Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

Elogio da vassoura

(Texto de Antônio Barreto)

Sei que essa não é uma boa maneira de se começar uma crônica. Mas o problema do qual vou tratar hoje é tão grave em sua profundidade e alcance social que não há outra forma de fazê-lo. Assim, sem mais nenhum alongamento metafórico (ou metalinguístico: dirão os doutos), vou direto ao assunto: estão encurtando o cabo das vassouras!

Veja bem, cara leitora, que não estou falando daquele veículo movido a palavra mágica, normalmente usado pelas bruxas e pelandrujas nas histórias infantis ou nos quadrinhos. Estou falando, sim, do objeto rotundo com haste cilíndrica e um monte de pelos na extremidade inferior. Um que (hoje raras e nobilíssimas) as secretárias do lar e exímias faxineiras do nosso cotidiário padecer usam para varrer a casa, expulsar o gato, matar baratas, lagartixas. Ou, quase sempre, surrar os maridos. Principalmente se recém-chegados da rua com bafo de cachaça, cerveja, cheiro de mulher ou marcas de batom.

Algumas leitoras, mais esclarecidas, hão de me contestar. Outras hão de me lembrar que já há variedades mais ecológicas no mercado, com tirinhas de garrafa PET no lugar dos pelos (ou da palha de buriti, de capim ou de piaçava). Tudo bem. É a evolução. E outras, bem sei, hão de me apontar maneiras diversas de se utilizar o objeto em questão. Tais como: varrer a cinza para debaixo dos tapetes (principalmente as cinzas Executivas, Legislativas e Judiciárias). Espantar mau-olhado. Correr com visitas indesejáveis, quando colocadas atrás da porta. E até simbolizar campanhas eleitorais de políticos de triste memória, sem louvaminhas. E assim vamos varrendo…

Pois bem. O problema, no entanto, é que estão encurtando o cabo delas na base de 5 centímetros por ano. Maior que a média de crescimento das nossas crianças, que atualmente é de 4 cm/ano. Daí que, dentro em pouco – e isso é assustador –, não haverá mais como falar aos sobrinhos, netos e pimpolhos em geral:

– Olha, você já é um homenzinho! Está do tamanho de um cabo de vassoura!

De acordo com meus cálculos, em 5 anos, a vassoura não será mais uma vassoura. E sim um espanador, ou uma reles e mirrada escova de mão. Pior: acabando com a vassoura, levam de roldão também o rodinho e toda a família dos Vassouríferos Encabados Trabalhópteros.

Algumas leitoras, aquelas que já dobraram o Cabo da Boa Esperança e o Cabo das Tormentas, alegarão que o destino delas está mesmo traçado, que a extinção é inevitável etc. Outras lembrarão que, na verdade, há muito já foram substituídas pelos aspiradores de pó, vaporettos, escovões elétricos e enceradeiras. E aqui não estou falando dos bumbuns da ex-Mulher Samambaia ou da Vera Verão, por exemplo. Nem da Mulher Melancia, Mulher Morangão, Mulher Melão ou quaisquer outras “frutas-enceradeiras” malucas que ainda virão por aí: todas herdeiras de Rita Cadillac, é claro. Ou de Gretchen, Carla Perez e demais “grifes-búndicas” genuinamente nacionais.

Com tudo isso, reafirmo: não concordo com o fim das vassouras. Elas são insubstituíveis. Posto que ainda há uma pá de coisas insubstituíveis: como a faca, o cortador de unhas, o palito de fósforo, o clipe, a algazarra dos cariocas, o silêncio dos mineiros, a filosófica reflexividade dos baianos, a tesoura, o lápis, a correria dos paulistanos, o livro, o pão de queijo, o bravo chimarrão dos gaúchos, as mães e … é claro, a nossa valente vassoura!

Simplesmente porque, sem a vassoura, não dá para limpar nada direito. Ela chega até onde os drones e outros robóticos monstrengos tecnológicos não chegam. Aquela gretinha entre um taco e outro. Ali onde mora o perigo de uma poeira virótica. Aquele buraquinho quase invisível atrás do armário. Ali onde descansa um prego renitente, uma tachinha temerária, um grampo arrojado, uma ramona aguerrida e um alfinete enferrujado. Ali, a vassoura chega e faz o seu serviço com uma competência extraordinária: varre.

