Em memória da mãe

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

Foi na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) no ano passado que entrei em contato com a obra da escritora ruandense Scholastique Mukasonga. Ela participou da mesa intitulada “Em nome da mãe”, em que apresentou seu livro A mulher de pés descalços, um relato de memórias sobre sua mãe e seu esforço diário para proteger os filhos, preservar a rotina familiar e manter viva a cultura de seus ancestrais no exílio, ocasionado em virtude da intensificação dos conflitos entre tutsis e hutus em Ruanda a partir da década de 1960.

Após assistir ao relato emocionante da escritora sobre a mãe e os momentos vividos no exílio durante a juventude, me preparei para uma leitura tensa, mas o que encontrei em A mulher de pés descalços foi uma história repleta de afetividade, ainda que em meio a um cenário violento.

Sim, há relatos da narradora sobre as invasões constantes da polícia na casa em que morava e sobre a violência dos soldados contra a população de exilados, mas o que se destaca na narrativa é o papel de protagonista que Stefania, a mãe da narradora, desempenha no combate a essa opressão, seja preparando esconderijos e planos de fuga para esses momentos de violência, seja esforçando-se para realizar as atividades rotineiras e preservar a tradição em meio à adversidade.

No primeiro parágrafo, ao relatar que Stefania chama as filhas mais novas pelos nomes que receberam dentro da tradição tutsi e não pelos que receberam ao serem batizadas, a narradora já sinaliza ao leitor que a mãe é a responsável pela preservação da identidade da família:

[…] Ela não nos chamava pelos nomes de batismo, Jeanne, Julienne, Scholastique, e sim pelos nomes de verdade, que tinham sido escolhidos por nosso pai e cujo significado, sempre sujeito a interpretações, parecia projetar nosso futuro: “ Umubyeyi, Uwamubyirura, Mukasonga!”.

Ao chamar as filhas pelos nomes “de verdade”, como a própria narradora os descreve, a mãe as está trazendo de volta às suas origens, lembrando-as de sua identidade tutsi, que não deve ser esquecida, mesmo que estejam longe de casa.

A mãe também não deixa os filhos esquecerem aspectos centrais da cultura tutsi ao construir a casa em que moram de acordo com a habitação tradicional – o inzu , ao preservar os rituais de cultivo e colheita do sorgo – o principal alimento de Ruanda –, ao elaborar remédios com plantas medicinais que cultivava em seu jardim, ao dar continuidade aos ritos de casamento, ao contar para os filhos histórias ao redor da fogueira após a refeição da noite.

E se Stefania e as outras mulheres tutsis são responsáveis por zelar pela tradição, elas também a questionam quando o comportamento imposto por essa tradição precisa ser confrontado em face da violência decorrente da nova realidade em que os tutsis estão inseridos.

Quando uma jovem tutsi é estuprada por jovens hutus que, segundo a narradora, “aprenderam que o estupro de moças tutsis é um ato revolucionário, um direito adquirido pelo povo majoritário” e fica grávida, a tradição, que impunha à família e à moça que ficasse grávida antes do casamento uma quarentena, cede lugar à solidariedade e todos acolhem a jovem e o bebê.

Em sua apresentação na Flip, Scholastique disse que escrever este livro foi uma maneira que encontrou de realizar o ritual de sepultamento de sua mãe e de manter viva a história dela e de todos os que morreram no genocídio de Ruanda de 1994, quando cerca de 800 mil tutsis foram mortos. Ao ler A mulher de pés descalços, somos imediatamente implicados na tarefa de manter vivas não apenas a história de Stefania, mas esta e outras histórias de resistência.

A mulher de pés descalços, de Scholastique Mukasonga. Nós, 2017.

Para conhecer um pouco mais sobre o conflito entre tutsis e hutus e sobre o genocídio de 1994: Hotel Ruanda, dirigido por Terry George (Reino Unido/África do Sul/Itália, 2004).

Texto de Cláudia Carvalho Neves, editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

[c.c.neves@uol.com.br]

Crédito da imagem da capa: Editora Nós

1 Comentário

  1. Ivone Sampaio Parente

    Esse texto conduz o leitor ao livro, comigo foi assim.

    Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *