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A cultura da gambiarra

(Texto de Samir Thomaz)

Extensão do movimento “Do it yourself” (DIY), ou “Faça você mesmo”, a cultura maker se populariza, ganhando adeptos entre aqueles que não se contentam em receber um mundo pronto, mas colocam a mão na massa para transformá-lo e torná-lo mais criativo, crítico, colaborativo, solidário. Há quem fale em uma nova revolução industrial.

Se você já tentou consertar um aparelho doméstico que estava destinado ao lixo; se já pensou em inventar alguma engenhoca para solucionar um problema caseiro ou industrial; se já parafusou por horas para incrementar as funcionalidades de uma ferramenta ou de uma máquina; ou se não se contém ao perceber algo funcionando de forma inadequada na casa de um amigo, você pode não saber, mas possui o espírito maker.

A terminologia é nova, mas o comportamento é antigo. A frase “Faça você mesmo”, que define a cultura maker (tradução literal do inglês “Do it yourself”, que deu origem à sigla DIY), remonta aos primórdios da humanidade. Foi ao intuir como algo poderia ser feito de maneira mais simples e proveitosa, com uma matéria-prima mais resistente ou um formato mais ergonômico, ou simplesmente ao ter o insight de como algo nunca antes imaginado poderia ser colocado a serviço dos seres humanos, que os viventes do planeta evoluíram do Homo faber às impressoras 3D. A cultura maker é tributária da perfectibilidade humana, da qual Rousseau já falava no século XVIII, que impele os indivíduos a superarem a si mesmos e a buscarem a perfeição naquilo que fazem, propriedade exclusiva do Homo sapiens.

Foram as recentes tecnologias digitais da informação, no entanto, que possibilitaram à turma que gosta de pôr a mão na massa (atitude hands on) se identificar e se perceber em uma postura comum. A cultura maker, ou movimento maker, começou a ganhar vulto em 2005, com o lançamento da revista Make Magazine e com a primeira versão da Maker Faire, a feira anual que reúne os adeptos e simpatizantes dessa cultura nos Estados Unidos. Hoje o movimento conta com centenas de milhares de pessoas envolvidas, inclusive no Brasil, influenciando a educação, o empreendedorismo e a arte.

O ano de 2005, aliás, foi fundamental para a definição das bases desse movimento. Foi nesse ano que o designer italiano Máximo Benzi e seus colegas do Instituto de Design de Interação, em Ivrea, na Itália, idealizaram a plataforma Arduino, a placa referência para os makers do mundo todo. A ideia era auxiliar os estudantes de design a lidar com a linguagem eletrônica dos programas. Ainda não se falava em cultura maker, mas o Arduino já trazia as principais características de uma plataforma maker: baixo custo, código aberto (licenças open source) tanto para hardware quanto para software e fácil aprendizado, o que o tornava acessível aos não iniciados em eletrônica.

Apesar da importância da plataforma Arduino – à qual veio se juntar depois a placa Raspberry-Pi, criada no Reino Unido para ensinar programação às crianças, mas logo usada por adultos, por sua praticidade –, a cultura maker não se baseia na máquina, na ferramenta ou na tecnologia, mas na pessoa, na atitude individual, no modo de pensar prático. Suas origens teóricas estão em um dos quatro pilares da Educação da Unesco, “Aprender a fazer”, que recomenda o desenvolvimento de competências, em vez do aprendizado automático de tarefas específicas.

Trata-se de uma mudança de paradigma significativa na forma de interagir com o mundo, pela qual tudo está por fazer, não existem respostas prontas num mundo em que a fórmula certa e o produto pronto são o modelo hegemônico. A cultura maker, assim, propõe um diálogo a partir do conceito prático de “fazer”, de buscar a solução, de intervir para ver no que vai dar. Em outras palavras, de “aprender enquanto se faz” (learn by doing).

Embora não tenha como elemento principal a máquina, as impressoras 3D (prototipagem rápida), com sua forma individualizada de produzir objetos, estão no centro da criação dos makers. Criadas em 1984, elas “imprimem” a laser, fundição a vácuo ou modelagem por injeção objetos tridimensionais em sucessivas camadas com base em um modelo criado em computador. Usam para isso desde filamentos de plástico e vidro até chocolate e massas.

