E se os filhos não vêm? É possível ser feliz sem eles?

(Texto de Cintia Kanashiro)

Gostaria de compartilhar alguns dados da obra Sem filhos por opção, de Margareth Moura Lacerda e Edson Fernandes1:

  • existem 17,1% de casais sem filhos no Brasil2;
  • 13,7 milhões de mulheres não querem engravidar (14% das brasileiras)3;
  • nasceram apenas 1,86 filhos para cada mulher;
  • estamos abaixo da taxa de reposição mínima da população.

Segundo dados do IBGE, a proporção de casais sem filhos subiu de 15,2% para 20% entre 2005 e 2015.

Por escolha ou por questões de infertilidade, muitos casais não têm filhos.

Margareth Lacerda e Edson Fernandes afirmam é possível ser feliz sem filhos. Será? Os autores defendem que, sem filhos, é possível encaminhar melhor a carreira profissional, sem culpa por não poder dedicar 100% do tempo à prole; o tempo assume outra dimensão, podendo-se dedicar mais a si mesmo e às próprias necessidades e projetos pessoais; as viagens e o lazer são conduzidos sem “neuras”; as mudanças que ocorrem na vida são mais fáceis de serem conduzidas sem filhos; repensa-se a preocupação com a superpopulação e com o esgotamento dos recursos naturais no futuro; têm-se menos gastos financeiros, podendo-se planejar melhor o futuro.

Outro fenômeno que vem demonstrando a opção pela não maternidade é a chamada Geração NoMo (No Mothers), de mulheres que não contemplam a maternidade e que “apresentam como reivindicação um espaço de respeito e liberdade: o respeito às decisões de uma pessoa [no caso, a de não ter filhos] e à liberdade de poder tomá-las sem ter de dar explicações”4.

Julia Harger, em seu artigo5, revela a necessidade de desconstruir a visão romântica e poética da maternidade, pois muitas vezes a visão que se transmite é a de que exercer esse papel é 100% realizador e tudo corre como um mar de rosas, evidenciando-se somente aspectos positivos. A parte difícil, conflituosa e pesada da maternidade por vezes é ocultada ou minimizada, até mesmo por um reforço do sistema patriarcal, tradicional e conservador vigente socialmente. Em geral, a vida dos homens profissionalmente continua igual, mas as de muitas mulheres sofrem impactos, sendo que muitas acabam não tendo escolhas e abrindo mão da vida profissional e, até mesmo, da pessoal.

Na abordagem de críticas à maternidade, foi polêmico e até mesmo assustador o depoimento da autora francesa Corinne Maier, que afirmou ter motivos para odiar crianças. Ela tem dois filhos e anuncia, para quem quiser ouvir sua opinião, que “no mundo atual, os adultos estão tão obsessivos por seus filhos e tão exaustos por ter de cuidar deles que não têm energia para mais nada”6. A autora escreveu o livro No Kids: 40 Good Reasons Not to Have Children (em tradução livre, Sem Crianças: 40 boas razões para não se ter filhos).

A reportagem de Juliana Simon, intitulada “Mesmo criticadas, elas desistiram da maternidade e não se arrependem”7, apresenta depoimentos de mulheres que optaram por não ter filhos e não se arrependeram por isso. Também não mostra arrependimento pela opção de não querer filhos a jornalista Ana Paula Padrão. Na reportagem de março de 2017 da revista Cláudia, ela é categórica ao falar sobre os tratamentos para infertilidade na sua tentativa de ter filhos e que não deram certo: “As pessoas acham que precisam alcançar o impossível, mas conseguir o possível já exige determinação e coragem. Eu tenho uma carreira e sou respeitada por ela; tive dois casamentos superbacanas; namoro um cara […] que me trata bem e gostamos um do outro… Preciso ter filhos? Esse sonho não é meu! Nunca quis a família margarina”8.

Independentemente da polêmica que isso possa gerar, qualquer que seja a escolha – ter ou não ter filhos; largar tudo para ser mãe ou tentar conciliar os diversos papéis –, a palavra já diz tudo: “escolha”. E ela deve ser respeitada, é de âmbito individual, diz respeito a cada um, a cada contexto, a cada situação e realidade. Além disso, a vida sempre pode ser enriquecedora, com ou sem filhos.

Enganam-se os pais que têm filhos por medo do abandono e da solidão na velhice e para terem quem os cuide quando chegarem a esse estágio delicado e frágil da vida. Pois os filhos são feitos para o mundo, seres que complementam a vida em família durante boa parte da trajetória, mas que seguirão por caminhos e escolhas próprios.

