Era uma vez nosso apartamento

(Texto de Rosangela Guerra)

Na porta de entrada tinha um número e uma letra: 3B.  Por isso, passamos a chamar de “3B” o apartamento onde minha família morou por anos e anos. Era como se ele fosse um personagem a mais entre os que ali viviam. Situado no terceiro andar de um prédio com ares modernistas, o 3B viu a nossa infância, adolescência e idade adulta.

O apartamento abrigava um casal com seus cinco filhos. O pai, alto e magro, vestia um robe de seda vinho no início da noite. Às vezes, acendia um cachimbo e lia livros de capa dura. A mãe sabia como ninguém equilibrar a delicadeza e a força para enfrentar os desafios da vida. Nos tempos sombrios da ditadura militar no país, o casal costumava dar apoio aos familiares e amigos considerados “subversivos”.

Havia pouca diferença de idade entre os filhos, cada um deles com seus sonhos e sua maneira de ver o mundo. Juntamente com os colegas de escola, eles estudavam numa mesa grande de madeira nobre que atravessou o tempo sem nunca ter bambeado as pernas. Sim, o 3B acolhia todos: os amigos da família, da escola e do mundo. Recebia as primas que vinham do interior para comprar vestidos de formatura ou de noiva, os que precisavam se tratar com médicos da capital e as pessoas que gostavam daquela família que amava livros e discos.

Durante muitos anos, o 3B teve o ritmo da juventude. Estudantes movimentavam o ambiente com casos engraçados, discussões intermináveis e músicas que não paravam de tocar. Vez ou outra a autoridade dos pais falava alto: “Abaixem esse som”, “apaguem a luz”, “desliguem isso e aquilo”, “parem”…

Um dia, tudo parou mesmo. Num domingo de novembro, o pai não voltou do sítio, como de costume. Um acidente na estrada cortou bruscamente a sua vida e por alguns meses o silêncio reinou no 3B.  Até que, numa tarde, o som de berimbau ecoou por todos os cômodos. Eram os acordes iniciais de “Triste Bahia”, música de Caetano Veloso, que alguém colocou para tocar. Foi assim que o luto acabou naquele apartamento cheio de vida.

No entanto, aos poucos, tudo foi mudando. Os filhos seguiram sua trajetória profissional e pessoal, algumas longe dali. No apartamento, antes sempre cheio, agora sobravam camas e lugares na mesa. O nascimento dos netos, porém, mostrou que muita coisa ainda estava por vir. Com graça e alegria, eles passaram a ocupar todos os espaços. Brinquedos ficavam espalhados no tapete da sala. Fantasias de Superman, Homem aranha e Mulher Maravilha entravam e saiam da máquina de lavar para que ninguém perdesse poderes extraordinários. “Não incomodem o vizinho”, era o que se pedia às meninas que circulavam de salto alto num toque toque pra lá e pra cá, imitando a avó.

Foram eles, os netos, que motivaram o grande evento do ano realizado no 3B: o Natal, sempre por volta do dia 20 de dezembro. Por que essa data? Decisões de ordem prática da dona da casa. Com isso, no dia 25, todo mundo teria liberdade para ir aonde quisesse. Bem antes do dia 20, a sala era desmontada para que a imensa árvore de Natal enchesse os olhos de todos. Anjinhos e pequenas pombas brancas se equilibravam em galhos secos, junto a tiras fininhas de papel celofane que brilhavam à luz de velas. Eram esses os arranjos. Tudo simples, mas de grande efeito. Nessa noite, a porta do 3B ficava aberta e iam chegando os convidados e também o amigo do amigo do amigo. Eram todos bem-vindos.

Ah, o tempo! Os movimentos da vida mudam tudo, como o vento na areia. Aos 84 anos, a mãe foi descansar para sempre. Depois disso, a luz do 3B se apagou de vez.  Foram-se os sons e o movimento, mas ficaram as histórias de todos que lá viveram. Um dia, a imobiliária colocou na janela a faixa “Vende-se”.  Os interessados vieram, até que um deles quis o apartamento.

Quando o contrato de compra e venda chegou às minhas mãos, eu o assinei sem sentir nenhum apego, juro. Afinal, era a hora de colocar um ponto final. Em seguida, percorri os cômodos grandes e silenciosos, ouvindo apenas o barulho dos meus passos.  Antes de descer as escadas, deslizei os dedos sobre o número e a letra na porta de entrada: 3B. Lá embaixo, apanhei uma pequena flor no jardim.

Rosangela Guerra é jornalista, graduada pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (São Paulo, SP). Cria e desenvolve projetos editoriais voltados para professores da educação básica, alunos e suas famílias. Para entrar em contato envie um e-mail para rosangelaguerra@gmail.com.

Crédito da foto da autora: Auremar de Castro.  

Crédito da foto de capa: Lolostock/Shutterstock

28 Comentários

  1. Fátima Souza Paula

    Lindo conto Rosangela, com gosto de quero mais! Fui lendo e vivendo tudo que vc ia narrando, realmente deixa saudade, quando existe amor, quando a alegria reina, isso fica impregnado na gente e não tem como esquecer. Feliz quem sabe colocar no papel aquilo que viveu de uma forma tão gostosa como vc o faz, parabéns!

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    1. Rosangela Guerra

      Olá, Fátima,
      Muito obrigada pelo comentário. Fiquei feliz!
      um beijo para vc,
      Rosangela

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  2. Manoel Botelho

    Uma bela e bem escrita crônica – estilo elegante e fugindo do lugar comum. Algo que cheira novidade, interessante. Se quiser, a estrada está livre para grandes romances. É só escrever, ir em frente. Estamos precisando de coisas diferentes que sejam inteligentes. Avante Rosangela Guerra!

