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Carobé – a Chapada tem dono

(Texto de Daniel Zungolo Teixeira)

O complexo da Chapada Diamantina é uma enorme área no interior da Bahia que reúne inúmeras, e algumas ainda desconhecidas, cachoeiras, grutas e trilhas, em propriedades públicas e particulares.

O turista que vai a essa Chapada certamente gastará muito dinheiro com o custo de entrada em propriedades que abrigam os atrativos naturais. Boa parte dessas propriedades é gerida por estrangeiros e senhores ricos que descobriram o local e adquiriram a posse da terra com o objetivo de lucrar, por meio da oferta de diversos serviços, desde almoço até fotografias, estacionamentos e brindes. Quase todos eles exploram a beleza natural do lugar, implementando construções, abrindo caminhos, empregando irregularmente mão de obra barata e desrespeitando os princípios de preservação do meio ambiente.

Na famosa Cachoeira do Buracão, localizada na porção sul desse Parque Nacional, na cidade de Ibicoara, encontramos os guias locais, cuja contratação ocorre por um preço bastante reduzido, comparando com o de guias das demais cidades do complexo. A contratação dos guias locais é obrigatória, para chegar com segurança até os pontos mais importantes da região.

Para visitar essa cachoeira, contratamos o guia Carobé, cujo nome religioso e complexo ele cita quando perguntado, embora prefira mesmo o apelido. O motivo do apelido nem ele sabe dizer. Carobé tem cerca de 30 anos, nasceu em Ibicoara e nunca saiu de lá. Mora em uma casa de pau a pique, em uma área isolada. Aliás, isolados ele e a comunidade viveram até os seus 9 anos de idade, quando teve início o único serviço que transportava as crianças para fora da área: o ônibus escolar. Foi assim que Carobé saiu de seu perímetro local. Até os 9 anos, Carobé nunca tinha ido à escola. Até os 30, nunca foi muito longe dali. Segundo ele, o prédio mais alto que viu não devia ter mais do que 3 andares. Ao ser questionado sobre a curiosidade em expandir o conhecimento de outros lugares, ele responde, de forma simples, tranquila e firme: “Eu tenho tudo aqui, como o que planto, tenho minha família, amigos; não preciso de mais nada”.

No caminho sinuoso da trilha, eu, logo atrás de Carobé, enquanto procurava decifrar aquele ser curioso – ao menos para mim –, nascido e crescido no mato, no isolamento do mundo caótico-urbano, notei que ele se abaixou e projetou uma das mãos ao chão. Ao focar um pequeno objeto, notei que ele se agachara para pegar um pequeno pedaço de alumínio – uma metade de um abridor de lata de refrigerante. Era lixo caído que rapidamente ele, sem pestanejar, nem fazer propaganda do ato, colocou no bolso da bermuda, provavelmente para descartá-lo em algum local adequado e, assim, conservar o meio ambiente e o lugar onde vive.

Ao chegar ao poço do Buracão e me espantar com a sua rara e emocionante imponência e energia, me viro para Carobé e digo: “Agora entendi por que você não quer sair daqui”. Ele responde olhando e apontando para a queda-d`água: “E pra onde eu iria?”.

Entre todos os títulos de posse de terras e a arrecadação financeira pelo acesso ao parque, tive uma certeza: Carobé é um dos raros verdadeiros donos da Chapada. Os demais são donos apenas do dinheiro.

Daniel Zungolo Teixeira é geógrafo, editor e autor de textos e de materiais didáticos. 

 

 

 

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revista, jornais, revistas empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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