parar. Como está sem condições de pagar uma terapia, não perde a sessão de passe no centro espírita. “Peço força e luz para vencer essa dependência”, diz.

No jornal Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking têm sido publicados artigos sobre o fim dos relacionamentos na era digital. Um deles, assinado pelos pesquisadores Jesse Fox e Robert Tokunaga, trata da vigilância on-line de ex-parceiros. Os autores concluem que o stalk pode prolongar e até mesmo aumentar a angústia após a separação.

Pode viciar

Para Rossana Nicoliello Pinho, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais, o stalk é uma forma de controle para sustentar a fantasia da eternização da relação afetiva.  Ao criar a ilusão de que um ainda faz parte da vida do outro, o stalk nega o término do relacionamento. No entanto, a perda implica em um luto que deve ser elaborado e vivenciado. A psicanalista explica que, quando a pessoa suspende o controle, entra em contato com a perda e com o vazio. Para aliviar a dor psíquica, ela retorna ao stalk. “Isso é uma evidência de que a relação anterior já era baseada na dependência, numa espécie de vínculo construído na indiferenciação eu-outro. Nesse caso, perder o outro tem o significado de perder a si mesmo”, diz Rossana.

Quando o stalk deixa de ser uma simples curiosidade, tornando-se muito frequente, pode evoluir para um quadro de compulsão ou vício, segundo Rossana. Assim como ocorre com os toxicodependentes, a necessidade de repetir o ato torna-se incontrolável. A privação da repetição pode levar a uma alteração do humor, do sono, da libido e da capacidade de pensar. Nesses casos, é recomendável buscar uma psicoterapia, podendo haver necessidade de usar medicamentos, dependendo da gravidade do caso.

Em tempos virtuais

Com tantos espaços virtuais de exposição da vida privada, fica difícil resistir à perseguição. Por isso, terminar um relacionamento hoje implica em conseguir cortar os vínculos também no  Face, Tinder, Instagram,  grupos de Whatsapp etc. A tecnologia tem buscado uma solução para isso. Já foram desenvolvidos aplicativos para evitar as recaídas no stalk.  Com o “Ex Lover Blocker”, por exemplo, é possível bloquear o ex- amor e marcar cinco amigos que são acionados para dar apoio quando a tentação aparece.  Já oKillswitch” se propõe a retirar do Facebook  as fotos, os vídeos e as postagens que tenham a ver com o ex.

Quando a ideia é mesmo colocar um ponto final numa história de amor, até os dizeres de um simples lambe-lambe podem ajudar. Um deles cuja imagem está na internet traz uma mensagem radical: “Não trago seu amor de volta nunca mais. Chega. Desapega!”

Crédito da foto Pinterest/José Simão

Rosangela Guerra é jornalista, graduada pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (São Paulo, SP). Cria e desenvolve projetos editoriais voltados para professores da educação básica, alunos e suas famílias. Para entrar em contato envie um e-mail para rosangelaguerra@gmail.com.

Crédito da foto da autora: Auremar de Castro.

Crédito da foto de capa: ImYanis/Shutterstock

11 Comentários

  1. Lorraine Cibelle

    Otimo texto que retrata com maestria uma das grandes mazelas do século XXI que é a dependência emocional aliada a dependência tecnológica. É estarrecedor saber o quanto existem pessoas tão apegadas as outras que ficam insanamente vigiando redes sociais como se isso fosse o suficiente para que o vínculo afetivo que as unia esteja presente. Muito pertinente e serve de alerta para todos nós.

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    1. Rosangela Guerra

      Lorraine,
      Você fez um link muito interessante: a dependência tecnológica e a emocional.
      Muito obrigada pela leitura.
      Um beijo,
      Rosangela Guerra

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  2. Valquiria Araujo Andrade

    Texto gostoso de ler! Tão real nestes dias, que fui lendo e lembrando das pessoas que conheço e atendo que trazem seu celular e mostra o ex em tantas situações que cabe fazer interpretações inesperadas, acham esperanças onde nada mais existe. Um verdadeiro alerta para não perdermos de nós mesmos e de nossos vazios e limites. Amar é uma via de mão dupla para garantir um futuro real e satisfatório. Melhor não esquecermos disto!

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  3. Endy

    Delícia de texto! A cara dos dias atuais. Tem também o “stalkear” de curiosidade mesmo!A famosa espiadinha. Que atire a primeira pedra quem nunca quis saber o que anda fazendo a ex do seu atual ou a atual do seu ex. Coisas da vida moderna, onde somos todos constantemente vigiados.

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  4. Rosangela Guerra

    Valquíria,

    Seu comentário reforça tudo o que ouvi dos entrevistados para fazer esta matéria.
    Interessante saber que você atende pessoas que também estão conectadas na vida do ex.
    Um beijo para vc,
    Rosangela Guerra

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  5. Eustáquio Trindade Neto

    Oportuníssimo. E que texto saboroso!

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    1. Rosangela Guerra

      Mestre Eustáquio,
      Muito obrigada pelas palavras generosas.
      um abraço,
      Rosangela Guerra

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  6. Manoel Botelho

    Sensacional, Rosângela, é o pensar e o reportar. Demonstram capacidade de se emocionar, amar.
    Sua reportagem é limpa, inteligente, tema difícil de se abordar. Fiquei com água na boca de tanto prazer – durante a leitura. Espetacular! Muito criativa, diferente, um português de arrasar, e de grandiosidade beleza, gostoso de saborear. Um escrito que não pode parar. Venha sempre com reportagens assim. Faz a gente viver, gostar da vida, e sorrir a saber que o jornalismo tem que prosseguir – apesar dos pesares, deste mundo louco, doidão, de hoje. Um abraço – escreva sempre!

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  7. Rosangela Guerra

    Manoel Botelho,

    Sim, o jornalismo tem que prosseguir, se recriando, se reinventando sempre. O nosso admirável mundo doidão está cheio de boas pautas. Temos que capturá-las.

    Fiquei feliz demais com seu comentário cheio de boas palavras.
    Um grande abraço para vc,
    Rosangela Guerra

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  8. Rafaela

    Pensando bem, nem sou tão stalker assim. Se o fim do relacionamento foi tumultuado e sei que não terei inteligência emocional suficiente, bloqueio ou excluo. E tenho forças para manter assim até a ferida passar. Prefiro evitar os desgraçamentos da cabeça.

    Uso (muito) a arte do stalk para fins mais leves: já procurei nas redes sociais antigos colegas de escola para ver como estão – sem qualquer necessidade de adicioná-los. Quando não os acho, jogo o nome no Google para tentar descobri-los em alguma lista de aprovados de vestibular ou no Linkedin – trabalham com quê? Procuro novos colegas de trabalho para ver o que esperar deles, ex-crushes para ver o quão feios ficaram, potenciais crushes meus ou de amigos para avaliar se vale a pena a investida etc. Essa prática, inclusive, já me ajudou a evitar cair em ciladas amorosas.

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  9. Rosangela Guerra

    Olá Rafaela,

    Que bom que vc não é “tão stalker assim”, como as pessoas entrevistadas que têm a compulsão de vigiar o ex pelas redes sociais. Pelo contrário, você sabe (e consegue) colocar um ponto final num relacionamento.

    Sem dúvida, as buscas nas redes sociais podem ser muito úteis para nos aproximar ou afastar de pessoas.

    Obrigada pela leitura e um beijo para vc,

    Rosangela Guerra

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