Crédito: Tatyana Tomsickova/Shutterstock

Ter filhos, sem dúvida, é uma bênção, mas também uma missão de muita responsabilidade para os pais, um acontecimento que preenche a vida de alegrias, satisfação e conquistas, mas não sem ser acompanhado de desafios e preocupações de toda sorte: financeiras, emocionais, físicas e psíquicas.

Só é apenas lamentável que, em alguns momentos, as mulheres que não desejam ou não podem ter filhos ainda sejam tão discriminadas na sociedade, como afirmam Margareth Lacerda e Edson Fernandes: a mulher que não deseja viver o papel de mãe fica exposta às críticas preconceituosas e às pressões da família e dos amigos. São taxadas de egoístas por priorizarem a carreira profissional ou a vida pessoal, em detrimento da maternidade, como se as escolhas individuais e o exercício da liberdade não pudessem ser praticados nem respeitados.

O Censo do IBGE ao revelar, em 2010, que 14% das mulheres não querem ter filhos, pôs em xeque a visão da maternidade como um fator puramente biológico e trouxe à tona o fato de os papéis sociais estarem menos engessados; com as mudanças na atuação das mulheres na sociedade, os sonhos de muitas não passam mais pela maternidade. Mas, apesar de todas as conquistas femininas, como a obtenção da independência emocional e financeira, não desejar a maternidade permanece como um tabu. Quem escolhe não ter filhos precisa lidar com a crítica social: com olhares tortos e acusações de estar negando a própria natureza, de ser egoísta, imatura por não querer ter responsabilidades, ser workaholic ou não se importar com a família. “Ao optar por não ser mãe, você é desqualificada como pessoa e tratada como um ser humano incompleto”, afirma Mariana Meriqui Rodrigues, pesquisadora do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Sexualidade, Corporalidades e Direitos da Universidade Federal de Tocantins (UFT) e membro do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil9.

Quantas podem se identificar com o pensamento de Ana Paula Padrão, por exemplo, e guardar esse sentimento a sete chaves por receio de ser taxada de egoísta e fria, ser estigmatizada por puro preconceito social?

Para confirmar as reações contrárias a quem opta por não ter filhos, um estudo recente da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, indica que as reações das pessoas a adultos sem crianças são ainda mais drásticas do que se pensava. O título da pesquisa é: “Em 2017, não ter filhos ainda é visto como moralmente errado, diz estudo”10.

Margareth Lacerda e Edson Fernandes corroboram que há uma disseminação da ideia cultural de que o casal sem filhos é incompleto e infeliz, porque não existe uma criança para ser cuidada, e que, segundo essa visão, isso constitui um desvio de comportamento em comparação ao que se considera “normal” para uma família. O que seria a “normalidade”? Quem dita o que é considerado “normal”?

É como se o casal sem filhos estivesse condenado à tristeza e a uma vida incompleta, o que não é verdade. Segundo Dorli Kamkhagi, psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-FMUSP), “existe toda uma pressão social, familiar e até mesmo midiática que faz da maternidade um lugar quase idealizado. Quando a mulher não cumpre o que a sociedade espera dela, por mais que esteja amadurecida em sua decisão, é como se houvesse uma falha, ou melhor, uma ‘falta’. É como se não obedecesse aos valores da cultura em que está inserida”. Ao escolher não engravidar, a mulher rompe com os estereótipos e o comportamento esperado. E isso incomoda. A psicóloga afirma que, apesar de todas as conquistas, ainda há um longo caminho de desconstrução do papel feminino na sociedade.

Crédito: OtmarW/Shutterstock

Mariana Meriqui Rodrigues defende: “Para justificar a necessidade de a mulher ser mãe, são citadas pesquisas que afirmam que o corpo foi feito para gerar filhos e que relacionam a não amamentação ao câncer de mama, por exemplo. Essas relações chegam a ser cruéis”. Da mesma forma, a pesquisadora valida a ideia de que é preciso rever a ideia do instinto materno como algo natural, já que toda relação, inclusive a de mãe e filho, é também construída socialmente.

Penso que a sensação de completude não pode depender de uma pessoa, o que passa pela ideia de procurar realizar-se por si mesmo, sem exigir obrigatoriamente a presença de filhos, maridos, esposas. Não são eles que têm de preencher lacunas e vazios existenciais. Cada um tem de se resolver por si próprio: medos, angústias, anseios, neuras, carências, desejos, sonhos. E também, muitas vezes, o casal tem uma vida dinâmica e uma relação rica, satisfatória, gratificante e construtiva para ambos, o que já seria o suficiente para acarretar uma sensação de plenitude. Na realidade, não existe ser humano completo, o que buscamos é a plenitude nas relações que desenvolvemos e estabelecemos com o parceiro, com a família, os amigos, os colegas de trabalho, as pessoas que cruzam nossas vidas.