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    1. Rosangela Guerra

      Caro Manoel,
      Muito obrigada pelo incentivo para seguir em frente.
      Seu comentário me deixou muito feliz!
      Um abraço para vc,
      Rosangela

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  3. Ricardo

    3B – o apartamento que nunca conheci, mas sabia onde ficava. E conheci duas moradoras, uma das quais era você. A outra, sua irmã, colega minha de faculdade, de direção do Centro de Estudos… lindas, as duas!
    Belíssimas palavras, Rosângela. Fiquei emocionado, de verdade!
    Ricardo

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    1. Rosangela Guerra

      Olá Ricardo,
      Agradeço seu comentário generoso e que me traz boas lembranças do tempo em que vc e minha irmã estudavam História na UFMG.
      Mesmo a distância acompanho o seu sucesso como autor de livros.
      Um beijo para vc,
      Rosangela

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  4. Selma Fonseca Guerra

    O 3B da Ramalhete…quanta saudade!!!

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    1. Rosangela Guerra

      Selma,
      Ficam as nossas boas lembranças.
      Um beijo para vc,
      Rosangela

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  5. Luis Roberto

    obrigado por seu presente de tanta sensibilidad e realidade de vida

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    1. Rosangela Guerra

      Olá Luis Roberto,
      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário que vc deixou aqui.
      É sempre bom saber como o leitor percebe o nosso texto.
      Um abraço para vc,
      Rosangela

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  6. Sheila Janaína Mendes

    Delícia de ler!! Impossível não apaixonar pelos textos da querida e saudosa professora Rosângela Guerra. Suas palavras trazem delicadeza e conforto para nossa alma quando o assunto é saudade de um ciclo da vida que se foi abrindo espaço para novos tempos. Lembrei da minha infância, minha casa. Passou um filme na minha mente enquanto lia.
    Te adoro, Beijos!
    Sheila Mendes

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    1. Rosangela Guerra

      Querida Sheila,minha ex-aluna e hoje colega,

      Feliz demais com suas boas palavras. Gracias mil!
      Bj para vc e para a sua filhotinha Luisa que adora livros.
      Rosangela

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  7. Roberta Anffe

    Nessa crônica, a escritora Rosângela conseguiu de forma surpreendente e profunda deslocar o leitor para o tempo/espaço e, sobretudo, para os dilemas do cotidiano no apartamento 3B.
    Texto poético, sensível e incrível!

    Roberta Anffe

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    1. Rosangela Guerra

      Cara Roberta,

      Seu comentário me anima e me incentiva a escrever mais.
      Muito obrigada!!!
      Um grande abraço para vc,
      Rosangela

      Responder
  8. celia maria del caro paiva zenha oppa

    Quanta “docilidade” !!!!

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    1. Rosangela Guerra

      Célia,
      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário. Pensar nos diversos ciclos da vida muda muito a maneira de a gente ver as coisas.
      Um grande abraço para vc,
      Rosangela

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  9. Flavia

    Ah, minha querida professora! Que texto mais lindo e carinhoso! Lágrimas foram derramadas, confesso.

    Beijos!

    Responder
    1. Rosangela Guerra

      Ah!, minha ex- aluna querida e hoje colega,
      Seu post é pura sensibilidade. Muito obrigada.
      Um beijo e saudade das nossas aulas.
      Rosangela

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  10. Rafaela

    Ah, mas a Rua Ramalhete nunca mais será a mesma..

    Responder
  11. José Américo

    Rosângela: você não chorou no final, mas eu fiquei com lágrimas nos olhos aqui – lendo o seu texto. Belíssimo! José Américo.

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    1. Rosangela Guerra

      Oi, José Américo,
      Chorei sim…. escondido dos leitores.
      Muito obrigada pela leitura e por deixado aqui seu comentário.
      Um abraço para vc,
      Rosangela

      Responder
  12. Cibele Silva

    texto lindo, leve e elegante. como a autora. me vi no 3B lendo seus escritos, Rosangela. que saudade de um lugar que eu não conheci, mas posso perfeitamente imaginar.

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    1. Rosangela Guerra

      Olá Cibele,
      Muito obrigada pelas palavras gostosas de ouvir.
      Um beijo para vc,
      Rosangela

      Responder
  13. Rosangela Guerra

    Rafaela,
    Sim, o 3B ficava na famosa rua Ramalhete, em Belo Horizonte. A rua é tema da música do Tavito: “Sem querer fui me lembrar de uma rua e seus ramalhetes…”.
    Nos anos 60, 70, ali era ponto de encontro de muitos jovens que cantavam e tocavam violão.
    Um beijo para vc,
    Rosangela

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  14. Nilvania Moretto

    A tempos não lia um conto que me encantasse. Viajei no 3B tb.

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    1. Rosangela Guerra

      Nilvania,
      Que delícia ler seu comentário!
      Vc me deixou muito feliz.
      Um beijo meu.
      Rosangela

      Responder
  15. Regina Melo

    Uma cronica cinematográfica que transborda memória afetiva e história familiar com leveza. Agradeço a autora por compartilhar seu cotidiano com maestria e leveza. Quero mais textos de Rosângela Guerra!

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  16. Rosangela Guerra

    Regina,
    Eu é que agradeço a sua leitura e o comentário tão generoso.
    um grande abraço para vc,
    Rosangela

    Responder

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