Detalhe de impressora 3D criando um objeto. Crédito: Kaspars Grinvalds/Shutterstock

Um aspecto importante do modus operandi dos makers – ou “fazedores”, como também são chamados no Brasil – é seu prazer em compartilhar conhecimento. A cultura maker não existiria sem o gosto pela socialização e pela democratização dos aprendizados e a colaboração entre seus adeptos. É uma postura própria do código aberto, que tem suas raízes nos movimentos em favor do software livre dos anos 1990, dos quais a plataforma Linux é o emblema, e culmina na profusão de vídeos no You Tube ensinando a fazer alguma coisa.

Num sentido mais amplo, a cultura maker propõe o resgate da importância do trabalho manufaturado para a economia global com foco na produção individual. Se lembrarmos das aulas de história, a decadência das manufaturas está na origem da ascensão das fábricas, nos séculos XVIII e principalmente XIX, o que impulsionou o capitalismo ocidental e perdura até hoje. O movimento maker, portanto, vem questionar esse modelo, sem, no entanto, ter a pretensão de substituí-lo, mas de complementá-lo, afinal, nem tudo pode ser fabricado em casa – ainda que alguns falem em uma nova revolução industrial.

O questionamento, no entanto, acaba afetando a sociedade contemporânea por outro viés, não menos importante do que o do modo de produção. Sem que esse fosse o objetivo inicial, a cultura maker coloca em causa a forma de consumir na atualidade. Quando consertamos um aparelho em vez de jogá-lo fora e comprar a versão mais atualizada, ou quando tentamos criar uma solução mais apropriada para um problema doméstico, em vez de adquirir um utensílio que vá resolvê-lo de maneira genérica, estamos tendo uma atitude maker. No limite, estamos deixando de ser meros consumidores de tecnologia – e não apenas digital – para nos tornarmos produtores.

A consequência disso nos dias atuais são as várias oficinas de invenção, chamados de espaços makers ou makerespaços, locais coletivos, públicos ou privados, equipados com maquinário digital, como impressoras 3D, cortadores a laser e fresadores. Os tipos mais populares de makerspaços são as Fab Labs. Em 2015, havia mais de 550 Fab Labs espalhadas pelo mundo, 22 das quais no Brasil. Em São Paulo, o Fab Livre SP realiza testes em quatro Fab Labs experimentais. Trata-se de um movimento sem volta, que já está tendo reflexos na escola e na universidade.

Por seu forte teor de inclusão digital, alguns professores, por iniciativa própria, estão implantando laboratórios makers em escolas de ensino fundamental – ainda particulares e de alto padrão, é verdade –, privilegiando a cultura da prática, da criatividade, da experimentação, mais do que a cultura meramente teórica, e propiciando o protagonismo do aluno. São abordagens que estimulam o jovem a perder o medo de errar, uma forma de atuar no mundo cara aos makers. Se há uma frase que define bem essa maneira de encarar os desafios, é esta do escritor irlandês Samuel Beckett: “Tente de novo, fracasse de novo, fracasse melhor”.

A vocação maker das crianças, dos jovens e dos adolescentes só encontra paralelo na vocação natural dos brasileiros para o “faça você mesmo”. Isso é facilmente constatável na maciça presença deles nas últimas versões do Arduino Day e do Campus Party. Segundo o maker Manoel Lemos, criador do blog Fazedores, “o Brasil tem tudo para se tornar uma grande nação maker, pois somos criativos, amamos tecnologia e temos o DNA da gambiarra”.

Sites:

(Datas de acesso: 9 jun. 2017)

Vídeo

Reportagem no Jornal Nacional sobre a cultura maker:. Acesso em: 9 jun. 2017.

Livros

  • Makers: A nova revolução industrial, de Chris Anderson. Rio de Janeiro: Elsevier Brasil, 2012.
  • De baixo para cima, de Eliane Costa e Gabriela Agustini (Orgs.). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2014. Este livro também existe em formato digital, nesse link.

Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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