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É preciso falar sobre a velhice também

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016, em uma das programações que acontecem paralelamente ao evento principal, assisti a uma mesa cujo tema era “Sociedade da Intolerância” e em que os participantes narravam suas experiências de vida: o diplomata Alexandre Vidal Porto relatou os preconceitos que enfrenta cotidianamente por ser homossexual, e o jornalista Jairo Marques contou sobre os “perrengues” (para usar um termo do próprio Alexandre) de ser um cadeirante em um mundo que não leva em consideração as necessidades das pessoas com algum tipo de deficiência física.

As discussões sobre a exclusão de grupos considerados “minorias” (entenda-se minorias como os que não se enquadram nos padrões estabelecidos pelos grupos socioeconômicos dominantes, incluindo-se aí as mulheres) são importantes para levar as pessoas a compreenderem que os direitos dos diferentes grupos que compõem uma sociedade devem ser construídos coletivamente, e não apenas pelos indivíduos que se posicionam como pertencentes a este ou àquele grupo.

Como editora de livros didáticos, esse tema está sempre presente no trabalho que desenvolvo, uma vez que o papel da educação e de todos nela envolvidos é contribuir para a formação de cidadãos que possam compreender e respeitar o mundo em que vivem, com suas semelhanças e diferenças, e nele atuar de forma responsável e solidária.

No entanto, por mais enriquecedor que possa ser (e sempre é) participar desse tipo de discussão, nesse dia saí com uma sensação que ainda me acompanhou por alguns dias e durante outras mesas a que assisti durante a Flip 2016, em que a questão de gênero estava sendo tratada: por que raramente temos mesas em que pessoas idosas são convidadas a relatar suas experiências e as dificuldades e os preconceitos que enfrentam nessa etapa de vida?

De acordo com o Censo de 2010, as pessoas com 60 anos ou mais representam 10,8% da população brasileira. Como será a vida dessas pessoas em um país com tanta desigualdade no acesso aos serviços e aos espaços? Será que o Estado brasileiro garante ao cidadão um “envelhecimento saudável e em condições de dignidade”, como estabelece o Estatuto do Idoso (art. 9)?

E se o Estado brasileiro não garante esse direito, será que nós, cidadãos que não chegamos ainda à velhice, estamos de alguma forma preocupados ou atentos às questões relacionadas a essa etapa de vida?  Nós conhecemos as políticas públicas para as pessoas idosas no município em que vivemos? Quando escolhemos um candidato a um cargo público, por exemplo, procuramos nos informar sobre sua pauta para os idosos ou como tem sido sua atuação em relação a esse grupo?

E se, no dia a dia, eu respeito o assento reservado para as pessoas idosas no transporte público, será que tenho a mesma atitude de respeito ao me deparar, na minha pressa cotidiana, com um caminhar mais lento em uma calçada ou na travessia de uma faixa de pedestre? Eu respeito o fato de o ritmo de uma pessoa idosa ser diferente do meu, não porque ela queira, mas porque o seu corpo já não consegue realizar algumas tarefas cotidianas no mesmo ritmo que o meu?

Crédito: Cláudia Carvalho Neves

Como nos ensina Ecléa Bosi em seu livro Memória e sociedade – lembranças de velhos (Companhia das Letras, 14. ed., 2007), a sociedade em que vivemos rejeita o velho. Ao mesmo tempo em que a norma social propaga o respeito aos mais velhos, quer convencê-los a ceder seu lugar aos mais jovens. Isso pode ser observado tanto no mundo do trabalho, em que muitas vezes se relaciona idade com perda de produtividade, como nas famílias, em que filhos adultos impõem aos pais o controle de decisões que ainda caberiam a estes.

Envelhecer é um processo inerente a todo ser humano. É também um processo diverso, que pode ser tranquilo para alguns e difícil para outros, dependendo das expectativas criadas por cada indivíduo bem como das suas condições socioeconômicas. Mas, para que todos possam envelhecer com dignidade, é preciso, como disse anteriormente, construir coletivamente os direitos dos diferentes grupos que compõem a sociedade, afinal, as barreiras físicas, sociais e atitudinais com as quais nos deparamos cotidianamente atingem a todos. E, para que essa construção coletiva de fato ocorra, é necessário ouvir as experiências dos envolvidos para que com eles possamos aprender e, juntos, construir uma sociedade inclusiva para todos: independentemente da idade, do gênero, das condições físicas, sociais ou econômicas.

Crédito da imagem de destaque: Cláudia Carvalho Neves.

Cláudia Carvalho Neves é editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

[c.c.neves@uol.com.br]

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