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A era dos algoritmos – A Quarta Revolução Industrial

(Texto de Samir Thomaz)

Plataformas fistal, computação cognitiva, sistemas ciberfísicos, ecossistemas de inovação, economia compartilhada. Você pode ainda não ter se dado conta, mas esses conceitos já fazem parte do seu dia a dia.

 

Em janeiro de 2016, o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, por meio de seu diretor executivo, o economista alemão Klaus Schwab, deu a senha para a consolidação daquilo que muitos estudiosos já dão como uma realidade concreta: a Quarta Revolução Industrial, ou Revolução 4.0. Com a legitimidade de fundador do evento multilateral onde desde 1971 coletam-se dados econômicos e se discutem as principais ideias que afetam os rumos do planeta, Schwab afirmou, a respeito das mudanças de paradigma que já estão em curso nas principais economias do mundo: “As mudanças são tão profundas, que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo”.

Mas que elementos autorizam Schwab, autor de uma obra recém-lançada que tem como título justamente A Quarta Revolução Industrial, a anunciar uma nova era na história da humanidade? Em que fatos ele se baseia? E a que promessas e perigos se refere?

Quando se afirma que as mudanças mencionadas pelo economista já são uma realidade, não se trata de experiências de laboratório ou de operações de alta tecnologia inacessíveis aos reles mortais. Um simples registro feito por um sensor em um pedágio de estrada, que debita automaticamente o valor da tarifa na conta bancária do motorista, sem que ele precise ter contato com outro ser humano, exemplifica como essas mudanças já fazem parte do dia a dia. Até bem pouco tempo, a grande novidade no mundo tecnológico era o fato de que os seres humanos se comunicavam com as máquinas. Hoje, em muitos setores, as máquinas se comunicam com as próprias máquinas, prescindindo, em muitos casos, da presença ou da ação humana.

Assustador? Sem dúvida. Toda mudança de paradigma nos modos de produção traz alterações estruturais no cotidiano das pessoas. O mundo do século XVIII, que passou da produção manual para a mecanizada, certamente teve ganhos e perdas pontuais e foi obrigado a se ajustar ao novo modelo. Bem como o incremento da eletricidade e do petróleo, no final do século XIX, acarretou a criação de novas formas de interação entre o ser humano e os avanços que essas invenções propiciaram.

Mais recentemente, no início do século XX – não tão recentemente assim, portanto –, assistimos às transformações não apenas no mundo do trabalho, mas também no campo comportamental e no próprio entendimento do ethos humano, proporcionadas pelas potencialidades da microeletrônica, que desencadearam no aprimoramento da televisão, do rádio, das telecomunicações e das artes, sobretudo do cinema.

Grande parte dos estudiosos coloca a internet um passo adiante desse tempo, visto que a web revolucionou o processamento analógico da eletrônica, criando a época digital. Ainda assim, quando se fala em Quarta Revolução Industrial (um termo usado pela primeira vez em 1940), já se considera a internet como algo que faz parte de uma etapa anterior da história. “A Terceira Revolução Industrial termina com o computador e a internet. Daqui para a frente, é inteligência artificial, realidade virtual, internet das coisas”, afirmou o jornalista e especialista em jornalismo digital Ethevaldo Siqueira, em sua recente participação no programa Roda Vida, da TV Cultura.

De fato, num mundo em que há cerca de 10 a 12 bilhões de objetos conectados por meio da internet (em 2025, a previsão é de que haja mais de 100 bilhões), o termo “internet das coisas” (IoT – “Internet of Things”) tende a se tornar mais conhecido do público leigo. Para ser didático, por “coisas” entendam-se objetos, máquinas, dispositivos digitais. Conforme descreveu o próprio Ethevaldo, “hoje não é só a comunicação interpessoal que existe, nem só o homem falando com a máquina, mas a máquina falando com a máquina, coisa falando com coisa”. Para dar conta dessa quantidade exponencial de informação, será preciso usar a expressão yottabytes, unidade de conteúdo que equivale a 500 anos de informações armazenadas.

Computação cognitiva

Uma das empresas que saiu na frente no domínio da computação cognitiva – pois é disso que se trata, robôs que podem compreender e responder à linguagem humana e aprender à medida que interagem com os humanos – foi a IBM. Seu mais recente produto nessa categoria foi batizado de Watson, um software desenvolvido pela empresa norte-americana capaz de cruzar milhões de informações em um tempo incomensuravelmente curto por meio de algoritmos inteligentes.

Um dos diferenciais do Watson não é apenas a quantidade de informações que ele consegue relacionar, mas o fato de esses dados serem não estruturados, ou seja, as respostas às perguntas feitas ao sistema serão cada vez mais flexíveis e abrangentes, pois ele consegue aprender com as perguntas e prever as possíveis variáveis.

É inevitável a relação com o famoso computador Hall 9000, personagem do filme 2001: Uma odisseia no espaço, de 1968, dirigido por Stanley Kubrick com base em uma obra de Arthur Clarke. Só para lembrarmos, no filme, Hall (acrônimo de Heuristically programmed ALgorithmic, ou “Computador Heuristicamente programado”) é o responsável pelas operações da nave espacial Discovery One numa missão rumo ao planeta Júpiter, liderada pelos astronautas David Bowman e Frank Poole. No enredo, os dois tripulantes começam a desconfiar das intenções de Hall, numa clara antevisão do que viria a ser a relação entre as máquinas e os humanos. De certa forma, o Hall é o avô do Watson.

