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Encontre o seu lugar no mundo

(Texto de Samir Thomaz)

A comunhão de almas ainda é possível em um mundo marcado pela frivolidade. Ainda mais quando se compartilha de uma visão estética do mundo.

Vivemos num mundo em que a sutileza e a delicadeza não são exatamente o cardápio do dia. Isso não significa, porém, que não possamos vivenciar, aqui e ali, pequenas epifanias, como escreveu o escritor Caio Fernando Abreu em uma crônica.

Uma certa manhã, fui ao café da livraria Martins Fontes, da Avenida Paulista, me encontrar com uma amiga que compartilha comigo essa espécie de exaspero trágico pelo que a realidade se tornou nos últimos anos. É dessas raras amigas com quem muitas vezes bastam o olhar e os gestos para que a comunicação se estabeleça de forma plena.

Então uma epifania aconteceu. Assim que nos sentamos e pedimos os cafés, minha amiga se espantou com o tamanho do frasco do adoçante que havia na mesa, bem maior do que costumamos ver normalmente. A conversa seguiu, mas percebi que aquilo a havia incomodado. Algo no mundo estava fora de esquadro para ela e aquilo a desestabilizava.

Ciente do que acontecia, peguei o frasco e o levei para outra mesa, longe do seu olhar. Ela riu. Não precisávamos verbalizar o que se passava. Sabíamos, em nosso íntimo de pessoas com antenas sensíveis, que aquele momento era uma comunhão que deveria ser preservada de toda a loucura do mundo. Não iríamos admitir que nada nos tirasse a paz do cantinho que escolhêramos para falar de coisas que passavam ao largo do rame rame das calçadas, a apenas alguns metros de onde estávamos. Nem mesmo um inocente frasco de adoçante, que, claro, não tinha nada a ver com nossas idiossincrasias, mas que naquele momento materializava a insanidade do mundo da qual queríamos fugir.

Assim que retornei à mesa, depois daquele gesto ligeiro (e heroico!) de afastar o perigo que rondava nossa zona de conforto, comentei com ela que aquilo que acabara de acontecer tinha um nome: visão estética do mundo. Sim, tínhamos essa especificidade, não sei se bênção ou maldição, de olhar o mundo como se fosse uma grande obra de arte.

Naquele instante, dávamos um tempo necessário do mundo violento e feroz. Era o momento da recarga, do descanso, do mergulho no burburinho aconchegante do café, que nos conduzia a um universo imaginário feito de palavras, diálogos, respeito, entendimento, em que tudo parecia possível e viável e em que nossas crenças faziam um sentido enorme em meio a uma realidade cada vez mais desprovida de harmonia e de esperança.

 Samir Thomaz é escritor, jornalista, conteudista e editor. No momento, escreve um livro paradidático sobre empreendedorismo para a Editora Moderna.

Crédito da imagem de capa: Africa Studio/Shutterstock

1 Comentário

  1. Regina Ribeiro

    Excelente crônica. Parabéns Samir !

    Responder

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