A descoberta da autoimagem idealizada [1]

(Texto de Tania Ogasawara)

Quando me lembro como eu era na infância e na escola, logo vem a imagem de uma criança sempre meiga e sorridente. Até pouco tempo atrás, recentemente, já nos meus quarenta e poucos anos, sempre tentei ser simpática, gentil, bem-humorada, enfim, mostrar que sou uma pessoa agradável. Em certos casos, também fiz muitas coisas “porque o outro quis”, sem conseguir dizer “não” e apenas pensando no outro. Sempre achei um absurdo pessoas que se encontram no elevador e sequer se cumprimentam, atendentes que não agradecem ou não sorriem, ou seja, pessoas insensíveis aos outros.

Hoje, minha interpretação da forma de me expressar e de lidar com situações e pessoas é mais realista e consciente. Continuo validando a iniciativa, o interesse e o cuidado com o outro. Mas sem tanto uma necessidade de ser sempre simpática e de agradar a todos. No trabalho de autoconhecimento que tenho feito no grupo do Pathwork[2], isso de querer agradar tem nome. Chama-se “autoimagem idealizada”.

Em poucas palavras, a autoimagem idealizada é a imagem de perfeição que gostaríamos que os outros tivessem de nós. Nós a criamos, desde a infância, por termos aprendido – erroneamente – que seríamos amados e aceitos se fôssemos “bonzinhos”, “legais”, “simpáticos”, “gentis”. Do contrário, sofreríamos um castigo (dos pais, dos professores): a não aceitação, o desamparo e o abandono. Claro que ter uma dose de gentileza e simpatia é importante, afinal, vivemos em sociedade (como afirma Lurdes, a facilitadora do grupo de Pathwork de que participo). Mas o perigo é quando isso se torna um mecanismo de defesa num ciclo vicioso e, cada vez mais, distanciamo-nos de quem realmente somos. Como assim?! Bem, vamos lá…

Para entender melhor a autoimagem idealizada, precisamos ter uma ideia sobre a “dualidade”, outro termo usado no Pathwork. Nós, seres humanos, criamos uma falsa ideia de que há um estado de prazer e felicidade absoluta e que esta é ameaçada por situações de perda, riscos, infelicidade, ou seja, as pequenas e as grandes “mortes” que todos nós enfrentamos diariamente. Criamos dois extremos, sempre associados a algo positivo e negativo: o prazer X a realidade; a felicidade X a infelicidade; a vida X a morte.

No estado da dualidade, acreditamos que podemos evitar a “morte”. Em vez de encarar os desafios e as dificuldades como partes da vida e do aprendizado, temos a falsa impressão de que podemos manter a perfeição absoluta por meio de nosso controle. Segundo o Pathwork, um desses meios nós acolhemos como uma “pseudoproteção universal” que corresponde justamente à autoimagem idealizada.

A forma mais comum de ocorrência da autoimagem idealizada é a necessidade constante de agradar. Por exemplo, algumas pessoas (e eu me incluo) têm muita dificuldade em dizer “não”, ou de enfrentar situações de confronto de maneira direta. São pessoas sempre agradáveis, muito políticas, o que muitas vezes dificulta entender, ao certo, o que se passa internamente ou como elas se sentem verdadeiramente.

Ou, então, outro exemplo: muitas vezes me pego ansiosa, sentindo uma pressão fora do normal antes de algum evento social. Precisar levar um prato, um presente ou pensar na roupa a vestir nesse evento pode se tornar um peso excessivo e desnecessário. Ora, sentir uma certa dose de ansiedade antes de eventos sociais é natural. O problema é querer preparar um prato excepcional, levar muitos presentes e bebidas além do necessário, comprar a roupa que não precisava para não “fazer feio” e “ficar de fora”. Nesse contexto, é o alarme da autoimagem idealizada soando forte. Os sentimentos são de medo, insegurança e aniquilamento, ou a sensação de “não ter saída”, como se algo pudesse dar muito errado por um deslize qualquer.

Ao ser crítica e passar uma lupa sob o olhar da autoimagem idealizada ao longo dos anos de minha vida, encontro um padrão. Sei que, em muitos momentos, fechei portas ou me distanciei de algo que representasse risco de “infelicidade”, “morte”, ou ainda, de desmascaramento.

Crédito: Ekkapan Poddamrong/Shutterstock

Como queremos ser perfeitos e, portanto, amados, qualquer risco de ter de expor algo feio ou não aceito aos olhos da sociedade representa um risco. E quem vive na autoimagem precisa evitá-los a qualquer custo.

Em casos de algumas pessoas que se forçam a encontrar familiares ou amigos, quando na verdade já não têm mais nenhuma afinidade nem prazer nisso, perceber sua autoimagem idealizada pode ser um importante passo para conseguir fazer diferente, mais em sintonia com o que desejam ou sentem no presente.

No meu caso, mesmo sabendo que sou mais introspectiva e que prefiro momentos com poucas pessoas e conversas mais profundas, reconheço que essas características serviram como um escudo para fechar portas e me distanciar da possibilidade de “infelicidade”. Percebo que recusei muitos convites, encontros de grupos ou até mesmo a convivência com pessoas – desde o terapeuta até familiares e amigos – que por alguma razão representassem um perigo de exposição para mim. Ou seja, no meu caso, para trabalhar a autoimagem idealizada teria sido melhor enfrentar alguns desses encontros.

Curiosamente, a necessidade de mostrar a perfeição e a criação desse falso escudo levam-nos a resultados opostos, ou seja, ao fracasso, ou pelo menos ao constante sentimento dele. Nesse círculo vicioso, passamos a nos isolar do nosso “eu real”, ou nosso centro, o nosso self. Vivemos um mundo ilusório e, pior, com sentimento de medo, vergonha, ansiedade, sob constante ameaça de sermos descobertos em nossa farsa.