A preocupação em tornar o Watson mais próximo dos humanos tem ficado bastante evidente nos desdobramentos do desenvolvimento desse robô (ou bot, como os robôs também são chamados). Em 2016, na 11ª. edição do ProXXIma, um dos principais eventos de comunicação e marketing digital da América Latina, em São Paulo, foi apresentada a versão feminina do Watson, a Isabella, que falou para um público de mais de mil pessoas e respondeu a perguntas do apresentador do evento.

Entre abril e junho de 2017, a Pinacoteca de São Paulo realizou uma exposição interativa de arte, em parceria com a IBM, chamada “A voz da arte”, na qual as próprias obras – na verdade, o Watson – forneciam informações sobre elas mesmas. Os visitantes perguntavam o que lhes vinha à cabeça a respeito da obra e recebiam respostas contextualizadas que ampliavam o seu conhecimento do quadro ou escultura e de seus criadores.

A criação de Isabella e a iniciativa de exposições como a da Pinacoteca cumprem a função de trazer para a dimensão humana o que, de outro modo, seria pouco palatável para o indivíduo que apenas quer administrar a sua vida cotidiana, sem ter ou se preocupar em ter conhecimentos tecnológicos mais aprofundados. Por trás dessas tentativas de humanização da era dos algoritmos estão conceitos bem menos amigáveis ao cidadão comum, como Big Data, plataformas fistal (do físico para o digital), fintech, lawtech, bitcoin (moeda digital), blockchain, transações P2P (peer to peer), economia compartilhada, nanotecnologias, neurotecnologias, sistemas ciberfísicos, equipamentos vestíveis, entre outras.

Darwinismo tecnológico

A revolução em áreas como educação, conhecimento, arte, medicina talvez esteja no campo das promessas, de que falou o economista Klaus Schwab no Fórum de Davos, no início de 2016. Mas e os potenciais perigos? De que forma se materializam? Diante de tantas habilidades sendo dominadas tão rapidamente pelos robôs, existe a preocupação sobre se eles vão realizar as tarefas que são executadas pelos humanos. É no mundo de trabalho que o advento da computação cognitiva se apresenta como uma grande ameaça. Ainda que muitos cientistas acreditem que os robôs serão nossos parceiros, e não nossos inimigos ou concorrentes, a preocupação procede.

Crédito: Arkhipov Aleksey/Shutterstock

Segundo recente reportagem da revista Você S/A, “ainda não há consenso sobre o número de empregos que serão destruídos por causa da tecnologia. Enquanto alguns estudos dimensionam em 5 milhões as substituições de seres humanos por máquinas nos próximos cinco anos, outros apontam que 30% das vagas serão tomadas por robôs”. Se pensarmos que a população do planeta caminha rapidamente para os 7 bilhões e meio de habitantes, talvez esses números estejam subestimando as potencialidades da revolução industrial em curso.

Não é difícil imaginar que trabalhos que exigem raciocínios simples e repetitivos estejam com os dias contados. Cada habilidade aprendida pelos robôs, ou seja, decodificada pelos algoritmos, vai gerar milhões de desempregados. Assim como a profissão de acendedor de lampiões foi banida com o advento da eletricidade e a indústria de maquinas de escrever sucumbiu diante da popularização do microcomputador, muitos ofícios podem estar na iminência de ficar no álbum de memória da história em um tempo mais próximo do que imaginamos.

Em um recente artigo em seu blog, o jornalista especializado em tecnologia digital Pedro Dória afirmou que “bem antes de as novas gerações se aposentarem, muitas de suas profissões se tornarão obsoletas. Em alguns casos, são profissões de baixa remuneração: frentista de posto de gasolina, caixa de supermercado, domésticas, motoboys. Outras são profissões de classe média. Corretores de imóveis, motoristas de táxi, contadores”.

Quando se trata deste assunto, já é corrente um termo que tende a se tornar usual: desemprego tecnológico. Ou, ainda mais dramático: darwinismo tecnológico, a exclusão daqueles que não se adaptam. Não se trata, como na Primeira Revolução Industrial, de destruir esses equipamentos, como fizeram os ludistas no início do século XIX, acreditando assim eliminar os responsáveis pelo desemprego que começava a ameaçar os trabalhadores na Inglaterra naquele período. Hoje o responsável pelo novo modelo é abstrato, e não físico. Trata-se de uma disrupção, e não apenas de uma ruptura. E se naquele tempo os operários tinham algum poder sobre a máquina, hoje a máquina desafia o intelecto, a memória e o poder de imaginação do ser humano.

Samir Thomaz é escritor, jornalista, conteudista e editor. No momento, escreve um livro paradidático sobre empreendedorismo para a Editora Moderna, dirigido a alunos do Ensino Fundamental.

Crédito da foto de capa: Dmitry Kalinovsky/Shutterstock

 

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