Pelo sim, pelo não, penso que é ótimo ter filhos quando eles são considerados indivíduos que vêm a somar, a complementar um projeto de vida, integrar a família, que vai partilhar valores, conhecimentos e experiências por um bom tempo. Quando se procuram formar seres humanos que vão dar sua contribuição ao mundo, deixar marcas e influências positivas na vida das pessoas com as quais convivem, que vão se constituir seres em busca de autonomia e do pensamento próprio, mas que, nem por isso, serão inflexíveis, rigorosos, rígidos, arrogantes, pessoas que não sabem acolher nem respeitar pontos de vista diferentes, a tão aclamada diversidade. Filhos éticos, cidadãos, que sabem respeitar a vida e o espaço alheios, seres humanos dotados de empatia, a chamada capacidade de se colocar no lugar do outro.

Mas não pensar em ter filhos quando eles “servem” para salvar o casamento ruim, curar a solidão, cobrir vazios e lacunas existenciais, frustrações próprias ou apenas para “me fazer mais feliz”, visando tão somente o bem-estar próprio, sem estar plenamente preparado para formar, capacitar, fornecer meios para que eles caminhem sobre as próprias pernas, saibam fazer escolhas e se responsabilizem por elas, sem prejudicar as pessoas em benefício próprio ao longo de toda a sua trajetória. Ter filhos é uma decisão séria, que vai exigir renúncias, abrir mão da liberdade e é um compromisso para a vida toda. É preciso querer muito, de verdade, sem arrependimentos posteriores. Não é um caminho natural para a mulher, um protocolo a cumprir ou uma imposição social, mas uma escolha, um compromisso e uma responsabilidade.  Não pelo dever social, mas é preciso estar confortável e confiante com a decisão de ser mãe. Estar preparada para investir tempo, afeto e dinheiro na relação com os filhos. E investir em um processo de autoconhecimento para não ceder às pressões e às convenções sociais e estar bem consigo mesma e com as próprias decisões, ter consciência dos desejos, das limitações e potencialidades para abraçar e viver aquilo que acredita ser o viável para a sua realidade, personalidade e contexto.

Em relação à questão “É possível ser feliz sem filhos?”, eu acredito que sim. Sem amarguras nem rancores por esse projeto não ter acontecido. Dá para ser feliz de diversos modos, nos papéis de esposa, filha, profissional, irmã, tia, prima, amiga. Na atualidade, os casais podem ter outros planos, além da maternidade, e viver uma relação significativa e prazerosa. Ser feliz quando se encara a vida como um presente, um dom a ser lapidado e transformado conforme as próprias convicções e jeito de ser; quando se agradece pelas benfeitorias que a vida concedeu, em vez de focar nas coisas que faltam; quando se é capaz de viver em plenitude, em paz, desenvolvendo os projetos próprios que melhorem não só a si mesmo, mas a sociedade e o mundo, na medida possível de cada um; quando se está confortável com as próprias escolhas. E principalmente quando se procura, sempre que possível, optar pelo protagonismo diante da vida, não o vitimismo; por viver plenamente o que ela tem de melhor, apesar dos infortúnios e obstáculos que naturalmente surgem. Cultivar interesses, olhar o mundo com “olhos de criança”, com o despertar para a curiosidade, ser útil, aceitar os limites da vida e aprender a lidar com frustrações, olhar o sorriso das pessoas, fazer um trabalho bem feito, ter coragem e garra para mudar uma situação negativa, enfrentar desafios, acolher os amigos que precisam, rir e rir muito com a família, amar terna e respeitosamente o companheiro com quem se escolheu viver, mimar os sobrinhos, sentir a gota de chuva no rosto, ver o pôr do sol, brincar com o cachorro, comer brigadeiro de colher, dançar, cantar, fazer sessões de massagem, ter tempo para si e para os próprios pensamentos, cuidar de seu mundo particular, na própria companhia [um luxo hoje em dia na correria em que vivemos!], chorar quando for preciso, mas saber se reerguer na mesma medida… São muitos os motivos para comemorar, agradecer e ser feliz! Fica um convite para você, querido leitor, ser feliz, apesar de todos os problemas. Com ou sem filhos.

NOTAS:

1 FERNANDES, Edson; LACERDA, Margareth Moura. Sem filhos por opção. Casais, solteiros e muitas razões para não ter filhos. São Paulo: NVersos, 2012.

