Comece a viver mais a partir de hoje

Longevidade é algo que vai sendo construído no decorrer da vida, não apenas com hábitos saudáveis, mas com gestos e posturas positivas diante da vida.

(Texto de Ivonete Lucirio)

As pessoas estão vivendo mais. Quem nascesse em 1900 na Europa poderia esperar chegar aos 40 anos. Na atualidade, a expectativa de vida é pelo menos o dobro. E isso é uma boa notícia. Mas será que viver mais significa viver bem? Essa pergunta já é mais difícil. Cerca de 25% da maneira como vamos envelhecer é determinada pelos genes. Mas sobram 75% para ser trabalhado por toda a vida. Existe uma série de atitudes que contribuem para a boa saúde física, como alimentação adequada e prática de atividades físicas. Mas – tão importante quanto o corpo saudável – é estar bem do ponto de vista psicológico. As pesquisas cada vez mais seguem nesse sentido, tentando identificar o que a pessoa pode fazer no decorrer da vida do ponto de vista comportamental para que possa viver mais tempo mantendo o nível de felicidade elevado.

A grande maioria das pesquisas aponta para a rede de relacionamentos que se constrói. “Sabe-se que manter uma rede social ativa, ser casado, ter religião e fé, praticar atividades físicas, participar de grupos, ter acesso a momentos de lazer ou à educação favorecem a longevidade. Isso porque esses fatores estimulam a autonomia, melhoram a autoestima e proporcionam uma inserção social maior”, diz Ana Laura Figueiredo Bersani, geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

São muitos realmente os processos envolvidos no envelhecimento, o que demanda uma abordagem mais complexa e de longo prazo para aumentar as chances de viver bem na terceira idade. “Defendemos o conceito de envelhecimento ativo. Ou seja, durante toda a sua vida a pessoa trabalha para melhorar o bem-estar ao envelhecer”, explica a gerontóloga Ina Voelcker, diretora técnica do Centro Internacional de Longevidade – Brasil, no Rio de Janeiro. O envelhecimento ativo está baseado em quatro pilares:

  • Saúde: é um fator determinante para que a pessoa viva bem em qualquer fase da vida.
  • Aprendizagem: o conceito de educação continuada proporciona vários benefícios. “Primeiro, o cérebro está sempre ativo, recebendo estímulos, o que diminui a degeneração que vem com a idade”, diz Ina. “Além disso, estar sempre aprendendo faz com que a pessoa esteja inserida na sociedade e mantenha um leque maior de relacionamentos”, completa ela.
  • Participação: de uma forma mais ampla, leva em consideração o envolvimento social, político, cívico e religioso.
  • Segurança: envolve uma concepção aberta de segurança, como a financeira, para garantir conforto, uma das que mais depende das atitudes que se tomam durante a vida; a proteção contra violência; e ter uma casa que atenda às condições ideais quando se chegar à velhice.

Vamos ver agora o que a ciência tem a dizer sobre como envelhecer bem.

Quem tem amigos vive mais e mais feliz

Ter amigos é importante para o bem-estar psicológico e para a saúde de modo geral. Os benefícios são estudados desde os anos 1970. Um estudo que durou nove anos mostrou que pessoas sem laços sociais apresentam uma chance 2,8 vezes maior de morrer prematuramente. A solidão representa um fator de risco mais significante do que fumar ou beber álcool. Um levantamento recente mostra que o networking proporcionado pelas redes sociais também pode ser positivo se bem usado. A proximidade física da família e amigos é muito importante. Mas é cada vez mais comum o número de pessoas vivendo longe da família e do local de nascimento, o que leva à quebra de laços sociais. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, avaliaram 12 milhões de usuários de rede social nascidos entre 1945 e 1989 e monitoraram sua atividade on-line por um período de seis meses. Concluíram que os usuários de Facebook são 12% menos propensos a morrer do que os que não estão na rede. Mas isso vale apenas se a atividade na rede social for um reflexo do que se passa fora dela: os pesquisadores consideraram que o número de amigos virtuais, fotos, publicações e mensagens enviadas refletem o número de amigos na vida real.

Casamento traz benefícios psicológicos às esposas e físicos aos maridos

Isso vale também para os relacionamentos de longa duração entre homem e mulher, ainda que não seja formalizado, segundo demonstrou uma pesquisa realizada pela Universidade de Cardiff, no País de Gales. O estudo avaliou um bilhão de pessoas em sete países da Europa e identificou ainda que quem está em uma relação estável apresenta taxas de mortalidade de 10 a 15% menor do que a população em geral. Isso, claro, se for uma relação de qualidade, que não envolva danos psicológicos e físicos nem aumento de estresse.

