Estado Islâmico: as faces da barbárie

(Texto de Gabrielle Cifelli)

No século XXI, o combate ao terrorismo tornou-se um dos principais desafios enfrentados pelos governos, para evitar a proliferação de atentados ameaçadores da paz mundial. Esses atentados vitimam civis, destroem propriedades públicas e privadas e geram prejuízos socioeconômicos para a população. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, cometidos pela Al-Qaeda, nos Estados Unidos, observam-se o surgimento e o fortalecimento de grupos que usam preceitos religiosos do Islamismo como justificativa para planejar e executar essas ações terroristas que vêm se intensificando nos últimos anos, trazendo medo e insegurança em nível mundial.

De acordo com o coordenador do grupo de estudos e pesquisa sobre conflitos internacionais, Sergio Luiz Aguilar1, “o terrorismo pode ser entendido como um método ou lógica de ação praticada por um indivíduo ou grupo que usa da violência (ou ameaça usá-la) para causar a morte ou infligir danos”. Para atingir esse fim, os grupos terroristas buscam afetar, principalmente, a população civil e alcançar maior expressividade midiática para divulgar seus propósitos, ameaçando, de forma latente, os Estados nacionais por meio do uso da força, da violência e de estratégias de coação e intimidação.

Atualmente, o Estado Islâmico (EI) é considerado pela ONU o grupo terrorista que mais está em evidência por causa das atrocidades cometidas por seus integrantes em diversos países, como sequestros, decapitações de supostos opositores, enterro de crianças vivas, ataques de homens-bomba, venda de crianças como escravas sexuais, estupros, destruição de construções de relevância histórica-artística mundial, saques e contrabando de obras de arte, destruição de parte dos territórios ocupados pelo grupo, entre outras estratégias que lhes asseguram notoriedade e demonstração de poder diante dos Estados e dos demais grupos terroristas. Outro aspecto que chama a atenção é a grande adesão e o aliciamento de jovens, denominados jihadistas, muitos deles residentes nos países europeus, principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos.

Sites da internet e redes sociais são as principais ferramentas usadas pelo Estado Islâmico para difundir seus propósitos, suas ações e para captar novos integrantes. Por meio da divulgação, na íntegra, de imagens e vídeos que exibem as decapitações e os assassinatos cometidos pelo grupo, a espetacularização da tragédia serve como meio de difusão do medo e do temor, por toda a comunidade internacional, que assiste ao fortalecimento do grupo, enquanto ainda se buscam estratégias mais eficientes para combater a organização. Segundo Sergio Aguilar, a violência brutal cometida pelo Estado Islâmico se justifica, de acordo com os preceitos do grupo, pela busca da constituição de um califado regido por valores próprios e pelas leis islâmicas, com o objetivo de combater os problemas políticos e sociais característicos da região em que atua e de proteger a sociedade islâmica dos valores ocidentais. Nesse sentido, o Estado Islâmico defende a submissão do Estado à religião, fundamentada na aplicação da Sharia (lei divina), que contém princípios do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, às instituições estatais e à sociedade.

A aplicação desses princípios se efetiva nos territórios conquistados pelo Estado Islâmico, que correspondem atualmente a parte da Síria e do Iraque. Segundo dados do Centro Nacional de Contra-terrorismo da CIA, divulgados pelo jornal Washington Post2, tal abrangência territorial equivale ao tamanho do território da Grã-Bretanha, incluindo áreas habitadas e desabitadas. A capital eleita pelo EI se situa na cidade de Raqqa, na Síria, e abrange ainda o território de importantes cidades do Iraque, como Mossul, com mais de 1.8 milhões de habitantes.

O professor Marcos Peckel3, da Universidad Externado da Colômbia, estima que esteja sob domínio do Estado Islâmico uma população de aproximadamente 8 milhões de pessoas.

A ocupação territorial dos dois países ocorreu em razão da crise política existente há alguns anos. De acordo com o jornalista Luis Leiria4, apesar de a organização ter surgido em 1999, na Jordânia, com o nome de Jama’at al-Tawhid wal-Jihad (Grupo de Monoteísmo e Jihad), foi no Iraque que se fortaleceu ao combater as tropas dos Estados Unidos e seus aliados. Em 2004, uniu-se a outras organizações insurgentes, como a Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, para combater e expulsar as tropas estrangeiras e desestruturar o governo para conquistar territórios com importantes fontes de matéria-prima. Em 2006, passou a denominar-se Estado Islâmico do Iraque e, ao se envolver na guerra civil síria, iniciada em 2011, contra a permanência no poder do ditador Bashar Al Assad, começou a atuar nos dois países.

A conquista de importantes territórios no Iraque e na Síria, favorecida pela instabilidade política na região, levou a organização a unificar suas forças, em 2014, para criar um califado, considerado uma espécie de império muçulmano regido pela Sharia. Desde então, o grupo passou a se autoproclamar Estado Islâmico, tornando-se um dos grupos terroristas mais poderosos e temidos do planeta, disputando poder até mesmo com a própria Al-Qaeda, que passou de aliada à rival do grupo. Com o domínio territorial significativo, as fontes de financiamento do grupo aumentaram e se diversificaram. De acordo com informações divulgadas na Revista Carta Capital5, as divisas obtidas com o petróleo são a principal fonte de renda do Estado Islâmico, já que parte dos territórios constitui área petrolífera de destaque. Além do petróleo, outras fontes de arrecadação do grupo provêm do tráfico de pessoas e de órgãos, do pagamento de resgates em troca da libertação de reféns, do contrabando de produtos diversos, incluindo antiguidades e obras de arte, de doações de simpatizantes e dos impostos e taxas cobrados da população que vive sob seu domínio. Parte desse montante é usada para financiar jihadistas que residem não apenas no califado, mas também em outros países, onde aguardam ordens para executar ações terroristas.

