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É hora de parar um pouco

(Texto de Ivonete Lucirio)

Já percebeu como a gente se sente na obrigação de estar fazendo algo o tempo todo? Mas não precisamos, nem devemos, viver assim. É preciso abrir espaço para o ócio. Seu cérebro agradece.

Emendar uma tarefa na outra, sem dar tempo para um respiro, parece um dos vícios mais comuns nos tempos modernos. Se tem uma horinha sobrando durante o dia, é preciso preenchê-la com algo. Muitas vezes pode até ser uma atividade de lazer, algo divertido. O que é ótimo, mas não elimina a necessidade de reservarmos um tempinho no dia, na semana, no mês, para ficar sem fazer nada. Difícil? Soa como praticamente impossível, mas necessário.

O neurocientista americano Andrew Smart, da Universidade de Nova York, reuniu provas de que o “nadismo” faz bem em seu livro Auto-pilot: the art and science of doing nothing (Piloto automático: a arte e a ciência de fazer nada). Com base em vários estudos neurológicos, o autor comprova que pausas são fundamentais para que o cérebro estabeleça novas conexões. Ficar sem fazer nada não significa que o cérebro não esteja trabalhando. “Quando deixamos de prestar atenção em algo e nos permitimos divagar, algumas áreas cerebrais específicas são ativadas, constituindo a chamada ‘rede de modo padrão’”, explica o psiquiatra Mario Louzã, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. “Grosseiramente falando, seria algo como o ponto morto no câmbio do carro: o motor está ligado, mas o carro está parado. A rigor não ficamos sem pensar em nada, mas os pensamentos fluem sem uma direção específica, de certo modo vão ocorrendo de modo solto, flutuando, viajando”, completa ele.

Nossa sociedade não costuma valorizar muito os momentos de ócio. Aliás, pelo contrário. “Desde a Revolução Industrial, é preciso estar produzindo o tempo todo”, lembra o especialista em neuromarketing Alex Born. “Você já reparou na composição da palavra ‘negócio’? É a negação do ócio”, completa ele. Nem sempre foi assim. Na Antiguidade, o ócio era valorizado porque somente os aristocratas podiam se dar ao luxo de desfrutar dele. Na sociedade que valoriza a produção, ele está associado à preguiça, à inutilidade, à improdutividade e à indolência. “Mas já existe um movimento contra isso. Uma corrente de sociólogos e filósofos modernos busca revalorizar o ócio para protestar contra uma produtividade exacerbada e desumanizadora”, comenta a psicóloga Lana Harari, de São Paulo.

Ainda bem. “Quem é produtivo o tempo todo pode cair no piloto automático. Vira um robô de si mesmo e fica difícil de reprogramar para evoluir”, compara Alex Born. Não é tão simples “não fazer nada” e deixar o cérebro entrar no modo “devaneio”. É preciso educar-se para isso. “Por definição, não é possível forçar o cérebro ao devaneio. Precisa ser algo espontâneo”, diz Mario Louzã. As técnicas variam de pessoa para pessoa. Algumas atividades que ajudam: meditar; praticar uma atividade física que não exija concentração; ler algo leve, que não demande muita atenção; ficar 10 minutos por dia sem realizar atividade alguma; sentar-se em um lugar calmo e simplesmente prestar atenção na própria respiração. É preciso encontrar o que funciona para você, o que, muitas vezes, envolve tentativa e erro. Sentou para ler e percebeu que seu cérebro está a mil? Então, talvez essa não seja a atividade indicada. Talvez seja melhor começar a ver um filme água com açúcar até conseguir se desligar. Não vale dormir. O sono é fundamental para o descanso do cérebro e a recuperação do corpo. Mas é um momento em que o órgão permanece bastante ativo.

O mais importante para conseguir “fazer nada” é permitir-se. É saber que não se trata apenas de um direito – o que é, com certeza – mas também de um benefício. Se o ditado popular diz que o “ócio é a mãe de todos os vícios”, o filósofo suíço Alain de Botton rebate: “O ócio é a mãe de todos os vícios e de todas as virtudes também”, conta Lana Harari. “Por isso, relaxe, sem culpa”.

Ócio criativo, mas nem tanto

O sociólogo italiano Domenico De Masi escreveu no final dos anos 1980 um texto cujo título é “O ócio criativo”. Desde então, o termo passou a valer como uma ode ao fazer nada. Mas não é bem isso que o sociólogo defende. Para ele, o termo significa trabalhar, divertir-se e aprender também, desde que essas atividades respeitem a individualidade da pessoa e proporcionem alegria, permitindo o desenvolvimento em todas as suas dimensões. Sim, porque toda criatividade tem de ter uma base. “Ela não ocorre por si só, do nada, sem que haja uma bagagem acumulada no cérebro”, defende o psiquiatra Mario Louzã. Cérebro desocupado não se torna, necessariamente, criativo. “A criatividade é resultado de um longo processo de aquisição de conhecimento. Tendo uma bagagem disponível, é possível que uma ideia criativa surja quando a pessoa nem estava pensando no assunto”, completa ele.

 Ivonete Lucirio, jornalista que adora escrever para revistas – digitais ou impressas. Escreve artigos para várias publicações de circulação nacional, é autora de livros paradidáticos, e já ministrou oficinas de escrita criativa.

Crédito da imagem de capa: Dragon Images/Shutterstock

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