Disciplina garante melhores hábitos

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, reavaliaram o resultado de 20 estudos psicológicos e concluíram que disciplina, consciência e persistência fazem as pessoas viverem até quatro anos mais do que os que desenvolvem impulsividade e falta de disciplina. Além disso, pessoas que atingem a autodisciplina não apenas vivem por mais tempo, como são também mais felizes. Segundo os pesquisadores, isso acontece porque indivíduos com essas características positivas apresentam melhores hábitos de saúde, correm menos riscos, vivem em ambientes mais saudáveis, têm empregos estáveis e relacionamentos sólidos.

Tenha fé, muita fé
Não importa a religião, desde que você desenvolva a espiritualidade. Isso aumenta a sensação de que a vida tem um significado, amplia o círculo de relacionamentos, estimula o otimismo e diminui os índices de depressão. Essas são conclusões de um longo estudo chamado Nurse´s Health Study, realizado nos Estados Unidos, que avaliou vários aspectos da vida de 75 000 enfermeiras de meia idade, entre 1992 e 2012. Os pesquisadores concluíram ainda que mulheres que vão à igreja ao menos uma vez por semana apresentam um risco 33% menor de morrer.

Não se aposente tão cedo

Descanso é bom e o ideal é se programar para ir diminuindo o ritmo pouco a pouco, sem paradas abruptas. Do contrário, a mudança radical de hábitos e a falta de tarefas, em vez de provocarem prazer, podem levar à depressão, ainda que a pessoa não dependa do dinheiro. Aposentar-se cedo também pode não trazer benefícios, ao contrário do que diz o senso comum. Uma pesquisa clássica atribuída à empresa de aviação Boeing – mas que ela não assume ter feito – sugere que quem se aposenta aos 55 anos vive, em média, até os 83. Já quem se aposenta aos 65 ganha mais 18 meses de vida. Os dados são corroborados por outra pesquisa – dessa vez oficial – realizada pela empresa Shell.

Você é o que você come

Há várias pesquisas que mostram que reduzir o número de calorias em 25% aumenta o número de anos que se vive – podendo variar de cinco a dez anos, dependendo do estudo – e acrescenta qualidade também. O ideal é não ultrapassar as 1800 calorias diárias, indicadas para um adulto. E a ingestão de vários alimentos e bebidas parece influir positivamente, como uma taça de vinho por dia. Outros alimentos que fazem a diferença são grãos integrais, peixe, castanhas e óleo de vegetais não tropicais como azeite de oliva, amendoim e cártamo. Uma pesquisa que durou 12 anos e foi realizada na China acrescentou um alimento a essa lista: pimenta. Sim, e deve ser consumida diariamente para fazer efeito.

Você é também como você malha

Que fazer exercícios melhora a qualidade de vida e a longevidade não é novidade. Mas qual exercício? Um estudo publicado pelo British Journal of Sports Medicine – que avaliou mais de 80 mil adultos durante 11 anos – concluiu que os esportes que mais acrescentam qualidade à vida são: esportes com raquete, natação, aeróbica, ciclismo, nessa ordem.

Finalmente, bons sonhos

Dormir bem está entre os fatores determinantes para a saúde atual e futura. Um trabalho realizado por médicos da Universidade de Nagoya, no Japão, avaliou durante 12 anos um grupo de habitantes da cidade de Gifu. O risco de morte para quem dorme menos de sete horas diárias é quase duas vezes maior do que os que ficam com os olhos fechadinhos entre sete a dez horas por noite. E não adianta começar a dormir mais quando chegar aos 70 anos. É preciso cultivar bons hábitos de sono no decorrer da vida. O sono é fundamental para vários processos vitais, como a produção de determinados hormônios. Dormir menos do que o necessário é mais ou menos como carregar a bateria do celular pela metade. Com o tempo, a vida útil do aparelho diminui.

São todos um conjunto de hábitos, atitudes e posturas que vão sendo construídos no decorrer da vida, de modo a desenvolver positividade e autoestima diante da vida.

Ivonete Lucirio, jornalista que adora escrever para revistas – digitais ou impressas. Escreve artigos para várias publicações de circulação nacional, é autora de livros paradidáticos e já ministrou oficinas de escrita criativa.

Crédito da imagem de destaque: Site 50 e mais.

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