As sanções promovidas pelo Estado Islâmico englobam a proibição de: músicas, bebida alcoólica, cigarros, circulação de meninas e mulheres nas ruas e de consumo de enlatados, conforme demonstra Birgit Svensson6. As punições para os que desrespeitam tais normas são severas e podem custar a vida.

As atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque têm provocado o deslocamento de milhões de refugiados, que partem das áreas de conflito rumo a países vizinhos e à Europa, para fugir do terror e da opressão e em busca de sobrevivência em condições sociais mais dignas. Essa verdadeira crise humanitária atinge os territórios conquistados pelo Estado Islâmico diretamente, e também os países europeus, com a chegada incontrolável de imigrantes e com o temor de novos ataques terroristas ao continente promovidos pelo grupo, em proporções semelhantes ou até mais intensas que as dos atentados de 2015, em Paris.

 Bombardeio em cidade, próximo à fronteira com a Síria, onde vivem milhares de refugiados. Outubro de 2014. Crédito: Voice of America News/Wikimedia Commons.

O temor de novos atentados tem resultado na organização de uma coalizão por parte de governos de diversos países, para impedir o fortalecimento e a expansão do califado. O sociólogo Immanuel Wallerstein7 afirma que essa ameaça resulta em uma aliança geopolítica em prol de um objetivo em comum, mas envolve países que não costumam ter uma relação diplomática entre si, como Estados Unidos, Israel, Irã, Turquia, o governo sírio de Bashar Al-Assad, Rússia e alguns países europeus (Grã-Bretanha, França e Alemanha, por exemplo). As estratégias abrangem ataques aéreos e por terra aos territórios conquistados, atingindo, principalmente, as áreas de extração de petróleo, para abater fonte de financiamento do grupo. O professor Bernardo Wahl, especialista em segurança internacional, concedeu uma entrevista, publicada na Revista Exame on-line8, na qual afirma que tais estratégias não combatem o potencial de recrutamento dos jihadistas, que, a qualquer momento, podem executar um atentado terrorista de grandes proporções. Para ele, o conflito ainda pode durar anos.

Enquanto isso, a imprensa internacional continua exibindo as atrocidades cometidas pelo Estado islâmico e, com perplexidade, assiste-se ao aumento dos atentados terroristas de autoria do grupo. Em 2015, ocorreram na França, no Líbano, no Egito, na Tunisia, no Kuwait e nos Estados Unidos. Em 2016, o grupo já promoveu atentados na Turquia e na Indonésia, gerando um clima de incerteza, insegurança e temor, diante da possibilidade de novos ataques, que podem ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar do mundo.

Notas:

[1]  AGUILAR, Sergio Luiz Cruz. O Estado Islâmico: insurgente, mas não terrorista. Unespciência, nov. 2014. Disponível em:  <http://www.unesp.br/aci_ses/revista_unespciencia/acervo/58/ponto-critico>.

[2] NOACK, Rick. Here’s how the Islamic State compares with real states. Washington Post, 12 set. 2014. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2014/09/12/heres-how-the-islamic-state-compares-to-real-states/>.

[3] PECKEL, Marcos. La ideologia Del Islam Radical. Bogotá: UNPeriódico, 8 ago. 2015. Disponível em: <http://www.unperiodico.unal.edu.co/dper/article/la-ideologia-del-islam-radical.html>.

[4] LEIRIA, Luis. Perguntas e respostas sobre o Estado Islâmico. Esquerda.net, 28 set. 2014. Disponível em: <http://www.esquerda.net/dossier/perguntas-e-respostas-sobre-o-estado-islamico/34272>.

[5] De onde vem o dinheiro do Estado Islâmico. Carta Capital, 6 mar. 2015. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/internacional/de-onde-vem-o-dinheiro-do-estado-islamico-7231.html>.

[6] SVENSSON, Birgit. A vida sob o domínio do “Estado Islâmico”. Carta Capital, 12 fev. 2015. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-vida-sob-dominio-do-201cestado-islamico201d-6826.html>.

[7] WALLERSTEIN, Immanuel. O califado contra o resto do mundo. Esquerda.net, 19 set. 2014. Disponível em: <http://www.esquerda.net/opiniao/o-califado-contra-o-resto-do-mundo/34156>.

[8] BAZZO, Gabriela. Afinal, por que é tão difícil combater o Estado Islâmico? Exame.com, 7 jan. 2016. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/afinal-por-que-e-tao-dificil-combater-o-estado-islamico>.

(Datas de acesso: 8 fev. 2016).

Crédito da foto principal: Picture distributed by the Islamic State.

Gabrielle Cifelli é graduada em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Rio Claro; mestre e doutora em Geografia pela Unicamp. Docente da Fatec – Barueri e Itu –, na qual atua nas áreas de Geografia e Geopolítica. É também pesquisadora nas áreas de Geografia e patrimônio cultural.

 

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