Em que tempo vivemos?

(Texto de Samir Thomaz)

 Se alguém conceituar nossa era de forma peremptória, desconfie. Nada mais fugidio e incontornável do que a verdade nesses tempos líquidos. E não é por falta de interesse epistemológico dos pensadores contemporâneos. Por mais interessantes e fecundas que sejam suas teses, nada mais fazem do que compor o mosaico do nosso caos teórico.

Tentar decifrar a época em que vivemos, ou de que modo nosso tempo será visto pela posteridade: eis uma especulação filosófica das mais fecundas na atualidade. Não apenas esse tipo de investigação seduz o ser humano desde que teve consciência da sua historicidade, como nas últimas décadas temos sido testemunhas de acontecimentos que redimensionaram o tempo e a história de uma forma extraordinária – ou dramática, para usar uma expressão de Hegel.

Do conceito de “aldeia global”, do comunicólogo canadense Marshall MacLuhan, ao vaticínio do “fim da história”, do filósofo norte-americano Francis Fukuyama, vivemos um cenário pródigo de fatos que se metamorfoseiam ao sabor das circunstâncias e das interpretações, desafiando as análises mais fundamentadas. A exploração da Lua e de alguns planetas, a possibilidade concreta do clone humano, a queda do Muro de Berlim e o ataque às Torres Gêmeas em Nova York são fatos que tornam nossa época uma escalada vertiginosa de acontecimentos que só confirmam a frase de Marx segundo a qual “tudo que é sólido desmancha no ar”. A própria virada do século, uma assimetria cronológica que ainda não tragamos direito, costuma ser evocada como baliza de uma nova era – a assimetria, nesse caso, constatada pela forma pouco confortável como nos referimos ao século XX, um século no qual vivíamos até outro dia.

Podemos trazer à pauta as descobertas da engenharia genética, cujo alcance cada vez mais altera a etologia humana; a ascensão do terrorismo como forma de reivindicação política, ou do narcotráfico e seu poder paralelo, oculto mas onipresente; ou ainda a revolução digital, que influencia todas as dimensões imagináveis da vida contemporânea. Há quem afirme, no entanto, que a grande revolução do nosso tempo é a das mulheres, que ocuparam o seu lugar no mercado de trabalho, fazendo tábua rasa de anos de patriarcado opressor, num processo ainda em andamento.

O economista norte-americano John Kenneth Galbraith falava em “era de incertezas”; o historiador britânico Eric Hobsbawn, em “era dos extremos”, para classificar o que ele chamava de “o breve século XX (1914-1991)” – as datas falam por si. Há mesmo quem acredite que o século XX ainda não terminou.

Os pós-modernos relatam a desconstrução, a descontinuidade do tempo e o fim das grandes ideias, aquelas que marcaram a chamada modernidade: trabalho, família, Deus, transcendência, fé, paradigma, história, razão, logos, ordem, justiça, Igreja, romantismo, forma, projeto, raiz (profundidade), hierarquia, fronteira, sindicato, nação, pátria. Os termos, hoje, são outros, segundo os pós-modernos: antiforma, androginia, imanência, esquizofrenia, rizoma (superfície), combinação, processo, retórica, dispersão, exaustão, anarquia, jogo, acaso, intertexto, interação. O pensador pós-moderno francês Jean Baudrillard se refere ao nosso tempo como o de simulacros e simulações – o mundo seria aquilo que não se vê, a irrealidade, o não acontecimento, como na trilogia Matrix, não por acaso inspirada em um dos livros de Baudrillard.

Para falar de nossa época, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman cunhou a tão citada expressão “modernidade líquida”, pela qual somos fluidos como a água, nos adaptamos aos recipientes, ao passo que o livre-pensador belga Guy Debord criou outro termo que vive sendo lembrado, o de “sociedade do espetáculo”. O Big Brother, não o do programa da TV, mas o do romance de George Orwell, materializou-se, para mal dos pecados, de maneira absoluta em nossa sociedade dissimuladamente administrada, a que muitos chamam de democrática – democracia, vê-se, virou uma palavra cabalística.

Gilles Lipovetsky, filósofo francês, recusa o fim da modernidade e o advento de um período posterior a ela, e prefere falar em “hipermodernidade”, uma espécie de rabeira do que foi e ainda é a modernidade, como a conhecemos, mas incorporando as características atribuídas à pós-modernidade.

Apocalíptico e fatalista, o urbanista e pensador francês Paul Virilio, chamado por seus críticos de “teólogo da Idade da Mídia”, criou até uma ciência própria, a dromologia (dromos, em grego, é “corrida”), ciência da velocidade, para captar a essência da nossa era. Segundo ele, é preciso estabelecer uma inteligência política do tempo. Assim como, no início da modernidade, Bacon dizia que “saber é poder” e na concepção capitalista se afirma que “tempo é dinheiro”, para Virilio, “velocidade é poder”.

Nesse contexto, alguns epítetos viram moda. No início dos anos 1990, era comum falar-se de uma “nova ordem mundial”, referência ao tabuleiro político posterior à queda de União Soviética. Aqui e ali ouve-se a expressão “Terceira Revolução Industrial”, a da tecnoinformação, ou “sociedade pós-industrial”, dando como certo que o ponto de inflexão de nossa era é marcado não mais pelo uso da máquina, mas por um complexo que envolve o setor terciário, a burocracia estatal e a indústria cultural, com a contribuição dos meios de comunicação de massa. É dessa perspectiva que se costuma analisar o homem pós-moderno como individualista, hedonista e consumista – ou hiperconsumista, como afirma Gilles Lipovetsky.

Teses e terminologias à parte, nunca saberemos – nós, dessa geração – como nossa sociedade será vista no futuro, e aí é que está a sedução que nos impõe o tempo, com suas sobreposições e contradições, a desafiar nossa capacidade de codificação nesse caos teórico a que nos vemos chegado.

Samir Thomaz é jornalista, editor e escritor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros.

 

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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