E qual o risco, esta infelicidade que tanto tememos e evitamos? Os motivos podem ser vários. Não ter dinheiro (o suficiente ou como os outros); não ter sucesso (seja lá o que isso signifique na mente de cada um… o suficiente ou como os outros); não ser capaz (o suficiente ou como os outros); não ser magro (o suficiente ou como os outros); não ser casado (como os outros); não ter filhos (como os outros). Ou coisas aparentemente menores e banais, mas que em nossas imagens representam nosso “ser menos”, ou nosso total fracasso.

Na situação em que não conseguimos dizer “não”, o risco é muitas enfrentar o desapontamento, a decepção do outro em relação a nós, com o terrível risco de não ter mais o amor do outro.

Enquanto escrevo este texto (nossa, como isso é terapêutico!), descubro alguns efeitos colaterais da autoimagem idealizada que carrego. Vejo como é difícil aceitar e reconhecer a qualidade ou uma realização de alguém próximo (familiar ou amigo), principalmente se estamos em estágios parecidos de vida. Por quê? Porque na minha autoimagem idealizada, eu deveria ter atingido a mesma perfeição (alcançar aquele mesmo feito externo), e eu não o fiz. Quando vivemos nessa ilusão, começamos a nortear muitos aspectos de nossas vidas para tentar alcançar as mesmas coisas, sem sucesso, porque não é um caminho próprio.

Sem a autoimagem idealizada, no estado do “eu real”, mesmo que inicialmente haja a ameaça de insegurança, “morte” e “infelicidade”, no momento seguinte, é possível olhar para o feito da outra pessoa sem perder o que sou e onde estou hoje. Consigo ver que tenho uma vida e minhas próprias conquistas. Não preciso depender de fatores externos e parâmetros de sucessos alheios; basta que eu esteja presente. E assim que estiver em sintonia comigo, sem a pesada carapaça da autoimagem idealizada, consigo, de forma autêntica, ter interesse em aprender ou estar junto ao outro que alcançou algo positivo.

Crédito: Tuzemka/Shutterstock

Tentar algo novo, com base na humildade de assumir que eu não sei, ou ainda, que eu quero (sim, muitas vezes tenho dificuldade de assumir que quero algo, porque minha autoimagem idealizada diz que isso é submissão) é muito mais leve e autêntico do que o orgulho, que carrega o medo e a insegurança e que impede de tomar qualquer atitude diante da vida.

Nesse momento, tenho a consciência de que a unidade (e não a dualidade) de encarar riscos e medos traz a grande recompensa da real felicidade e fluidez da vida. Para colocá-la em prática, em cada momento que sentir o usual “risco de morte” (risco da infelicidade, insegurança, medo), precisarei assumir e acolher esse sentimento.

Se esse sentimento surgir ao saber que participarei de um novo evento social, hoje sei que, para colocar o conhecimento em prática, devo experimentar ir, mesmo com a sensação de desconforto, para descobrir coisas diferentes das que eu imaginava e assim desfazer minhas imagens e julgamentos. Mesmo sendo difícil, é necessário focar energia, fazendo um esforço contrário ao habitual, sustentando ficar em um estado desarmado e ser quem eu sou, permanecendo na imperfeição. Como diz a facilitadora do meu grupo de Path, é parecido com o esforço que um atleta faz para praticar cada novo movimento; é cair, levantar várias vezes para aperfeiçoar (sim, é trabalhoso e dolorido!).

Segundo o Pathwork, “quanto mais sadia for a nossa atitude em relação à morte, maior a nossa capacidade de viver e sentir prazer”. Quando tomamos a coragem de assumir nossa imperfeição e encaramos as mortes diárias, vamos além do desconhecido, que muitas vezes revela uma gratificação inesperada, que nos leva a um lugar melhor ao que estávamos.  Quando aprendemos a lidar com a “morte” diariamente, o nosso verdadeiro eu se fortalece e se revela, alcançando um estágio de paz interior e prazer como nunca antes conhecido.

[1] Este texto foi escrito com base em minha experiência como participante do grupo de Pathwork (Vila Sônia, SP, conduzido pela helper Lurdes Gaspar) e também nas palestras “81 – Conflitos no mundo da dualidade” e “83 – Autoimagem idealizada”.

[2] “O Pathwork, cuja tradução literal é ‘Trabalho do Caminho’, é uma metodologia de autoconhecimento baseada em um conjunto de ensinamentos apresentados sob a forma de palestras. Estas contêm conceitos e orientações sobre como remover os obstáculos que nos separam dos outros, da nossa criatividade e energia vital, aumentar a intimidade nos nossos relacionamentos e, assim, eliminar aquilo que bloqueia nosso desenvolvimento, nossa plena realização e alegria”. Fonte: Disponível em: <http://www.pathworkbrasil.com.br/Conteudo/?ID_Pagina=25>. Acesso em: 10 abr. 2017.

Crédito da imagem de destaque: Niels Hariot/Shutterstock

 Tania Ogasawara é graduada em Engenharia Mecânica pela USP. Nos poucos anos de atuação na área, morou e trabalhou no Vale do Silício nos Estados Unidos, quando percebeu que “algo não estava certo”. De volta ao Brasil, foi atuar na área social. Morou no Recife, onde coordenou, por oito anos, projetos relacionados à educação, à empregabilidade e à transformação de jovens. Atualmente, presta serviços nessas áreas em que ganhou experiência, mas seu foco tem sido os aprendizados e o desenvolvimento pessoal. Desde 2013, participa do grupo de autoconhecimento do Pathwork.

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