Mas o problema, como já disse, não é esse: é o cabo. O cabo agora, além de mais curto, vem solto, separado da vassoura. Tem uma rosca na extremidade de baixo para enroscar na parte que serve para varrer. Na outra extremidade, um negocinho pra pendurar no prego da área de serviço ou no quarto apertadinho da diarista (que aqui em casa já nem existe mais). Assim, ao fim e ao cabo de incessantes anos de pesquisas, descobri: as fábricas de vassoura estão comendo o cabo, de cabo a rabo. No século passado elas tinham 150 cm. Em 2004: 140. Em 2005: 135. Em 2010: 125. Em 2014: 120. E agora, quando acabo de comprar e medir a primeira vassoura do ano (algumas leitoras, freudianamente mais gozadoras, identificarão nisso um gesto fálico, eu sei), constato: mede apenas 115 cm a minha vassourinha de 2015. Pode? E o que acontecerá com as vassouras de 2020, 2025? (se o mundo não acabar antes disso, como já predizem alguns cientistas).

Enquanto o fim do mundo não vem (ops, como estou precisando, urgente, limpar minha alma para o dia do Juízo Final!), deixa eu contar o restinho dessa história. O pior me aconteceu na estreia dela, a minha tal vassourinha de 2015. Fui varrer o escritório. Patroa fora, viajando. Eu sozinho em casa, doméstico, na lomba, gugando e tentando inserir o meu arroba na Internet. Em suma: viajando na maionese. Foram três vassouradas pra cá, mais três pra lá e pronto: a coluna estalou! Peguei alguma coisa na estrutura óssea. Essa que suporta a carcaça já bamba e corroída, e talvez “inlanternável” – como diria um ex-ministro-mexilhão de triste memória. E dói pacas!

Putzvida! Será uma lordose? Será uma lombalgia? Uma cifose, uma escoliose osteófita lombocostal? Ou apenas um bico de papagaio? Não sei. Tanto que estou escrevendo esse tratado de um modo meio esconso e absconso. De banda. Porque o pescoço também endureceu e não há analgésico genérico que dê jeito nisso. Processo a fábrica? Vou ao Procon? Por favor, alguém aí me ajude! Querem dar cabo de mim, um reles recruta palavral…

Por último, deixo um cabal pedido de socorro aos nossos laboriosos políticos. Esses que estão sempre atentos, envolvidos e preocupados em resolver os gravíssimos e fundamentais problemas da nossa Pátria Educadora. Principalmente nos grotões de miséria, ali onde a política dos “aspiradores-de-pó” ainda não chegou. Mas o trezoitão, o AR-15 e a bolsa-corrupção já.

– Salvem o cabo das vassouras, antes que seja tarde!

 Antônio Barreto nasceu em Passos (MG) e reside atualmente em Belo Horizonte. É cronista, contista, poeta, romancista e autor de livros infanto-juvenis. Ganhou diversos prêmios literários, como João-de-Barro, Ezra Jack Keats (Unicef), IBBY (Unesco) e foi indicado várias ao Prêmio Jabuti. Escreve regularmente para jornais e revistas impressas e eletrônicas, no Brasil e no exterior. Alguns de seus romances: A barca dos amantes (Lê); Crônicas adoidescentes e Lixo cósmico (Mercuryo Jovem); O papagaio de Van Gogh (Lê). Contos: Os ambulacros das holotúrias e Reflexões de um caramujo (UFMG). Poemas: O sono provisório (Francisco Alves); Vastafala (Scipione); Vagalovnis (Autêntica). Infanto-juvenis: Balada do primeiro amor; O velho pássaro da lua, No beleléu e Brincadeiras de anjo (FTD); O menino que não sonhava só (Mercuryo Jovem); A desdorminhoca (Dubolsinho). Facebook: https://www.facebook.com/antonio.barreto.12139

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *