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Cultive a sua gaveta de fracassos

No mundo atual, e no Brasil especialmente, o fracasso é considerado pecado mortal, algo a ser descartado ou esquecido para sempre. Não é o que pensam empreendedores bem-sucedidos, como a jovem empresária Bel Pesce, que enxergam no fracasso um manancial de aprendizados úteis a novos e vitoriosos empreendimentos.

 

(Texto de Samir Thomaz)

Se há uma palavra da qual ninguém gosta, principalmente no Brasil, é fracasso. Em nosso país, há toda uma cultura sedimentada há séculos que só respeita o vencedor, aquele que sobe na posição mais alta do pódio. Os esportes refletem bem essa mentalidade. Num campeonato em que disputam 20 clubes, somente o que leva a taça de campeão comemora o título. Ao vice, só resta lamentar ter chegado à final e não aproveitar a oportunidade. Não são raras, nas Olimpíadas, imagens de atletas emocionados recebendo a medalha de ouro, enquanto ao seu lado outro competidor, inconsolável, mal olha para a medalha de prata que recebeu. Sem contar o famigerado 7 a 1 que o Brasil levou da Alemanha na Copa do Mundo de 2014, que se transformou em emblema não apenas de fracasso coletivo, mas de incompetência, má gestão e falta de seriedade na condução de um projeto. Não deveria ser assim, mas é. Ou você é o campeão, ou não é nada. Ou pior, ou é um loser, um perdedor. “Ao vencido, ou ódio ou compaixão… Ao vencedor, as batatas!”, já escrevia Machado de Assis no século XIX.

Essa ojeriza ao fracasso costuma ter efeito imediato no âmbito pessoal, que leva a dois comportamentos muito próximos: ou se procura eximir-se de responsabilidade pelo fiasco ou se joga a culpa nas costas de quem estiver mais próximo, não raro a equipe ou algum subordinado. Quem já não conviveu com aquele chefe ou gestor que tem por hábito assumir os louros na vitória e esconder-se na derrota? Ou quantas vezes não culpamos o professor por uma nota baixa ou reprovação, o motorista do outro carro por uma imperícia cometida por nós no trânsito, os políticos por uma postura que nós mesmos cometemos no dia a dia? É uma postura mais recorrente do que se imagina, o que dá a dimensão do peso negativo que um fracasso ou erro carrega em nossa sociedade.

Crédito: paineldoempresario.com.br

No campo do empreendedorismo, no entanto, as coisas não são bem assim. Ou pelo menos estão mudando. Muitos empreendedores, em seus depoimentos de vida, não hesitam em atribuir ao fracasso muito de suas conquistas. Eles não encaram o fracasso como o fim de tudo, mas como um degrau pelo qual têm de passar antes de alcançar o degrau seguinte. Nos Estados Unidos e na Europa já se partilha há algum tempo dessa postura. É bem conhecida a frase do escritor irlandês Samuel Beckett: “Não importa. Tente novamente. Fracasse novamente. Fracasse melhor”. Para os anglo-saxões, a glória, portanto, não está apenas na conquista, mas nas lições que o “caminho das pedras” costuma proporcionar. Nesse sentido, derrotado não é quem fracassa e segue em frente, mas quem desiste diante do primeiro obstáculo.-

Em um de seus instigantes caderninhos, “Avaliar os fracassos”, a jovem empreendedora Bel Pesce discorre sobre o fracasso ou aquilo que não deu certo. Embora jovem e bem-sucedida em seus projetos, ela não deixa de considerar a importância dos fracassos. Bel vai além: ela não apenas considera o fracasso como algo que não deve ser descartado, como relativiza a importância dos êxitos. Em outras palavras, para a jovem empresária, o fracasso pode ter muitos pontos em comum com o sucesso. E por isso, aquilo que ela chama de “gaveta dos fracassos”, o lugar para onde enviamos aquilo que não deu certo, não deve ser tão desprezado assim. Muitas vezes, ali estão soluções e estratégias válidas para projetos futuros, que podem não ter servido em uma determinada situação, mas que podem servir em outras.

O que a Bel Pesce está querendo dizer é para tomarmos cuidado com as “receitas” de sucesso, tão comuns em livros e vídeos disponíveis aos montes no mercado, que consideram apenas o sucesso como ideal. Por extensão, o cuidado deve ser o mesmo com as imagens de felicidade e beleza que costumam ser disseminadas nas novelas, nos filmes e nas redes sociais, em que as pessoas são mostradas sempre elegantes, bem-sucedidas, em lugares bacanas ou ângulos favoráveis. A vida real não é feita apenas de êxitos e vitórias. As profissões nem sempre são glamourosas. Na realidade, por trás de uma história bem-sucedida, existe muito suor e trabalho. E muito fracasso também. O glamour é apenas uma parte mais visível, valorizada pela mídia, porém muitas vezes ilusória.

Somos humanos, sujeitos a erros e equívocos. O mal não está em errar, mas em persistir no erro. Ou em desistir diante da primeira derrota. Assim, não encerre seus empreendimentos malsucedidos em uma gaveta ou, pior, não os lance ao cesto de lixo, como algo a ser esquecido. Cultive-os como o adubo que poderá fecundar projetos futuros que poderão vir a dar certo.

Samir Thomaz é jornalista, escritor e editor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014), Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros.

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