2 De acordo com a Síntese de indicadores sociais de 2009 do IBGE, o Brasil tinha cerca de 39,6 milhões de casais em 2008, e o percentual de casais sem filhos era de 16,7%; em 2009, passou para 17,1%. Nos próximos anos, o IBGE prevê uma tendência de crescimento do número de casais sem filhos. In: FERNANDES, Edson; LACERDA, Margareth Moura, op. cit. p. 193. Nota 1.

3 Dados do IBGE. Censo de 2010 – índice de mulheres que não querem engravidar e taxa de fecundidade. In: FERNANDES, Edson; LACERDA, Margareth Moura, op. cit. p. 193. Nota 3.

4 LAGUARDIA, Iñaki. Geração NoMo: A rebelião das mulheres que não contemplam a maternidade. In: El País, 23 ago. 2014. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/23/sociedad/1408813287_310188.html>. Acesso em: 4 maio 2017.

5 HARGER, Julia. Desconstruir a maternidade romântica é nosso papel. In: Geledés, 23 nov. 2015. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/desconstruir-a-maternidade-romantica-e-nosso-papel/>. Acesso em: 25 ago. 2015.

6 BBC Brasil. Tenho motivos para odiar crianças: o polêmico testemunho de escritora francesa que se arrepende de ser mãe. In: BBC Brasil, 9 dez. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38258667>. Acesso em: 4 maio 2017.

7 SIMON, Juliana. Mesmo criticadas, elas desistiram da maternidade e não se arrependem. In: UOL, 23 jan. 2017. Disponível em: <https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/01/23/mesmo-criticadas-elas-desistiram-da-maternidade-e-nao-se-arrependem.htm>. Acesso em: 4 maio 2017.

8 * Depoimento de Ana Paula Padrão a Isabella D’Ercole para a revista Cláudia, ano 56, mar. 2017, p. 74. Título da reportagem: “Dupla dinâmica”.

9 Depoimento extraído da matéria “Por que mulheres que não querem ter filhos ainda sofrem preconceito?”. In: Finanças femininas, 31 ago. 2016. Disponível em: <http://financasfemininas.uol.com.br/por-que-mulheres-que-nao-querem-ter-filhos-ainda-sofrem-preconceito/>. Acesso em: 4 maio 2017.

10 UOL. Em 2017, não ter filhos ainda é visto como moralmente errado, diz estudo. IN: UOL, 17 mar. 2017. Disponível em: <https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/03/17/em-2017-nao-ter-filhos-ainda-e-visto-como-moralmente-errado-diz-estudo.htm>. Acesso em: 5 maio 2017.

 Cintia Kanashiro é casada com o Alexandre há 16 anos e eles não têm filhos. Enfrentou o problema da infertilidade (endometriose) e fez tratamento para engravidar. Mas garante que é grata às bênçãos que recebeu e recebe na vida e não foca no que falta, agradece muito tudo o que tem. É editora, proprietária da Ofício do Texto Projetos Editoriais e idealizadora da Contemporânea Brasil.

Crédito da imagem de destaque: Christin Lola/Shutterstock

3 Comentários

  1. Flavia Cesario

    Excelente artigo! Não ter filhos exige coragem porque é uma decisão na contramão do que a sociedade preconiza. Mas quando a gente se livra da neura de se enquadrar no obsessivo padrão da família feliz, a vida segue mais leve e gostosa. Aliás hoje em dia as famílias são cada vez menos ortodoxas, não é mesmo?

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  2. Éder

    Sou casado há 26 anos, minha vida é parecida com a da Cintia Kanashiro, não tenho filhos por opção, nesses anos, tivemos momentos de querer ter filhos, pagamos tratamentos caríssimos sem êxito, a fase do desejo de ter filho durou um tempo e passou, a vida foi bela comigo em outros sentidos ao qual sou muito grato à Deus ! Sinceramente, não sei se minha vida seria mais feliz se tivesse um filho ou uma filha, só Deus sabe ! Obrigado meu Deus,por ter me dado outras graças e ensinar-me ocupar meu tempo com tantas coisas boas que a vida oferece !

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    1. Cintia Kanashiro (Publicações do Autor)

      Oi, Éder. Obrigada por compartilhar sua experiência e por ler a revista. Sim, quando a gente tem a mente grata a todas as bênçãos que recebemos e percebemos o quanto a vida é generosa e boa conosco, as faltas, as ausências e os problemas ficam menores, não é mesmo? Viva as belezas da vida! Abraço e tudo de bom pra você!

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